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“Titanium” fez de Stephen Bunting uma estrela dos dardos. Com isso veio a fama, mas também ameaças de morte

Stephen Bunting, jogador de dardos, junto aos seus fãs
Stephen Bunting, jogador de dardos, junto aos seus fãs
Carl Recine

O jogador de 41 anos encontrou o estrelato à conta da sua entrada em palco a cada jogo de dardos, ao ponto de ter sido reconhecido em Nova Iorque. Hoje é uma celebridade nas redes sociais, mas com isso também chegaram os problemas. Bunting, que pegou pela primeira vez num dardo com 4 anos, garante que continua a ser “um tipo normal”

A muita da miudagem que anda por aí em sessões de farmar aura, em que, aparentemente, a ideia é agir de maneira a acumular uma presença carismática perante outros, nem lhe passará pela cabeça que, aqui há um par de anos, alguém se fartou de farmar aura sem sequer saber o que era isso do farmar aura.

Stephen Bunting foi um pioneiro, sem ter qualquer noção disso. Olhando para a figura do jogador de dardos, para o seu ar bonacheirão, talvez não fosse o maior candidato a tornar-se uma celebridade. Fê-lo quando, em janeiro de 2025, durante os Mundiais, um vídeo do seu walk on, a entrada em palco antes do início de jogo que é uma espécie de apresentação de cada jogador, atingiu níveis de popularidade na internet com os quais nenhum dos seus resultados desportivos poderá ombrear.

No vídeo, ele surge de camisola vermelha entre milhares de pessoas vestidas das maneiras mais aleatórias (de frango, garrafa de cerveja…), como só num torneio de dardos acontece. Tem um ar ligeiramente acriançado, apesar de, paradoxalmente, parecer até mais velho do que a idade que traz no BI, que ali ainda nem tinha chegado aos 40. Começa a batida de “Titanium”, a canção que juntou a cantora Sia ao DJ David Guetta. Bunting, de forma algo desajeitada, coloca as mãos nas orelhas e depois move-as para cima, como que pedindo mais barulho ao público. Parece tudo meio inesperado, fora de registo.

O inglês nascido em Liverpool vai depois por ali fora, distribuindo high fives, oferecendo selfies, dando um beijinho a Toby, o seu filho mais velho, uma espécie de Stephen em ponto pequeno, tais são as semelhanças. No palco, chega a apoteose quando a música rebenta. O público exulta, salta, canta. É tomado pela aura daquele tipo, que faz parte do grupo de pessoas que se torna carismática porque acredita que não têm carisma nenhum.

Mais do que explicar, nada como ver o vídeo.

Daí para cá, Stephen Bunting tornou-se uma inesperada rock star. Mudar a sua canção de entrada de “Surfin’ Bird”, associada à personagem de Peter Griffin da série “Family Guy”, como quem tem semelhanças físicas, para a poderosa “Titanium” provou-se uma jogada de mestre. Chegaram contratos, toda uma série de produtos de merchandising e, claro, uma presença habitual nas redes sociais, onde protagoniza desafios, anuncia produtos e brinca com outros atletas.

O lado mau do sucesso

O sucesso do número 10 do ranking, cuja popularidade global só tem paralelo com Luke Littler, que aos 17 anos foi o mais jovem campeão mundial de sempre, manifesta-se das maneiras mais inesperadas, mais ainda para alguém que, antes de se dedicar profissionalmente aos dardos, vendia fraldas para lares de idosos.

“Fui a Nova Iorque e um polícia parou-me e disse: ‘Oh, és o tipo do walk on’. Não disse: ‘És o tipo dos dardos”, revelou numa entrevista ao “The Guardian”. Em Inglaterra, as abordagens na rua são mais normais: “Só nos restaurantes é que pode ser irritante. Tirando isso, eu aceito tudo. Porque mostra que estou a fazer qualquer coisa bem e, sim, o social faz parte. Faço isto pelos meus fãs e também pela minha família.”

A mítica entrada de Stephen Bunting antes das competições
Bradley Collyer - PA Images

É claro que há a outra face da moeda. Toda a fama deixou Bunting mais exposto. Ao “The Guardian” revelou que tem sofrido ameaças de morte, que chegam normalmente de apostadores. Numa modalidade ultra-vitaminada a apostas desportivas, em que as casas de apostas são omnipresentes, seja no patrocínio de provas como nas transmissões televisivas, entrando olhos adentro de toda a gente, torna-se tristemente inevitável. E as ameaças subiram de tom quando Bunting perdeu inesperadamente na 3ª ronda dos últimos Mundiais. O seu filho Toby, de 14 anos, que surge muitas vezes com Stephen nos seus vídeos, teve de mudar de escola devido ao bullying de que era alvo.

Prestes a lançar uma biografia, Stephen Bunting diz que, quando possível, ainda joga nos torneios locais, em pubs, como nos bons velhos tempos. Pegou pela primeira vez num dardo aos 4 anos e aos 12 já ganhava ao pai, que desistiu dos bilhetes de época em Anfield para que o filho se dedicasse sem distrações à modalidade.

Hoje é um dos melhores jogadores de dardos do mundo, mas nem sempre teve a confiança que mostra a cada entrada em palco ao som de “Titanium”. Há cerca de uma década, um mau momento desportivo fez Bunting entrar num buraco negro. Em casa, refugiava-se no jogo online. “Jogava naquelas máquinas de frutas e, obviamente, não percebes o que estás a fazer. Cada jogada era uma libra, mas eram muitas jogadas. Quando a minha companheira recebeu o extrato bancário em casa pensei: ‘Oh não!’. Mas não tinha noção do mau era até ela mostrar-me de facto.” O papel revelou uma dívida de 90 mil libras, mais de 100 mil euros. “Fiquei arrasado. Nunca mais fiz isso.”

Bunting em plena competição, ele que é o 10º do ranking mundial
Alex Livesey

Nessa fase Bunting chegou a pensar desistir dos dardos e encontrar um trabalho, andou mesmo à procura em centros de emprego. Voltar a vender fraldas passou-lhe pela cabeça. “Eu dizia a brincar que era um trabalho de merda, mas era bom. Eu estava rodeado de boas pessoas”, graceja.

Tudo começou a melhorar quando, há cinco anos, se colocou nas mãos de um psicólogo. Começou também a fazer hipnoterapia, terapêutica à qual ainda recorre nos momentos mais difíceis.

Os amigos também têm sido um apoio importante. Mantém uma boa relação com Luke Littler, com quem partilha a propriedade de um cavalo de corrida (o outro dono do bicho é o ex-futebolista Michael Owen) e ao “The Guardian” falou ainda do papel do melhor amigo, Drew, que trabalha numa morgue. Confessa que falam mais de dardos do que da profissão de Drew: “Eu acho que não conseguiria fazer o que ele faz. Estar rodeado de pessoas mortas não é a minha ideia de diversão.”

Entrada para manter

“Titanium” mudou a vida de Bunting e o britânico diz que não se farta dela. Mesmo ouvindo-a mais de “20 vezes por dia”, já que a canção é também o seu “toque de telemóvel e despertador”. Vai manter-se para sempre como a sua música de entrada antes das competições, garante.

Para lá da fama e de ser reconhecido nas ruas de Nova Iorque, o dinheiro não parece ter moldado a sua personalidade. Sublinha que continua a ser “um tipo normal”. Carros de alta cilindrada estão fora de questão, até porque não conduz. O seu único luxo, revelou em outra entrevista, ao “The Observer” foi comprar uma caravana estática numa praia no norte do País de Gales: “É um belo terreno, literalmente com vista para os campos.”

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