Modalidades

Não se preocupem com Duplantis, aquela derrota foi um soluço, ele continua a ganhar

'Mondo' Duplantis tornou-se campeão europeu pela quarta vez seguida em Birmingham
'Mondo' Duplantis tornou-se campeão europeu pela quarta vez seguida em Birmingham
Maja Hitij

Nem há dois meses, ‘Mondo‘ Duplantis tinha perdido uma competição pela primeira vez em três anos, isto após bater o recorde mundial do salto com vara pela 15ª ocasião. Pouco depois, retirou-se de outra prova por lesão. Ponderou-se que a hegemonia do sueco poderia estar a tremer, mas não: no domingo, sagrou-se campeão europeu pela quarta vez seguida, fixando um novo máximo dos campeonatos. O português Pedro Buaró acabou no 6º lugar

Houve um momento curioso durante a final, um ligeiro repique sentido por Armand Duplantis. Estava amarelado no casaco, azul nas calças, e sentado no banco à beira da pista onde os atletas esperam pela sua vez, quando Emmanouil Karalis correu com a vara em riste, fixou-a no chão, catapultou-se em direção às nuvens, ascendeu aos 6,15 metros e, com mais de metade do corpo para lá da trave, só de raspão lhe tocou e fê-la tombar do poiso. Mal o grego aterrou de costas, amparado pelo colchão, a realização dos Europeus fixou a transmissão televisiva no sueco.

Ele enrugou a fronte e esbugalhou os olhos, com feições de espanto pelo quase de Karalis, um dos seus maiores adversários dos últimos anos se é que o termo adversário ainda serve ao que se anda a passar no salto com vara.

Não tardou até o grego, com o seu penteado de finas rastas decoradas com anéis prateados, ir abraçar Duplantis já com a final terminada. Riu-se para o sueco, cavaquearam por um instante, Karalis abanou a cabeça para os lados. Sem microfones à escuta, a linguagem corporal de quem ficou com a medalha de prata nos Europeus gritava uma variação de “quando é que nos vais dar alguma hipótese?”.

O que, de facto, foi dito, assentou em lides mais corriqueiras. O ‘Mondo‘ disse-me para irmos beber uma cerveja quando isto acabar, vai enviar-me uma mensagem para decidirmos onde vamos, contou o grego, dando-se uma palmada de conforto por ter “sentido” dentro dele “o fogo que pretendia”. A labareda do helénico de Atenas, com os mesmos 26 anos do sueco, chegou-lhe para saltar 6 metros na final. Tentou ir os 6,10m e não conseguiu; elevou a fasquia aos 6,15m, falhou; ainda ousou aspirar aos 6,20m, mas derrubou a trave. As suas esperanças eram fundamentadas, o pico da carreira de Karalis está nos 6,17m.

Duplantis, de 26 anos, fixou nos 6,15m um novo máximo do salto com vara em Europeus de atletismo
TOLGA AKMEN

Só uma derrota em três anos

O sueco espantou-se com o quão perto o grego ficou de o obrigar a elevar-se com urgência alturas absurdas, porque o são, mesmo que aparentem ser banais por ele as revisitar com frequência. Duplantis ainda tentou ir aos 6,20m, fronteira que alcançou nos Mundiais de 2022, quando bateu o recorde planetário pela quarta vez na carreira - entretanto, já estilhaçou a sua própria marca noutras 11 ocasiões sem que outrem tenha logrado intrometer-se no duelo entre Armand e Duplantis.

No meio está ‘Mondo‘ com a sua alcunha justa, feita à medida, adequada ao tipo que esta década mais tem competido contra ele próprio no atletismo. É quem mais tem esticado sozinho a corda do que é possível numa modalidade. Em 2020, na estreia a bater o recorde que então perdurava há meia-dúzia de anos (fixado pelo francês Renaud Lavillenie), saltou 6,17m e o teto figurado, que ele vai provando ser amovível, vai nos 6,31m que registou já este ano em Uppsala, na Suécia. Essa mais recente façanha é outra evidência de o salto com vara se assemelhar a um condado unipessoal: aconteceu num evento chamado Mondo Classic.

Mas, entretanto e igualmente no país nórdico que representa mas onde não nasceu (Duplantis veio à Terra nos EUA, onde os pais já viviam), ele deu notícia pelo inédito de uma derrota. Em junho, no meeting da Liga Diamante em Estocolmo, o triplo saltista que faz por não ser garganeiro e se dedica a melhorar o recorde um centímetros de cada vez, em parte, para recolher os prémios chorudos previstos nos contratos com os patrocinadores, foi derrotado. Após 40 vitórias seguidas num périplo de invencibilidade de três anos, perdeu para um salto de 5,90m de Kurtis Marschall, australiano que nunca ultrapassou os 6 metros.

Ousou-se suspeitar que o resultado poderia tratar-se de uma espreitadela dentro da armadura de Duplantis, bicampeão olímpico e dono de cinco ouros mundiais, até porque, na competição seguinte e com celebrado o seu casamento pelo meio, abandonou por lesão. A algodão que não engana seriam estes Europeus de atletismo, em Birmingham.

Na qualificação, Duplantis precisou de um singelo salto para assegurar a final que diligentemente vergou à sua vontade. Limitou-se a cumprir a altura cada vez que aumentava 15 centímetros para nova ronda de tentativas e assistiu aos esforços dos adversários para irem acompanhando no limite do que lhes era possível. O português Pedro Buaró aguentou até aos 5,70m, marca que lhe garantiu o sexto lugar na prova.

A tal derrota, no raiar do verão, não passou de um soluço. “A antecâmara dos Europeus foi difícil e stressante”, admitiu o sueco, grato por entrar na prova saudável, sem agruras no corpo, fazendo caso de que não menospreza ser campeão continental pela quarta vez consecutiva. “É um feito incrível, não tomo isto por garantido, tento absorver tudo e desfrutar. Tenho orgulho do meu percurso e de estar aqui”, resumiu Duplantis com o seu olhar ternurento, consciente do estado atual do salto com vara.

‘Manolo‘ Karalis a cumprimentar ‘Mondo‘ Duplantis no desfecho da final do salto com vara dos Europeus de atletismo de 2026
TOLGA AKMEN

Se bem que monotemática quanto ao vencedor, crónico o desfecho de todas os ensaios em grandes competições, a modalidade continua a atrair frenesim. Posta por hábito no último dia de Jogos Olímpicos, Mundiais ou Europeus, a disciplina capta as vontades do público, provoca receções ruidosas, junta maralhas de gente nas bancadas que estão mais perto da zona de prova. Porfiada a competição, embora só até certo ponto, ‘ManoloKaralis recolheu os elogios de ‘Mondo‘: “Ele suscita o melhor em mim, acho que é incrível para quem esteja a assistir, as pessoas querem ver uma boa competição e ver-me ser desafiado.”

Acrescentou o sueco que ficou “orgulhoso” com a forma como o grego saltou, engordando a costela que pauta o ambiente vivido no salto com vara, onde é usual haver uma quente confraternização entre os atletas, sem querelas ou caras feias por cada um querer ganhar a todos os outros. Mas ganhar a Duplantis, apesar do seu recente soluço, ainda é outra história.

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