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O homem que ganhou às duas horas na maratona tinha duas fatias de pão, mel e chá na barriga. E nos pés as sapatilhas mais leves de sempre

Sabastian Sawe no final da Maratona de Londres a mostrar a sapatilha da Adidas, a mais leve de sempre, com que se tornou o primeiro humano a correr a distância em menos de duas horas: e com a qual quase dividiu o protagonismo
Sabastian Sawe no final da Maratona de Londres a mostrar a sapatilha da Adidas, a mais leve de sempre, com que se tornou o primeiro humano a correr a distância em menos de duas horas: e com a qual quase dividiu o protagonismo
Alex Davidson

Filho de uma mãe campeã de corridas escolares e criado pela avó, Sabastian Sawe treina no afamado Vale do Rift, no Quénia, viveiro de campeões das distâncias de fundo. O primeiro humano a correr a maratona em menos de duas horas fê-lo de estômago pouco cheio, com as primeiras sapatilhas nos pés que pesam menos de 100 gramas e a pedir, por favor, que lhe façam o maior número de testes anti-doping possível para que ninguém duvide dos seus feitos

Mil novecentos e sessenta não dista assim tanto de onde nos vemos hoje. Já havia televisão a cores, existia um computador pessoal, o homem estava quase, quase a voar até ao espaço. Nesse ano, Abebe Bikila correu os 42,195 quilómetros nos Jogos Olímpicos em 2:15.16 segundos, fixando o recorde mundial despido de ajudas tecnológicas: em Roma, completou a maratona descalço. Quatro anos mais tarde, já o mundo entrara em histeria com os Beatles, o etíope repetiu o ouro olímpico, reduzindo a marca para 2:12:11s munido de calcantes nos pés.

Terem sido subtraídos, em 62 anos, tantos minutos e segundos à maratona não espanta. É inato ao homem é superar o que já foi feito. Surpreenderá mais a pacata reação, quase rotineira, de Sabastian Sawe ao desaguar na meta em Londres, no domingo, com o relógio montado na estrutura da prova a mostrar 1:59.30 segundos: estendeu os braços ao levar adiante a fita da meta, mas, na cara, o queniano pintou-se quase com indiferença, sem aparentar euforia, sequer alegria, por ser o primeiro humano a completar a maratona em menos de duas horas.

Ouvi-lo não partilha a frequência com o ato de vê-lo. “Quando cruzei a linha de chegada vi o tempo e emocionei-me muito”, garantiu à BBC, caído em si. “Sinto-me bem, estou muito feliz, é um dia para recordar”, admitiu o telegráfico queniano, de quem vimos o branco dos dentes, já ele descansara um pouco, quando posou para a fotografia ao segurar o pedaço de tecnologia que o empurrou para a vitória. Após a prova, Sawe deixou-se fotografar com uma das sapatilhas da Adidas que calçou, branca de cor com os 1:59.30 segundos e um sub2 escritos a caneta preta na sola. Quase nenhum esforço lhe exigiu para a segurar na mão: pesa 96 gramas.

Em pouco mais de meio século, o homem evoluiu de correr a maratona descalço a ser ajudado por um trampolim calçável, com uma placa de fibra de carbono dentro da sola de espuma, revestido com um material semelhante à das velas de kytesurf, tudo mais leve do que uma maçã ou um baralho de cartas. O modelo nos pés de Sawe também calçou Yomif Kejelcha, o segundo classificado mais glorioso (ou ingrato, algum será) da história, ao imitar o queniano e fazer um tempo inferior a duas horas na sua estreia em maratonas, além de Tigst Assefa, vencedora da prova feminina que melhorou (2:15.41) o seu recorde mundial.

Quatro dos homens que terminaram no top 5 coincidiram nas sapatilhas. O plano engendrado pela Adidas resultou: três dias antes da Maratona de Londres, o modelo em questão, apesar de ainda não estar à venda, foi desvendado ao público.

Sabastian Sawe antes do arranque da Maratona de Londres, apenas a quarta prova em que participou
Marvin Ibo Guengoer - GES Sportf

Sem dinheiro para lavar roupa

Com 31 anos e tão-só à quarta maratona da carreira, Sabastian Sawe roubou dois minutos e trinta e cinco segundos à sua anterior melhor marca com a ajuda das sapatilhas, além de 35s ao recorde mundial de Kelvin Kiptum, compatriota falecido em 2024, levado por um acidente de carro quatro meses após ser o primeiro atleta a baixar das duas horas e um minuto.

Pode ser incrível a este ponto era uma denúncia recente na vida do queniano. Há pouco mais de quatro anos, em Sevilha, a organização da maratona andaluz contratou-o para servir de lebre - marcar um certo ritmo pré-definido para ser uma referência a quem compete e facilitar a manutenção da cadência de corrida -, mas um membro da empresa que o representava puxou uns cordelinhos e logrou que Sawe fosse inscrito na meia-maratona como atleta com a promessa de que honrasse a sua função de lebre até metade da distância.

Cumprido o dever, descolou do grupo, acelerou ao seu ritmo e venceu a tirada. O queniano, conta o El País, teve de agradecer duplamente ao diretor da corrida, a quem pediu dinheiro emprestado para lavar o equipamento na véspera.

