E vão 187 medalhas, 14 delas de ouro, para o bicampeão mundial Fernando Pimenta: o “melhor atleta português de sempre”
O canoísta português não abranda aos 37 anos: conquistou mais uma medalha nos Mundiais de 2026
NurPhoto
Foram mais de 24 minutos a liderar de início ao fim. Fernando Pimenta conquistou, este domingo, o ouro nos 5000 metros e juntou-o ao que vencera na véspera, nos 1000. O português conquistou a sua 14ª medalha de ouro em Mundiais, reforçou o seu estatuto como canoísta mais medalhado da prova e disse, mais uma vez, “estou de volta”. Ficou ainda mais difícil contrariar o que o presidente da Federação Portuguesa de Canoagem defendeu na véspera: “É o melhor atleta português de sempre.”
No primeiro relance, poder-se-ia julgar que lá estava o presidente da Federação Portuguesa de Canoagem a puxar a brasa à sua sardinha a meias com uma certa ousadia. “Acho que é o melhor atleta português de sempre“, defendeu, dando o empurrão, como se ele precisasse, para Fernando Pimenta ir roçar ombros com Eusébio da Silva Ferreira, Carlos Lopes, Fernanda Ribeiro, Cristiano Ronaldo, Rosa Mota ou Telma Monteiro, uns quantos nomes vindos à cabeça assim sem grande esforço. Mas ninguém o pode acusar de despropósito.
Fernando Pimenta acabara de vencer, no sábado, o ouro nos 1000 metros de K1, a quarta vez que se fez campeão mundial de canoagem nessa disciplina. Nunca uma pessoa com tanta idade (37 anos) se vira no pódio da competição e logo alguém que colecionou a sua décima medalha em Campeonatos do Mundo, um lastro ciclópico para um atleta finito como todos mas que parece perene. “O avô está de volta”, disse o limiano. “É extremamente resiliente. Trabalha muito, apesar da idade e dos dois filhos“, acrescentou o dirigente. Este domingo foi outra demonstração disso mesmo.
Era dia para o matulão que em rapazote surgiu desengonçado na canoagem, virando barcos amiúde, colecionando últimos lugares como bem se recorda Hélio Lucas, o seu treinador desde sempre, fazer-se a outra medalha nestes Mundiais. Agora nos 5000 metros, distância folgada que testa a resistência e não tanto a velocidade, Fernando Pimenta respeitou o que lhe é habitual. De boné vermelho a sombrear-lhe a fronte, atirou-se logo à liderança.
Manteve o seu barco amarelo na dianteira de um cardume com mais de 30 até à primeira das portangens - uma doca flutuante onde os atletas têm de sair, pegar na canoa com uma mão, o remo na outra, correr uns metros arcando com o peso para voltarem a pular dentro lá mais à frente. Poço de músculos, o português perdeu alguns segundos, retornou à água do Lago Malta, em Poznań, em modo perseguidor. Mas pouco demorou, mecânico na pagaiada, a reclamar a frente da corrida para não levar com a água picada por canoas alheias.
O filme repetiu-se mais ou menos nestes moldes ao longo dos 5000 metros: quando na água ninguém podia com Fernando, só se a força locomotora passava aos pés é que alguém lograva aproximar-se. Eivind Andreas Vold, o norueguês de boina branca, não o largava, tão pouco Mads Pedersen, dinamarquês de cabeça destapada, tricampeão mundial da distância; o sul-africano Hamish Lovemore também lá colado se mantinha. O português de óculos e penso no nariz para lhe abrir as narinas ia virando o pescoço para ver onde eles andavam. E meio que se poupando: tinha menos remadas por minuto do que os perseguidores.
Pimenta a passar por uma portagem flutuante durante a final dos 5000 metros de K1 nos Mundiais de canoagem
Jakub Kaczmarczyk
Quando soou o gongo da última volta era o mais medalhado da história da canoagem quem se mantinha na proa do grupo, robótico, sem uma ruga se alterar na sua face, nem quando Lovemore, o mais discreto dos seus caçadores, atacou nos últimos 200 metros a ver se o apanhava desprevenido. Qual quê, o português reforçou a pagaiada, acelerou, permitu apenas que o sul-africano ficasse a um terço de canoa de o igualar, só isso, quando muito poderia ousar a ficar paralelo ao português. Nunca uma ultrapassagem pareceu possível.
E no final, sereno nos gestos, ergueu um braço com dois dedos esticados, o número dos títulos mundiais conquistados nesta prova. Quando alcançou a doca despiu a licra, fletiu o seu arcaboiço, os presentes puderam ver recortado num corpo o fruto da dedicação de um tipo que treina três ou quatro vezes ao dia, com jornadas de seis, sete ou oito horas de labuta, para estes momentos. “Gostaste?”, perguntou Pimenta ao entrevistador que lhe pediu palavras no final. O português gostou, pois claro. “Este é o meu 14º título mundial, sou o canoísta mais condecorado nos 5000 metros“, lembrou quem chegou descoordenado, sem grande jeito, à canoagem numas férias de verão em Ponte de Lima.
Hoje vai com 187 medalhas internacionais conquistadas, uma besta humana de vitórias que deu razão pelo segundo dia seguido ao presidente da sua federação. Tal como no sábado, no discurso de ganhador Fernando Pimenta referiu um episódio no passado recente em que não ganhou - prova de que a obsessão em imunizar-se a ser pior do que os outros ainda será o seu maior combustível, aos 37 anos. “Não me esqueco de que falhei a medalha em 2022, também o ano passado, mas desta vez correu muito bem, sem risco, sempre com controlo - gosto disso.”
E de novo, findos mais de 24 minutos a pagaiar, Fernando Pimenta disse “estou de volta”. Ele necessita disso, de o declarar vocalmente depois de o afirmar dentro de uma canoa. Esta é a 14ª vez do português como campeão mundial, uma coleção inacreditável de lauréis para quem desde pequenino se distingue pela absoluta crença nele próprio. O seu treinador, Hélio Lucas, descreveu-o como tal: “Quando surge aquele momento na alta competição, aquela fase em que estão muito perto de conseguir e há uma coisa ou outra que não corre muito bem, muitos atiram a toalha ao chão. O Fernando sempre acreditou.“
Assim não custa nada acreditar que Fernando Pimenta será, provavelmente, de facto o melhor atleta português de sempre.