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O prodígio Wu Yize é mais um campeão mundial de snooker chinês, mal sorri e acha que o estão sempre a apupar

Wu Yize tem 22 anos e é o segundo campeão mundial de snooker seguido da China
Wu Yize tem 22 anos e é o segundo campeão mundial de snooker seguido da China
George Wood

O chinês tímido, de 22 anos, mudado para Sheffield há uns anos onde conquistou o Mundial de snooker, quase nem sorriu e pensou que o público do The Crucible Theatre gritava “buuu”, para o vaiar, quando na verdade dizia o seu nome: Wuuuu.“ Yize sucedeu a Zhao Xintong como o melhor jogador do planeta

Wu Yize é o novo campeão do mundo de snooker e, ao contrário de muitos campeões que parecem ter sido preparados em laboratório, a história deste jovem chinês tem cortes, erros, saudades de casa e uma espécie de inocência que o torna humano. Aos 22 anos, vindo de Lanzhou, no noroeste da China, entrou para a lista dos campeões do The Crucible Theatre, a casa espiritural da modalidade onde todos os anos se disputa o Mundial, como o rosto mais nítido da nova vaga chinesa.

A final que lhe deu o título, contra o Shaun Murphy, foi um drama típico do snooker. O placar ficou 18-17, decidido no último frame, a primeira negra num jogo de título mundial em 24 anos. Wu esteve à frente, tremeu, viu Murphy recuperar, viu o troféu afastar-se e voltar, falhou bolas que provavelmente o vão assombrar durante algum tempo e, no fim, encontrou uma vermelha difícil no centro que abriu caminho para o break que o fez campeão.

Enquanto isso, nas bancadas do Crucible ouvia-se um som prolongado, grave, que em televisão podia soar a vaias: “Wuuuu.” Nas entrevistas após o jogo, Wu confessou, sempre em mandarim, que durante algum tempo pensou que estavam a gritar “buuu”, até perceber que era o público a adotá-lo e não a vaiá-lo. Esse pequeno mal-entendido diz muito sobre um campeão do mundo que, no momento mais alto da carreira, ainda tem a dúvida íntima de quem passou anos a sentir que não era suficiente.

Para perceber de onde vem essa dúvida é preciso voltar ao início.

Wu nasceu a 14 de outubro de 2003, em Lanzhou, capital da província de Gansu, uma cidade que o The Independent descreve como sendo famosa pelo caldo de noodles de vaca, um caldo claro com rabanete, óleo de malagueta e ervas, que Wu continua a citar como a coisa que mais sente falta em Sheffield, além da família. A mãe geria um negócio familiar de antiguidades; o pai era o companheiro de estrada, que o levava a torneios e acreditava que aquele miúdo franzino com taco na mão podia ser mais do que apenas um bom jogador de sala.

Começou a jogar assim que conseguiu segurar um taco. Aos 11 anos, o pai levou-o à Yushan International Billiards Academy para ser visto pelo treinador australiano Roger Leighton. É Leighton quem conta ao The Independent o primeiro retrato de carácter: “Quando Wu chegou, o seu máximo break era 49; ao fim de algumas semanas, fez 86.” O treinador elogiou-o, disse-lhe que era “incrível”. A resposta do miúdo foi um manifesto de exigência: “Não é bom, porque o Ronnie limpado isto.” É aqui que se percebe até onde vai o seu querer e exigência: um adolescente que mede o próprio valor pela bitola de Ronnie O’Sullivan, e que não se deixa embalar por elogios fáceis.

Leighton também recorda que, tecnicamente, Wu estava longe de ser perfeito: o braço caía no backswing, o pulso mexia demasiado na tacada, havia problemas de consistência, falhava bolas fáceis. “Um miúdo com má técnica”, que teve de ser reconstruído, gesto a gesto, sem perder aquilo que o tornava especial: a capacidade de rir quando falhava, de usar o riso como válvula de escape para a frustração. Hoje joga com ambos os braços, como o fez nesta final do Mundial.

Uma evolução rápida

A evolução foi rápida. Em 2018, com apenas 14 anos, Wu venceu o Campeonato do Mundo sub‑21, batendo o tailandês Pongsakorn Chongjairak por 6-4 na final. No ano seguinte, com 15 anos, recebeu wildcards para torneios profissionais na China e levou John Higgins ao último frame no International Championship, perdendo por 6-5, mas deixando a sensação de que não era apenas mais um prodígio de um país com muitos prodígios.

