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“Pescar não é só apanhar peixe“: da cana de caniço à corvina de 30 quilos, Rafael quer chamar os jovens à pesca

Rafael Ruivo durante a pescaria na Assenta
Rafael Ruivo durante a pescaria na Assenta

O que começou por ser um hobby tornou-se uma paixão. Dos cabozes de mar ao achigã de água doce, Rafael Ruivo quer levar mais longe o RV Fishing, projeto criado para dignificar e dar visibilidade à pesca desportiva, modalidade que tem vindo a perder praticantes federados todos os anos

Rafael Ruivo, de 25 anos, natural da Assenta, concelho de Torres Vedras, um rapaz que trabalha em serralharia, acabou por perceber que a pesca não é só um hobbie. Foi junto ao mar que encontrou uma das maiores paixões da sua vida. O que começou como uma brincadeira na infância deixou de ser apenas um passatempo e deu origem ao RV Fishing, um projeto dedicado à divulgação e valorização da pesca lúdica.

A ligação surgiu de forma natural. Rafael cresceu numa zona marcada pela proximidade ao mar e pela presença de pescadores, o que fez com que a pesca estivesse desde cedo presente na sua vida. “Acho que posso dizer que surgiu naturalmente, porque a minha zona é uma zona de pescadores. Sempre estive muito por dentro da pesca, conta.

As primeiras pescarias aconteceram na companhia da prima, do pai e do tio.

Os adultos arranjavam-lhes pequenas canas de caniço para pescarem cabozes entre as pedras. Com o passar dos anos, Rafael começou a acompanhar o pai em pescarias com mais exigência e a levar a atividade mais a sério.

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Aprendeu também com os pescadores mais velhos da região, que tinham paciência para explicar as diferentes técnicas e transmitir os conhecimentos adquiridos ao longo dos anos. Mais tarde, começou a acompanhar o blogue de Pedro Franco, que viria a tornar-se seu amigo e companheiro de pesca. Foi através dos relatos e das explicações publicadas nesse espaço que aprendeu a pescar.

Depois de colocar os ensinamentos em prática, Rafael foi aperfeiçoando sozinho as técnicas. A pesca começou a ocupar um lugar cada vez mais importante na sua vida, proporcionando-lhe momentos de tranquilidade depois do trabalho e aos fins de semana: contacto com a natureza, novas amizades e até oportunidades profissionais. Chegou mesmo a trabalhar numa loja de pesca.

Uma das capturas que mais o marcou aconteceu durante uma noite em que teria de trabalhar no dia seguinte. Levantou-se às duas da manhã e foi sozinho para o mar. A pescaria parecia destinada a terminar com resultados pouco simpáticos, mas, quando se preparava para regressar a casa, capturou uma corvina com quase 30 quilos. “Provavelmente, será o peixe da minha vida durante algum tempo”, admite.

Mesmo sem peixe há tranquilidade

Foi da vontade de partilhar momentos como este, e do contacto com outros pescadores, que nasceu o RV Fishing. Rafael começou por criar uma página para publicar conteúdos relacionados com a pesca e mostrar as suas experiências a amigos que praticavam a mesma atividade. Com o crescimento da página, as publicações começaram a chegar a pessoas exteriores à comunidade piscatória.

A adesão levou-o a transformar a página num projeto com um propósito mais abrangente. Além das capturas, Rafael procura mostrar a preparação, as técnicas, a segurança, o contacto com a natureza e as regras que devem ser respeitadas. Porque, diz ele, pescar não é só peixe”.

O jovem quer contrariar a ideia de que a pesca é uma atividade monótona. Para Rafael, trata-se de uma prática dinâmica, que exige estratégia, conhecimento, paciência e capacidade de adaptação. Mesmo quando não existe qualquer captura, considera que a experiência pode ser aproveitada pelo contacto com o mar e pelos momentos de tranquilidade que proporciona.

Os conteúdos começaram também a gerar pedidos de pessoas interessadas em aprender a pescar. Como trabalha e tem uma rotina ocupada, Rafael percebeu que não conseguiria acompanhar individualmente e nem ajudar todos os que o procuravam. Decidiu, por isso, desenvolver uma espécie de formação para ajudar quem pretende iniciar-se na atividade.

O que é, exatamente, a pesca desportiva?

A pesca lúdica é praticada por lazer ou por diversão, sem fins comerciais. Pode realizar-se no mar, nos estuários ou em água doce, de forma apeada ou embarcada e inclui várias técnicas. O exercício está sujeito à obtenção de uma licença adequeada, segundo a Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítmos. Nas águas interiores - lagos, barragens -, o pescador deve possuir a licença indicada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.

