O lado épico da derrota: Yomif Kejelch conseguiu um dos feitos mais perseguidos do desporto, mas mesmo assim perdeu
Yomif Kejelcha terminou a maratona de Londres em 1:59:41 segundos: antes dele (ou 11 segundos antes de dele) só Sabastian Sawe correu a distância em menos de duas horas
Alex Davidson
O etíope em estreia na distância conseguiu algo sem paralelo na história da humanidade: completar uma maratona abaixo das duas horas. Só não foi o primeiro humano a fazê-lo, porque, meros 11 segundos antes, Sabastian Sawe conseguiu algo nunca visto ao longo da história
Foi preciso esperar milhões de anos desde a inauguração do universo até 26 de abril de 2026. Entre a imensidão de acontecimentos que separam um momento e o outro, nunca nenhum ser vivo foi capaz de correr uma maratona abaixo das duas horas em contexto de corrida. No mesmo dia, duas pessoas o fizeram. A aleatoriedade que baralha os grandes feitos, por vezes, é tendenciosa.
Com metas bem definidas, Yomif Kejelcha disse logo em 2024 que, após competir nos 10.000 metros nos Jogos Olímpicos de Paris (ficou em quinto), a “maior ambição” era fazer “um tempo rápido na maratona”. No ano seguinte, em Valência, estabeleceu o recorde do mundo na meia-maratona (57:30) preparando-se para na edição de 2026 da Maratona de Londres estrear-se na distância monstra do atletismo.
Até aqui, as duas horas estabeleciam-se como o limite do razoável. Tudo o que estivesse do lado de lá já não dizia respeito aos humanos. No entanto, graças ao impulso dado pelas super sapatilhas que vieram obliterar todos os recordes, passou a ser tentador ultrapassar essa fronteira. Vários atletas foram cobaias da ciência de modo a arriscarem quebrar essa barreira (e, simultaneamente, a marca que os patrocina ter um impulso de vendas).
Yomif Kejelcha na sombra de Sabastian Sawe, tal como ficou o feito do etíope
Warren Little
Em 2019, Eliud Kipchoge correu uma maratona em 1:59:40. O registo não foi considerado válido para a obtenção do recorde do mundo por não ter sido alcançado em condições naturais. O queniano alcançou tal desempenho durante um evento, o Ineos 1:59 Challenge, em que lhe foram proporcionadas condições quase laboratoriais para o fazer: percurso retilíneo ao longo do Prater, em Viena, variações nulas de altitude e grupos de corredores a abrigarem-no da resistência do ar.
De maneira natural, Yomif Kejelcha conseguiu um dos feitos mais perseguidos do desporto e terminou a maratona de Londres em 1:59:41. Mesmo assim, não ganhou a corrida. Ficou atrás de Sabastian Sawe (1:59:30). Há derrotas que também são épicas.
“Até aos 41 km, estava a desfrutar. Estava relaxado e o meu corpo estava ótimo.” Pelo que o etíope de 28 anos diz, não foi nada assim tão custoso. No entanto, “é maluco” o resultado que conseguiu na primeira vez que lhe deram tanta estrada para correr.
A cara da Adidas que a Nike ajudou a criar
Yomif Kejelcha pôs-se a correr para fora da escola no 9º ano e o pai colocou-o a andar de casa. O progenitor não levou a bem que uma das nove crianças da família fosse tão precipitada a decidir seguir uma carreira profissional no atletismo. Graças à benevolência da mãe, voltou ao domicílio quando teve a possibilidade de se candidatar à polícia.
Após um início de carreira a dividir-se entre o meio-fundo e o fundo, o tipo de corridas que passou a realizar demonstra que quanto mais longa a distância, melhores os resultados. Aliás, desde 2023, que Kejelcha não participa numa prova abaixo dos 3000 metros. Os maiores logros da carreira foram obtidos nos 10.000 metros, em pista. Foi nessa distância que conquistou duas medalhas de prata em Mundiais (2019 e 2025).
Tal como Sabastian Sawe, Kejelcha também levou calçadas as Adizero Adios Pro Evo 3 na maratona de Londres. A Adidas publicitou-as como as suas “primeiras super sapatilhas sub-100 gramas”, mas nada melhor para as vender (custam €500) do que os resultados obtidos pelos poucos atletas que já as calçaram. Curiosamente, em 2018 e 2019, Yomif Kejelcha fez parte do Nike Oregon Project, um programa de desenvolvimento de atletas na sede da marca norte-americana rival da Adidas. O grupo de treino foi desfeito após o treinador, Alberto Salazar, ter sido suspenso por violação do regulamento anti-doping.