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Agate de Sousa correu, teve de correr, e ficou a dois centímetros da medalha no salto em comprimento

Agate de Sousa é a campeã mundial do salto em comprimento de pista curta
Agate de Sousa é a campeã mundial do salto em comprimento de pista curta
TOLGA AKMEN

A campeã mundial do salto em comprimento em pista curta ficou à beira do bronze nos Europeus de atletismo ao ar livre. Na final, Agate de Sousa, de 26 anos, pulou até aos 6,96 metros e por pouco não acrescentou uma medalha à de Patrícia Silva, que foi a 3ª mais rápida nos 1500 metros enquanto a saltadora que não gosta de correr tentava saltar para dentro das medalhas

Agate de Sousa é uma ironia. Não gosta de correr e por São Tomé e Príncipe andava quando o atletismo a pescou, tal o seu desgosto pela corrida que escolheu o lançamento do peso. Mal treinava, era ainda catraia, mas quando havia provas era chamada, aparecia e ganhava a todas com a sua magrinha figura. “Muito franzina” que era, não durou a atirar o peso, disciplina de calmeirões e gente massuda, aconselharam-na a experimentar dar pulos.

Mas teria de correr, não só por causa do embalo para o salto em comprimento amparado pela caixa de areia: teria de correr para treinar, correr para aquecer nos treinos, correr para afinar a técnica de corrida, correr para melhorar a velocidade. “Nunca gostei”, disse há meses ao jornal do Benfica, o seu clube, a campeã mundial de pista curta, em março, com os seus 6,92 metros, não tantos quanto os 7,03m que já saltou ao ar livre, ou os 7m com que se qualificou para a final.

Com a sua perna longa, Agate entrou com um 6,84m e luziu uma cara assim-assim, descontente por aquém ficar dos voos das duas mulheres que a precederam na ordem dos saltos: a animada alemã Malaika Mihambo, só sorrisos para a câmara, abriu com 6,94m, a carrancuda Larissa Iapichino, italiana que corre com olhar de quem vai em missão, seguiu-se com 7 metros certos. Também a saltadora da casa, com o seu penteado de pom-pons e empurrada pelos aplausos de Birmingham, pôs a portuguesa em sentido com 6,95m.

Haveria de se prestar a correrias, só assim a portuguesa de meias altas, puxadas quase aos joelhos, se embalaria contra a acérrima competição de mulheres de pernas agasalhadas quando não a saltar - contra o fresco inglês, para não esfriar os músculos. A francesa Hilary Kpatcha, com o seu humilde tamanho de pé para tanta altura, gritando sempre um “let’s go!” para a plateia, alcançou os 6,98m ao terceiro pulo, mais uma a juntar-se às pretendentes do pódio. Agate quis encantar o público depois, pedindo-lhes palmas para a síncope a empurrar a uns animadores 6,96m.

Agate de Sousa saltou 6,96m na final do salto em comprimento dos Europeus de atletismo de 2026, menos do que saltara (7m) na qualificação
TOLGA AKMEN

Ficou empatada com Sawyers à entrada do último trio de saltos, era um rasgo de luz, mas a inglesa excêntrica de trejeitos, com a sua mantinha com estrelas bordadas, os seus óculos escuros metalizados, as chapadas que dava nas coxas antes de arrancar, pulou 6,99m. A segunda mais velha em prova esgueirava-se para as medalhas com os seus 34 anos, ao contrário de Mihambo e das suas lágrimas no fim, ao ser incapaz de ultrapassar Agate de Sousa, ela igualmente aquém das suas pretensões.

A portuguesa pulou uns 6,73m descartáveis, a seguir uns 6,89m que postos na areia foram malandros, pareciam mais, aparentavam equivaler penduricalhos ao pescoço. Hoje a prova foi dura, ficar em 4º lugar com 6,96 metros é porque o nível foi alto“, desabafou Agate de Sousa no desfecho, à RTP, assumidamente ”triste e frustrada“ por os 7 metros que saltou na qualificação chegarem, na final, para o ouro. É um dia de cada vez, no dia é que conta, não vale a pena chorar pelo leite derramado”, disse, certa na crença de que vai “conseguir alcançar o que vale” esta temporada.

Falou com face de quem disposta está a correr, correr e correr, quando se ganha o prémio não são apenas medalhas, ganha-se também alergia crónica a não ganhar. Agate de Sousa ficou a dois centímetros da medalha de bronze de Hilary Kpatcha, a três da prata da extrovertida Jazmin Sawyers, saudada com barulho pelas bancadas, e a quatro de Larissa Iapichino, a campeã europeia que saltou o que a portuguesa saltara na véspera.

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