Entre as técnicas praticadas por Rafael estão o spinning, realizado com amostras (iscos artificiais), o light spininnig, que utiliza equipamento mais leve, e a pesca à bóia (para manter o isco a uma profundidade específica).

Embora já tenha participado em competições, atualmente prefere encarar a pesca como uma atividade de lazer. Reconhece o convívio proporcionado pelas provas, mas deixou de olhar para a pesca como uma disputa, pois encara a pesca com maior leveza, como uma paixão que pratica pelo simples prazer da pesca.

A pesca é uma atividade milenar, pelo que não é possível estabelecer uma data para o início da sua prática lúdica em Portugal. Já a vertente desportiva de competição começou a afirmar-se em Portugal durante a década de 1940, inicialmente sem regulamentação ou normas específicas.

A necessidade de organizar e representar os praticantes levou à criação da Federação Portuguesa de Pesca Desportiva (FPPD), fundada em 24 de novembro de 1947. A instituição passou a enquadrar a pesca desportiva, recreativa e de competição em Portugal, segundo a sua história oficial.

Até 1977, a vertente competitiva desenvolveu-se essencialmente em território nacional, embora fossem realizados concursos internacionais de água doce em localidades como Tomar, Leiria, Torres Novas e Abrantes. Em 1978, uma seleção portuguesa participou pela primeira vez num Campeonato do Mundo, realizado na Áustria, onde terminou na oitava posição.

A primeira competição internacional realizada em Portugal aconteceu em 1987: o Campeonato do Mundo de Seniores de Água Doce, no rio Mondego, em Coimbra. Desde então, Portugal tem recebido provas mundiais e europeias em locais como Coruche, Penacova, Montemor-o-Velho, Albufeira, Grândola, Viana do Castelo e Porto Santo, na Madeira.

As principais disciplinas praticadas em Portugal dividem-se entre água doce, mar e pluma. Na água doce, destacam-se a pesca à bóia, o feeder e o spinning, dirigido a espécies como o achigã, a carpa e a truta com isco. No mar, predominam o surfcasting e a pesca à boia, enquanto na pesca com pluma, também conhecida como fly fishing, se destaca a pesca da truta.

Mais jovens a pescar?

Depois de vários anos ligado à atividade, Rafael tem a perceção de que existem atualmente mais jovens interessados pela pesca. A conclusão resulta dos pedidos de ajuda que recebe pela presença ativa e a quantidade de conteúdos publicados nas redes sociais .

“Na altura, não se via praticamente nenhum jovem a pescar. Agora, pelos pedidos de ajuda que tenho recebido e pelo que vejo nas redes sociais, noto uma maior afluência”, explica.

Os dados da Federação, contudo, não confirmam essa evolução. A instituição afirma que não tem verificado um aumento do interesse dos jovens, pelo contrário: tem registado uma diminuição do número total de pescadores federados.

Número de federados de pesca desportiva

Em 2026, a FPPD conta com 2418 praticantes. O valor mais elevado das últimas duas décadas foi registado em 2010, quando existiam 3945 pescadores federados. Em 2024 e 2025 estavam inscritos 2487, número que desceu para 2418 em 2026. Comparativamente ao máximo alcançado em 2010, a redução é de cerca de 39%.

Duas leituras de realidades diferentes: Rafael baseia-se no interesse manifestado nas redes sociais e nos pedidos de ajuda que recebe, enquanto os números da Federação dizem respeito apenas aos praticantes formalmente inscritos. Ainda asim, a FPPD afirma que os dados não demonstram uma maior adesão por parte das novas gerações.

Para inverter esta tendência, o Plano de Desenvolvimento Desportivo 2025-2028 estabelece como meta aumentar em 20% o número de jovens federados. A instituição pretende também criar três “Escolinhas de Pesca Desportiva” nas regiões Norte, Centro e Sul, desenvolver programas em articulação com o desporto escolar e apoiar iniciativas de iniciação promovidas por clubes, associações e autarquias.

O plano prevê um aumento de 15% no número de mulheres federadas e de 10% entre os praticantes com deficiência, procurando apresentar a pesca desportiva como uma modalidade mais inclusiva e a digitalização dos serviços da Federação estão igualmente entre os objetivos definidos até 2028.

As redes sociais assumem um papel importante nesta estratégia. Rafael acredita que plataformas como o Instagram, o Tik Tok e o YouTube podem aproximar os jovens da pesca, uma vez que facilitam o acesso a explicações sobre os materiais, as técnicas e as regras. “Antigamente não havia tanta partilha e os jovens não tinham o mesmo acesso à informação. Agora sabem por onde devem começar e isso é meio caminho andado”, considera.

