De trás para a frente, Jakob Ingebrigtsen regressou às pistas para um quarto título europeu nos 5.000m. José Carlos Pinto desistiu
Ingebrigtsen no sprint final em Birmingham
TOLGA AKMEN
Depois de seis meses parado devido a uma operação no tendão de Aquiles, o craque norueguês do meio-fundo escondeu-se inicialmente, para acabar novamente de ouro ao pescoço nuns Campeonatos da Europa. Treinado pelo pai de Jakob, o português José Carlos Pinto esteve quase sempre na frente, mas desistiria na penúltima volta da final
Há narrativas que adensam o interesse de uma corrida. Para os portugueses talvez uma delas fosse a mais apetitosa quando o assunto era a final direta dos 5.000m dos Europeus de atletismo.
José Carlos Pinto, acabadinho de bater um recorde nacional com quase três décadas, que estava nos pés e pulmões de outro Pinto, António, correria lado a lado com Jakob Ingebrigtsen. Jakob, filho de Gjert Ingebrigtsen, treinador do português, há muito de relações cortadas com a horda de filhos que, em tempos, tornou canibais na meia-distância do atletismo.
Entre Henrik, Filip (também na final) e Jakob há 17 medalhas em Jogos Olímpicos, Mundiais e Europeus ao ar livre, coisa pouca. Há também muita polémica: em 2023, o trio acusou o pai de “agressões, controlo e violência física”. O caso foi para tribunal e Gjert ilibado, por falta de provas, de boa parte das acusações.
Antes da final, José Carlos Pinto, que se mudou para Sandnes, na Noruega, em 2025, para trabalhar com Gjert, que lhe ofereceu casa e treino, não foi de modas. Admitiu que defrontar Jakob, um dos melhores meio-fundistas da história, lhe dava “um incentivo extra”. E que suspeitava que também dava um gosto especial ao treinador. “Mas não posso falar por ele”, sublinhou à Lusa.
José Carlos Pinto durante a final nos 5.000 metros dos Europeus de atletismo
TOLGA AKMEN
Porém, em pista, foi mesmo o mais novo dos rapazes Ingebrigtsen, a regressar à competição após uma operação ao tendão de Aquiles do pé esquerdo, a sentir esse extra. Tantas vezes pouco ortodoxo na forma de abordar as corridas, com ataques prematuros, Jakob desta vez resguardou-se junto ao irmão Filip na retaguarda do grupo em boa parte da corrida. Talvez estratégia, talvez bluff. A impressão de que ainda não estaria em forma após uma longa paragem de seis meses pareceu real.
Por essa altura a prova começava a ser atacada. O suíço Lobalu foi o primeiro dos candidatos a medalhas a passar pela frente. Gressier imitou o rival, com José Carlos Pinto, com o 4º melhor registo da final, a manter-se quase sempre bem colocado na primeira metade da final.
Paulatinamente, um azul escuro com vislumbres de vermelho começava a deixar os últimos lugares. Era o equipamento de Ingebrigtsen. À entrada do último quilómetro, já o norueguês liderava a prova e impunha um ritmo intenso.
Que deixaria José Carlos Pinto mal colocado, junto à corda. O português sofreu então vários toques, esteve quase a cair. E acabaria mesmo por desistir na penúltima volta, depois de sair da pista para o relvado, aparentemente após mais um choque.
No sprint final, Ingebrigtsen correu atrás do seu quarto título europeu consecutivo na distância, terminando com as incógnitas. Depois de um Mundial de 2025 marcado já pela lesão no tendão de Aquiles, o norueguês de 25 anos, campeão olímpico na distância, está de regresso aos grandes momentos. O pódio ficou completo com surpresas: o alemão Florian Bremm foi prata e o francês Etienne Daguinos foi mais forte na luta pelo bronze que o compatriota Jimmy Gressier, um dos favoritos às medalhas.
Já José Carlos Pinto, que revelou antes do início dos Europeus a vontade de “fazer algo engraçado em Birmingham”, terá nova oportunidade para tal nos 1.500 m, tal como Isaac Nader, também inscrito para a distância, ao contrário de Ingebrigtsen. As eliminatórias estão marcadas para sexta-feira.