O salto para o profissionalismo chegou em 2021 e a adaptação foi tudo menos instantânea. As primeiras épocas foram de aprendizagem, de derrotas, de viagens longas e quartos de hotel. Ainda assim, a World Snooker Tour reconheceu o impacto e no fim da temporada de estreia, em 2022, Wu foi eleito Rookie of the Year depois de três presenças nos oitavos de final de torneios de ranking. Em agosto desse ano, no European Masters, bateu Luca Brecel, Rory McLeod e Ryan Day a caminho dos quartos de final, onde caiu perante Ali Carter.

Paralelamente, a vida mudava de coordenadas. Wu mudou-se para Sheffield e juntou-se ao núcleo de jogadores chineses que transformou a cidade numa espécie de segunda casa da modalidade. A mãe ficou na China, a tomar conta do negócio; o pai continuou a ser o pilar mais próximo, que o acompanhou na transição para uma cultura, uma língua e um circuito competitivo completamente diferentes.

Wu Yize sucedeu a Zhao Xintong como campeão mundial de snooker, uma modalidade com forte tradição britânica
George Wood

Os resultados começaram a alinhar-se com o talento. Em 2023, Wu chegou às meias-finais do Wuhan Open, o primeiro grande sinal de que podia ir longe em torneios de ranking. Em 2024, fez duas finais: English Open e Scottish Open, perdendo ambas, mas ganhando algo mais importante do que um troféu, o hábito de jogar fins de semana de decisão, de lidar com sessões longas, com televisão, com expectativas.

O verdadeiro ponto de viragem chegou em 2025, no International Championship em Nanjing. Wu bateu nomes como Judd Trump e Zhao Xintong e, na final, derrotou John Higgins por 10-6, conquistando o primeiro título de ranking e tornando-se o 9º jogador da China continental a vencer um torneio desse nível. Fez 14 centenárias ao longo da prova (uma tacada, ou break, em que um jogador consegue somar 100 ou mais pontos de forma consecutiva, sem falhar ou cometer uma falta, numa única visita à mesa), um número que não é apenas estatística, mas a prova de que, quando entra no ritmo, arrasa mesas. A vitória empurrou-o para o top 16 mundial e garantiu-lhe a estreia no Masters, em 2026.

A casa para os pais

É este jogador com apenas um título de ranking, finais perdidas, meias-finais em grandes palcos, um 147 oficial no Championship League e um lugar consolidado no top 10 mundial, que chega ao Mundial de 2026. A campanha até à final é feita de confirmações: vitórias em jogos longos, capacidade de reagir a desvantagens, sangue-frio em momentos decisivos. Nos bastidores, já toda a gente comenta que Wu é o próximo produto da “linha de montagem” de talentos da China, depois de Zhao Xintong se tornar o primeiro campeão mundial chinês no ano anterior.

Quando finalmente levantou o troféu, depois do 18-17 a Murphy, o discurso foi simples e direto. Falou da família, disse que quer comprar uma casa para os pais com o meio milhão de libras que levou de prémio (quase 600 mil euros), insistiu que eles são “os verdadeiros campeões”. Falou da China, do anterior campeão Zhao Xintong, da sensação de estar a continuar um caminho que outros abriram.

A forma calma como se senta, respira e joga, que lhe valeu em alguns círculos a imagem de uma espécie de “monge” do snooker, e o rosto retilíneo que faz lembrar uma personagem de mangá, fazem dele um campeão ainda mais sui generis.

Mas hoje o seu estilo já não tem nada do “miúdo com má técnica” que Leighton descrevia. O braço está sólido, o pulso firme, a tacada limpa. A essência mantém-se, um jogador ofensivo, que gosta de atacar, que não tem medo de bolas longas, que vive bem com o risco. A diferença é que, agora, a coragem está apoiada numa base de consistência muito maior, e que apesar de ser um jovem que sente que o público pode estar a dizer “buuu” quando grita “Wuuuu”, se o futuro confirmar o que o presente promete, este será apenas o primeiro capítulo de uma longa carreira.

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