Rory McIlroy fez no Masters aquilo que só Tiger Woods, que um dia tentou imitar, conseguiu nos últimos 30 anos
McIlroy festeja o seu segundo Masters consecutivo
David Cannon
No local onde, em 2011, viveu a maior desilusão da carreira, o norte-irlandês cimentou a sua lenda. Rory McIlroy venceu o Masters pela segunda vez consecutiva, algo que só Jack Nicklaus, Nick Faldo e Woods conseguiram
As histórias de queda e redenção têm o seu quê de fecho de ciclo. Ou de obra do destino, que se vai escrevendo nas sombras, sem que os protagonistas notem. No domingo, quando cerrou os punhos e gritou para o céu, o céu da casa espiritual do golfe, o Augusta National Golf Club, Rory McIlroy sabia que não festejava apenas uma vitória num major. Festejava a confirmação que aquele casaco verde, que lhe fugiu durante tanto tempo de forma dramática, lhe assenta mesmo bem.
Ao terminar com um agregado de 276 pancadas, menos uma que o número um mundial, Scottie Scheffler, o norte-irlandês fez bis no Masters, conquistando o seu sexto título em torneios major. Historicamente mais relevante, McIlroy, com duas vitórias seguidas na mais mítica das competições de golfe, juntou-se a Jack Nicklaus (1965-1966), Nick Faldo (1989-1990) e Tiger Woods (2001-2002) como os únicos golfistas a conseguirem revalidar o título no Masters.
E é aqui que as histórias entrelaçam os dedos.
Em 2011, Rory McIlroy era um promissor golfista em busca da sua primeira grande vitória. E ela esteve quase a acontecer no Masters. Chegados ao último dia, McIlroy tinha quatro pancadas de vantagem para a concorrência, mas o pesadelo começou no buraco 10. Fez um triplo bogey aí, seguido de um duplo bogey no 12º. No final do dia, era apenas 15º, 10 pancadas atrás do vencedor, o sul-afreicano Charl Schwartzel.
O norte-irlandês com o mítico casaco verde oferecido ao vencedor do Masters
Augusta National
O colapso foi lendário e durante anos acompanhou McIlroy no Masters, como uma espécie de fantasma. Um dos mais talentosos golfistas europeus da história arrastava uma malapata. Anos mais tarde, no podcast Whoop, admitiu que nesse último dia do Masters de 2011, tentou ser alguém que não era. E que essa atitude seria fatal: “Estava a tentar ser outra pessoa que eu não sou. Estava quase a tentar ser como o Tiger Woods - hiper-focado, sem falar para ninguém, todo profissional. E isso nunca fui eu”.
Ao não tentar voltar a ser como Tiger Woods, Rory McIlroy conseguiu finalmente igualar o lendário golfista norte-americano, nos últimos meses mais vezes notícias pelas suas desventuras fora do green do que em competição. Depois de há um ano ter entrado na restrita lista de seis golfistas que fizeram o Career Grand Slam, ou seja, vitórias nos quatro majors, onde está também Woods, no domingo, repetiu o que Tiger fez há quase 30 anos no Masters, não sem algum drama, o modus operandi do norte-irlandês.
Depois de dominar a competição nas duas primeiras voltas, o atual número dois do mundo foi caindo no sábado e iniciou o domingo com um duplo bogey e um bogey, mas foi recuperando ao longo do dia com quatro birdies, o que lhe permitiu terminar à frente de Scheffler, campeão em 2022 e 2024.
“Esperei tanto tempo para ganhar o Masters e, de repente, tenho duas vitórias seguidas”, lançou, quase em jeito de desabafo, um muito aliviado Rory que, aos 36 anos, não parece querer ficar por aqui. “Ainda há coisas que quero atingir, mas agora também quero aproveitar isto”, continuou.
Com seis majors, Rory McIlroy igualou Lee Trevino, Nick Faldo e Phil Mickelson, mas segue ainda longe de Tiger Woods, com 15 majors, ou de Jack Nicklaus que, com 18, continua a ser o líder da lista de maiores vencedores nos quatro torneios mais importantes do golfe.