A vida recente de Pedro Pichardo encarrilou por uns eixos retilíneos. Virou na esquina dos trinta, tempo vai apanhando-o, então ele virou doseador dos seus esforços: antes dos Europeus, esta época apenas recheou os seus alforges para ir a Doha, no Catar, equipar-se à moda de competição. Na sua única aparição a sério no meeting da Liga Diamante do atletismo saltou 17,71 metros, bastou-lhe, foi a segunda melhor marca da temporada, prova de que os seus 33 anos sobram para estas curvas.
Mas o triplo salto é uma linha reta, sem mudanças de direção no embalo, nos três pulos, nas chamadas no solo e forças a equivalerem-se a toneladas postas em cada perna. Há que cuidar das cargas. Já em 2025 o português com casa em Setúbal se poupou, antes de ser bicampeão mundial em Tóquio só competira uma vez, é hoje o seu mantra, a ostentá-lo surgiu em Birmingham descontraído da vida.
De brincos nas orelhas, relógio e pulseira num pulso, fio de ouro ao pescoço com uma cruz e boné amarelo com pala atrás, Pichardo lá foi com a sua cara quase de frete para um salto, à sua escala, conservador, mas enorme por comparação com os restantes. Visivelmente sem se dignar a muito, o português saltou 17,16 metros. De calça nas pernas, sem mangas nos braços - a mesma fatiota com que saltou na qualificação dos Mundiais, há um ano -, olhou para a areia, empoleirou-se sobre a barreira para as bancadas e ouviu umas palavras do pai, o treinador, enquanto esperava pela nota e desapertava as sapatilhas, tal a confiança.
Em parte, justificada. O seu real e realista maior adversário, Andy Díaz, também nascido em Cuba e naturalizado italiano, saltara 17,06m com laivos semelhantes de supremacia. E imitaram-se: ambos arrumaram os seus haveres, dispensaram os restantes dois saltos a que tinham direito e ala, deixaram a pista para os restantes 20 atletas da qualificação. Um deles Tiago Luís Pereira, incapaz de se qualificar mesmo com o seu melhor salto (15,95m) do ano. Aos 32 anos, foi a primeira vez, segundo o próprio, que não alcançou a final do triplo salto em Campeonatos da Europa.
Já de t-shirt vestida, com uma mochila nas costas, Pedro Pichardo apareceu na zona mista onde o microfone da RTP o esperava. “Conseguuimos o objetivo, a qualificação direta com um salto apenas. Estou feliz com isso“, confirmou, na breve troca de palavras em que lhe perguntaram se tinha “as vibes“ em alta? “Sempre, sempre que vou competir estou motivado.“ A expressão viera de uma intervenção anterior de Foutamata Diallo, que dali por momentos estaria saltitona no tartã, como uma criança, a celebrar a sua medalha de bronze nos 400 metros barreiras.
Semelhante efusividade quiçá não vejamos no sábado em Pichardo, por costume mais parcimónio em festejos sem rédeas, não ser que a passagem do tempo que hoje faz rarear as suas aparições em competição surta algum efeito no sabor que uma eventual medalha de ouro lhe traga: a sua última, e única em Europeus, foi em 2022. Porventura aí haja curvas na emoção do bicampeão do mundo, com ar de quem está embalado para mais um título.
Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: dpombo@expresso.impresa.pt