Nos 800 metros uma estrela caiu e duas pouparam-se na caça ao recorde mais antigo do atletismo
Femke Bol e Keely Hodgkinson a liderarem a sua meia-final dos 800 metros nos Europeus de atletismo
Michael Steele - British Athleti
Recém-aterrada na disciplina, Femke Broeders-Bol não largou a campeoníssima Keely Hodgkinson durante a meia-final dos 800 metros, distância onde perdura o recorde do mundo mais longevo do atletismo. Ambas deixaram as adversárias com os bofes de fora depois de Audrey Werro, a mais jovem e com a melhor marca pessoal das três, cair na outra eliminatória e falhar a final. Só que não: a organização compensou a suíça e repescou-a para a decisão de uma das provas mais concorridas dos Europeus
Os 800 metros convidam à barafunda, divergem dos 400m onde cada atleta tem uma faixa de rodagem, linhas entre as quais dar ao pedal. Aos primeiros quis Femke Bol dedicar-se, o ano passado, com uma carreira feita nos segundos, após ser campeã da Europa, do Mundo, dos Jogos Olímpicos, enfim de tudo, entre dar meia-volta à pista longa de atletismo a correr sem obstáculos ou com barreiras.
Do nada, a neerlandesa optou por largar a disciplina que a elevou a ser uma das atletas ímpares desta geração, a melhor do último ano para a European Athletics, e duplicar a distância. Por arrasto, houve que triplicar ou quadruplicar o esforço, abanando a estrutura de treinos, o planeamento, e a gestão do ácido lático por querer um “desafio muito entusiasmante” assim como “muito assustador” enquanto se sente no cume da sua forma, tal o descreveu à entidade que manda no atletismo deste continente.
Então os 800 metros abraçaram, em 2025, a mulher cuja voz esganiça após grandes esforços, agudizando-se com parecenças à de Mickey Mouse que motivam comparações vindas de um lugar jocoso, embora também sirvam para badalar a fama de quem, à primeira prova na nova distância, bateu logo o recorde dos Países Baixos. Os Europeus são apenas a quinta vez de Femke, 26 anos, a competir na distância e na meia-final, em Birmingham, calhou-lhe ter a companhia da sua bem conhecida Keely Hodgkinson.
A neerlandesa partilha agente, igualmente locais de treino, com a rainha-suprema dos 800 metros, repleta de bijuteria nas mãos, decoradas até em corrida, e de medalhas guardadas algures lá em casa - é bicampeã mundial, bicampeã europeia (pista coberta e ao ar livre) e atual ouro olímpico. Cara reluzente do atletismo britânico, Hodgkinson voa com os seus 24 anos. Ambas estão na flor da idade, no caso da nascida na região da Grande Manchester é percetível até pela sua descontração: nas eliminatórias destes Europeus, sem o típico nublado inglês a tapar o sol, correu de óculos escuros para tentar “ficar sem rugas e prevenir necessitar de botox demasiado cedo”.
Femke Bol, feliz da vida, a ir abraçar Keely Hodgkinson após liderarem a meia-final dos 800 metros
Michael Steele - British Athleti
Na meia-final onde coincidiram, a passada larga da alta Femke agora com um acrescento ao nome - é Broeders-Bol por entretanto se ter casado - não largou a traseira de uma Keely Hodgkinson mais diminuta em altura, ambas em relativo modo passeio enquanto lideraram a corrida e abrandaram ao chegarem à meta. Naquelas primeiras reações pós-prova, as restantes seis mulheres, com os bofes de fora, buscavam algum fôlego com as mãos caídas nos joelhos, corcundas no cansaço que até fez algumas deitarem-se no tartã, exaustas.
E no meio do desespero geral, Femke espraiava um sorriso, toda contente a ir abraçar Keely, as duas a respirarem com desafogo, felizes da vida ao darem um chi-coração e depois irem cumprimentar as adversárias durante as tentativas em curso de recomporem os pulmões do desgaste. A inglesa fez o tempo de 1:57.38, o da neerlandesa acabou nos 1:57.38. Pela folga que demonstraram nas derradeiras dezenas de metros, no jerricã de ambas sobra combustível para se aproximarem dos 1:53.28 do recorde do mundo maquilhados de imbatíveis.
É a cenoura posta diante das atuais estrelas dos 800 metros: caçarem a marca há mais tempo imbatível no atletismo.
A queda (e compensação) de Werro
Mas outra estrela há nos estonteantes 800 metros femininos, hoje uma das mais concorridas disciplinas do atletismo.
A terceira é Audrey Werro, força da natureza suíça, a jovem da tríade (22 anos) e dona do melhor marca pessoal (1:53.80) das três. A campeã mundial sub-23 e prata nos últimos Mundiais ficou na outra meia-final e seguia embalada na sua passada triunfal, líder do humilde pelotão, à saída da curva para a última reta. A vitória na sua manga de apuramento tinha ares protocolares, Werro é daquelas supernovas em ascensão por quem o atletismo saliva, ainda em junho venceu Hodgkinson numa prova da Liga Diamante e tem o terceiro tempo mais rápido da história.
O momento em que a suíça Audrey Werro caiu na sua meia-final dos 800 metros
Sam Barnes
Mas, ao tornear a curva, um braço de infortuna a ceifou, ou porventura um toque da perna de outra atleta, difícil é precisar, a suíça caiu com aparato. Estatelou-se primeiro de peito na pista, sem as mãos à frente tão rápida que ia e inesperada que foi a queda. Uma das melhores dos 800 metros engalfinhada pelas peripécias de ser uma prova onde as faixas são para todas as atletas, sem critério, numa barafunda onde entra a estratégia de corrida.
Com esgar de dor, ainda se levantou a galopou devagar até à meta, a custo, fazendo questão de terminar a prova e ser confortada por algumas adversárias. O primeiro amparo veio de Jemma Reekie, britânica que ganhou a corrida com um tempo 1:58.61 que na outra meia-final lhe daria apenas para terminar em sétimo lugar. Desolada após a corrida, não demorou Audrey Werro receber uma boa-nova. A organização dos Europeus atribuiu-lhe um lugar na final, igualmente à lituana Gabija Galvydytė, outra visada pela infelicidade de cair durante a tirada.
É incerta a forma com que Audrey Werro conseguirá recuperar do golpe e apresentar-se na final de sexta-feira (21h28), em Birmingham, onde, estejam as três nos píncaros da suas capacidades, muito boa gente esperará um sério ataque ao recorde de Jarmila Kratochvílová, checa que fixou em 1983, com 32 anos, o recorde mais longevo do atletismo. São três estrelas à caça.