Contar trocos é hoje só memória. Na corrida ao ouro que recheia, há muito, o mundo da maratona, a Adidas contratou Sabastian Saw para ter mais um atleta que calçar com os frutos dos seus esforços para hiperbolizar humanos na fuga ao tempo que se julgava impossível: correr a maratona em menos de duas horas. Em 2019, a rival Nike, ajudada pela INEOS, montou o postiço evento, em Viena, onde Eliud Kipchoge, nome maior da modalidade, teve profissionais a servirem de lebres, um carro a cortar o vento e as sapatilhas mais vanguardistas nos pés para tentar ser o homem que arrancaria a Excalibur da pedra da corrida.

Correu até ao sucesso, o cronómetro parou nos 1:59.40s, a espada ficou-lhe nas mãos, mas com batota. Todas as ajudas que recebera, proibidas em competições oficiais, ilegalizaram o feito.

Em Londres, onde Sabastian Sawe inculcou o seu nome na pedra do desporto, nunca alguém correra abaixo dos dois minutos e dois segundos. “Para esta geração, ficamos a saber que é possível. Mostrei que nada é impossível. É uma questão de tempo”, disse o queniano, já recordista e lendário, após a maratona que perfez a um ritmo médio de 2:49s por quilómetro. Para um humano comum que pratique desporto regular, imagine correr a distância do tabuleiro da Ponte Vasco da Gama, quase três vezes e sempre no máximo de velocidade que consiga.

Sabastian Sawe, em Londres, com a primeira sapatilha da história a correr os 42,195 quilómetros em menos de duas horas
Alex Davidson

E só com duas fatias de pão, um pouco de mel e uma chávena de chá no estômago. Foi esse o pequeno-almoço de Sabastian Sawe. Em prova, abasteceu-se com os tradicionais géis de carbohidratos a cada cinco quilómetros.

De barriga leve se embalou o queniano rumo ao apogeu da humanidade a correr contra o relógio, com a raridade a avistar-se não apenas na sua façanha. Até a Nike, que não o patrocina e não logrou ser a marca nos pés do primeiro atleta a fugir às dois horas, congratulou o feito do atleta nas redes sociais. O incrível furou rivalidades. “O relógio foi posto a zeros. Não há linha de meta”, partilhou, acrescentando como resposta à sua própria publicação um “well done” a Sawe - nestas coisas, em particular nos lemas e slogans da marca fundada por um carola da corrida, soa tudo melhor em inglês.

Como resposta, não direta mas omnipresente, porque na corrida os atletas calcam alcatrão enquanto as marcas correm entre si, a Adidas apostou numa fotografia da agora recordista sapatilha, com o tempo e o lugar escritos na sola. A legenda: History maker.

Sabendo o queniano e a Adidas que tem por trás que um recorde estaria para vir, também fizeram para que tudo soasse melhor neste dia face ao mau que soaram os recentes episódios de doping com atletas do seu país. No contrato de Sabastian Sawe está previsto que a marca alemã doe, por ano, 50 mil dólares à Agência de Integridade do Atletismo, a reguladora anti-dopagem na modalidade, para financiar, ao longo da temporada, os testes que no seu caso foram bastante mais frequentes.

A seu pedido, em 2025 e só nos dois meses anteriores a ganhar a Maratona de Berlim, prova onde afunilou o seu esforço para tentar bater o recorde do mundo (sem sucesso, o calor não ajudou), foi controlado 25 vezes, sempre ao sangue e à urina, um número anormal de elevado para um maratonista. Este ano aproximar-se-á dessa contagem. Mais de 130 atletas do Quénia estavam então suspensos, incluindo Ruth Chepngetich, mulher que ficou sem o seu recorde do mundo por tomar um diurético proibido. Hoje constam para lá de 90 atletas do Quénia com castigos em vigor no site da entidade.

“Queria provar ao mundo que nós, quenianos, podemos alcançar resultados incríveis sem a nuvem escuro do doping sobre as nossas cabeças”, explicou Sawa ao site LetsRun. “Queria que as pessoas soubessem que acontecesse o que acontecesse nao corrida, não poderiam duvidar de mim.Sabastian Sawe corre por várias reputações e faz questão de se submeter aos controlos, quantos mais melhor.

Do Quénia e do seu Vale do Rift, viveiro de maratonistas e atleta de fundo, lugar onde as pessoas correm antes de caminharem, veio o primeiro humano a enchutar as duas horas. Criado pela avó, lá deixado pelos pais agricultores que se realocaram para outra região do país - a mãe chegou a ser a campeã nacional da maratona a nível escolar -, Sabastian Sawe cedo rumou ao místico vale para treinar nas mesmas condições que forjaram Eliud Kipchoge, quiçá o mais sublime atleta queniano da história. “Esta foi a prova de que estamos apenas no início do que é possível quando se juntam o talento, o progresso e a crença inabalável no potencial humano“, escreveu o tricampeão olímpico, ao congratular o compatriota.

E quis realçar o seu ponto. Que este feito inspire as próximas gerações“, insistiu, “e lembre todas as pessoas no mundo de que nenhum humano tem limites“.

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