A mão na cara, a cara de espanto, a incredulidade. Talvez Fatoumata Diallo se tenha recordado da infância quando cruzou a meta em 3º lugar na final dos 400 metros barreiras, dando a Portugal a primeira medalha nos Europeus de atletismo de Birmingham. Numa distância onde não há lugar para quebras, onde é matar ou morrer, a atleta do Benfica, agora radicada nos Estados Unidos, onde trabalha com o treinador brasileiro Felipe Siqueira, surpreendeu ao intrometer-se no pódio e com um novo recorde nacional (53.55s), por larga margem - Diallo partilhava o anterior registo, 54.31, com Sofia Lavreshina, que se ficou pelas semifinais.
Diallo, de 26 anos, que ainda namorou a prata, melhorou assim o 8º lugar dos últimos Europeus, partilhando o pódio com a eslovaca Emma Zapletalová, que confirmou o favoritismo, conquistando o ouro, com a britânica Emily Newnham a ser 2ª classificada, num sprint final fortíssimo que lhe permitiu ultrapassar Diallo já nos últimos metros. É preciso recuar até às medalhas de Francis Obikwelu nos 100 e 200 metros (três ouros e uma prata em Munique 2002 e Gotemburgo 2006) para se ver uma medalha de Portugal em disciplinas de velocidade.
Nascida na Guiné-Conacri, Fatoumata Diallo chegou a Portugal aos 12 anos, fixando-se no Algarve, em Olhão, onde os pais já residiam desde que a atleta tinha 5 anos. Na Guiné já corria de casa até à escola e em Portugal chegou ao atletismo precisamente através do desporto escolar e depois pelas mãos de Paulo Murta, treinador de Ana Cabecinha. Antes dos Jogos Olímpicos de Paris, explicou no podcast Glória, do Comité Olímpico de Portugal, que Murta foi decisivo para que se dedicasse ao atletismo, algo que os pais não aprovavam. A cada viagem com Cabecinha, o treinador algarvio nunca se esquecia de comprar um par de sapatilhas para Diallo treinar.
Nesse mesmo podcast, confessou que em “África já era adulta” aos seis anos, que com essa tenra idade já cozinhava, cuidava de outras crianças da família e da casa. E, talvez por isso, só se tornou “mais sentimental em Portugal”. Sentimentos que transbordaram mal percebeu que tinha conquistado a primeira medalha numa grande competição, batendo até na cara repetidamente, como que tentando acordar de um sonho. Mas não foi um sonho, foi bem real.
“Eu sonhei e trabalhei para isto”, confessou ainda em êxtase à RTP. “Nunca me senti tão apoiada numa prova pela equipa, muitos estavam aqui a assistir. Senti que não estava sozinha, esta foi por mim, pela minha família, pelo meu treinador e pela equipa”, continuou, garantindo que a medalha “não muda nada” e que irá apenas “continuar a trabalhar“.
Tendo como referência a glória francesa Marie-José Perec - Diallo chegou a viver em Paris e a treinar-se com um antigo técnico da três vezes campeã olímpica - e a recordista mundial dos 400m barreiras, a norte-americana Sydney McLaughlin-Levrone, Fatoumata Diallo é, agora, também ela, referência nacional e europeia da distância.
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