Os saltos de Gerson Baldé ficaram a oito centímetros do bronze nos Europeus de atletismo
Como nos Mundiais, o melhor salto de Gerson Baldé foi o último, mas não lhe chegou para uma medalha nos Europeus
TOLGA AKMEN
Como nos Mundiais que o fizeram campeão há cinco meses, Gerson Baldé guardou o seu melhor salto para o fim, mas, desta vez, ficou fora das medalhas por pouco. O algarvio pulou 8,18 metros, menos do que os 8,46 que lhe deram o ouro mundial
Frugal na véspera, escasso em palavras, também em entusiasmo na resposta à única pergunta que lhe fizeram sobre a final, Gerson Baldé mostrou-se críptico. É a aparência que quis passar, que quer passar. Nas redes sociais onde hoje se mostra tudo a toda a hora para se ser alguém, uma espreitadela à conta do português deteta a mesma nota que ele tocou em Birmingham: as fotografias são poucas, as legendas breves, isto quando não se limita a partilhar o que outros produziram acerca dele. Tanto lá como a falar nos Europeus, o campeão do mundo gosta de ser um mínimo.
Um contraste com a figura ridente, com dentes de fora, de Gerson Baldé na pista de tartã. Brincalhão ao ser filmado na apresentação dos 12 atletas da final do salto em comprimento, bem-disposto no preparo do seu ensaio inaugural. Saltou 7,91 metros, menos do que a sua marca de qualificação (7,99m), bastante menos do que o salto (8,46m) com que saiu de Torun, na Polónia, com a medalha de ouro nos Mundiais.
O primeiro salto deixou-o, em Birmingham, momentaneamente no terceiro lugar. O segundo, com ele a embalar-se já não tão alegre nos lábios, foi inválido e não o tirou do sétimo posto. Depois de ambos abeirou-se do painel de publicidade da pista para ouvir José Barros, o seu treinador, sereno ao gesticular-lhe indicações. Os homens a ultrapassar vinham de Grécia, Suíça e Bulgária: à entrada da terceira ronda de pulos, Miltiadis Tentoglou, Simon Ehammer e Bozhidar Sarâboyukov eram os únicos a irem além dos oito metros.
A terceira tentativa (7,86m) deixou Gerson Baldé a morder o fio que levava ao pescoço, com cara de caso enquanto reviu o salto no tablet do seu mestre de treino. A quarta também, apesar de um nico melhor (7,98m) e de ascender à quinta posição. Nos entretantos, Francesco Inzoli acrescentou-se à lista dos que riscaram a areia para lá dos oito metros, o italiano mais um alvo para o português perseguir. Antes do quinto salto, Gerson fez-se de animador, bateu palmas no peditório para o público, sob o som sincopado aterrou em zona de medalhas, mas na chamada pisou além da zona permitida.
Gerson Baldé teve dois saltos nulos na final do salto em comprimento dos Europeus
TOLGA AKMEN
Mais um nulo, só lhe restava uma última tentativa.
Foi abeirado desse abismo, no limite, que em março saltou 8,46 metros, na derradeira tentativa, para ser campeão do mundo. E com feições cerradas, a dentição escondida, de novo a aplaudir a bancada para ser aplaudido de volta, Gerson Baldé correu tartã fora, pulou, aterrou no areal e levantou-se com esgar desconfiado, a embocar o seu fio de ouro, satisfeito mas não tanto: no salto em que o vento menos soprou contra ele, o português registou 8,18 metros. Na vertigem, tornou a sacar de si o melhor.
Só que a areia impôs-lhe um teto. Ficou por instantes em posição de medalha de bronze, mas não alcançaria os 8,44m de Tentoglou e os 8,29m de Ehammer.
Essa condição durou poucos minutos. O búlgaro Bozhidar Sarâboyukov orquestrou a gravidade para ir aos 8,26 metros, mal se pôs de pé foi-lhe difícil conter o entusiasmo, soube logo que vinha coisa boa do seu pulo. Ao ser confirmada a bonança, deu um salto mortal para festejar, recebendo na aterragem um passou-bem do português que privou de uma medalha.
O ouro mais cobiçado acabou com Miltiadis Tentoglou, o bicampeão olímpico, ocupante do trono mundial antes de Gerson Baldé se sentar no que agora é seu. A coroa será do algarvio de Albufeira por mais um ano, até setembro de 2027, quando Pequim receber os próximos Mundiais. A prata levou-a Simon Ehammer. O segundo dia dos Europeus de atletismo não dará fotografias alegres ao mosaico de Gerson Baldé, que ficou com o bronze a oito centímetros no salto em comprimento.