A Federação reconhece também este impacto. Na perspetiva da instituição, as redes sociais alteraram a forma como o público olha para a pesca desportiva e ajudam a desfazer a ideia de que se trata de uma atividade parada ou exclusivamente dirigida às gerações mais velhas. A própria página da FPPD no Facebook, seguida por cerca de 17 mil pessoas é utilizada para divulgar provas, atletas e resultados. No entanto a maior visibilidade digital ainda não se traduziu num aumento do número de federados.

Se a adesão tem diminuído, os resultados internacionais contam uma história diferente. O quadro disponibilizado pela Federação, fechado a 29 de outubro de 2025, contabiliza oficialmente 226 medalhas conquistadas em Campeonatos do Mundo e da Europa: 81 de ouro, 76 de prata e 69 de bronze. A água doce representa 106 dessas conquistas e o mar reúne as restantes 120.

Desde o fecho daquele balanço, Portugal somou pelo menos mais quatro pódios internacionais. Em abril de 2026, sagrou-se campeão do mundo de Pesca Desportiva de Mar em Duplas, em França, graças aos resultados de Fernando Encarnação e Márcio Parreira, ao conquistarem a prata, e de João Ribeiro e Lourenço Martins, que ficaram com a medalha de bronze. No mês seguinte, a seleção portuguesa conquistou a medalha de prata coletiva no Campeonato do Mundo de Masters de Fundo de Mar, realizado em Catanzarro, Itália. Embora a Federação ainda não tenha divulgado um novo balanço consolidado, os resultados publicados elevam o historial português para pelo menos 230 medalhas internacionais.~

Rafael Ruivo na infância com o seu primeiro peixe

Um Mundial em Portugal

O historial faz um contraste com a reduzida cobertura mediática da modalidade. Apesar dos resultados, dos 2418 federados e dos cerca de 300 mil praticantes lúdicos uma estimativa da FPPD baseada nas licenças emitidas pela DGRM e pelo ICNF, a instituição considera que a pesca desportiva ainda não recebe a valorização que merece.

Além da falta de renovação geracional e da necessidade de combater o sedentarismo, a modalidade enfrenta problemas relacionados com as alterações ambientais. Nas águas interiores, a redução dos caudais dos rios e as variações dos níveis das barragens condicionam a prática e a presença de espécies invasoras ameaça também o equilíbrio ecológico, sobretudo nos rios e nas albufeiras.

A preservação do mar, dos rios e das espécies ocupa igualmente um lugar central na forma como Rafael encara a pesca, Para o jovem, a responsabilidade de um pescador começa ainda antes da captura e passa por cuidar dos locais onde a atividade é praticada.

Um dos meus deveres enquanto pescador lúdico é deixar os pesqueiros mais limpos do que os encontrei”, afirma Rafael Ruivo. Isso significa recolher não só os próprios resíduos, mas também o lixo abandonado por outras pessoas ou transportado pelo mar. Se todos fizermos isso, a perservação vai ganhar imenso.

A responsabilidade estende-se às espécies capturadas. Rafael defende o cumprimento das medidas mínimas legais, que determinam o tamanho que um peixe deve atingir para poder ser levado, e dos períodos de defeso estabelecidos pela DGRM. Apesar de respeitar as regras, considera que as medidas mínimas aplicadas a algumas espécies deveriam ser superiores, permitindo que os peixes crescessem e se reproduzissem antes de poderem ser capturados. Para Rafael, preservar os recursos significa garantir que a pesca possa continuar a ser praticada pelas gerações futuras.

É neste equilíbrio entre divulgação, preservação e responsabilidade que Rafael imagina o futuro do RV Fishing. O sucesso do projeto não será medido apelas pelo número de seguidores, de visualizações ou de capturas, mas pela capacidade de mudar a forma como a pesca lúdica é vista e praticada.

“Daqui a alguns anos, espero que o RV Fishing seja lembrado por ter dignificado e dado visibilidade à pesca lúdica, dendendo-a. Quero uma pesca lúdica saudável, cheia de pessoas que o projeto trouxe para a modalidade e uma comunidade piscatória cada vez mais responsável, consciente dos seus deveres e da importância da segurança no mar”, afirma.

Mais do que ensinar a capturar um peixe, Rafael pretende transmitir uma forma de estar junto mar, assente no conhecimento, na segurança e no respeito pela a natureza, Para explicar o significado que esta paixão tem na sua vida, recupera um provérbio conhecido que leva para a vida inteira. “Dá um peixe a um homem e alimenta-o por um dia, ensina-o a pescar e alimenta-o para toda a vida.”

Artigo escrito por Samara Silva, editado por Diogo Pombo

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