Ser mãe no alto rendimento: “Houve uma pergunta desconfortável: ‘Já não queres ir aos Jogos? Já não queres mais?’. Parece o fim da linha”
Cátia Azevedo correu nos Jogos Olímpicos de Rio de Janeiro, Tóquio e Paris, e foi várias vezes campeã nacional dos 400 metros
David Fitzgerald
Cátia Azevedo, três vezes olímpica no atletismo, foi mãe este ano e diz que as atletas continuam “com muito medo de engravidar” num meio desportivo onde “escasseia a empatia” e é “maioritariamente gerido por homens”. Várias vezes campeã nacional dos 400 metros, acrescenta: “O meu marido também é atleta, foi pai e está tudo bem. Não há um tratamento igual.“ Há vários casos em Portugal de atletas que ficaram sem bolsa desportiva após engravidarem
Ser mãe não tem de significar o fim de uma carreira desportiva, mas, no alto rendimento, o regresso à competição continua a exigir às atletas uma rede de apoio que nem sempre existe.
Cátia Azevedo sentiu esse risco antes mesmo de regressar à pista. A velocista portuguesa, que foi mãe este ano, admite ter receado que a maternidade pudesse pesar na continuidade da carreira e até na renovação dos contratos, apesar de manter os objetivos desportivos.
“Continuamos com muito medo de engravidar. Eu retardei o máximo que pude por medo”, contou à Lusa a atleta, que representa o Sporting e é recordista nacional dos 400 metros.
Cátia Azevedo, de 32 anos, regressou aos treinos cinco semanas depois do parto. Em maio, quando retomou o trabalho, definiu como objetivos voltar a bater o recorde nacional e apontando à quarta participação Olímpica, em Los Angeles 2028.
No entanto, o regresso à alta competição expôs as inseguranças de quem esteve ano e meio sem competir e sem poder apresentar marcas aos patrocinadores.
“Houve uma pergunta que ouvi e que me deixou desconfortável: 'Já não queres ir aos Jogos? Já não queres mais?'. Parece que é um fim de linha. Ou somos mães ou continuamos a ser atletas de alto rendimento”, desabafou à Lusa.
Para a velocista — casada com o olímpico do lançamento do peso Tsanko Arnaudov —, a conciliação logística tem sido possível graças à flexibilidade das estruturas e a protocolos que permitem levar a criança para estágios com custos de acompanhante suportados, mas a atleta nota que escasseia a empatia num meio desportivo ainda maioritariamente gerido por homens.
“O meu marido também é atleta, foi pai e está tudo bem. Não há um tratamento igual“, lamentou a velocista com três participações olímpicas no currículo (Rio 2016, Tóquio 2020 e Paris 2024).
Sónia Gonçalves a jogar no torneio de badminton dos Jogos Europeus de 2019
Dean Mouhtaropoulos
Campeã quatro meses após ser mãe
Sónia Gonçalves descobriu que estava grávida quando o sonho olímpico ainda estava ao alcance. A atleta de badminton preparava a qualificação para Tóquio2020 e estava a escassas posições do apuramento quando descobriu que estava grávida de 37 semanas.
Duarte nasceu em agosto de 2020. A gravidez interrompeu a campanha olímpica, mas não a carreira. Duas semanas depois do parto, com autorização médica, Sónia Gonçalves regressou aos treinos e, quatro meses depois, sagrou-se campeã nacional absoluta de badminton, retomando também o circuito internacional.
O regresso, contudo, não se fez apenas de vitórias. Ao engravidar, a atleta perdeu o apoio de uma bolsa destinada a provas internacionais e teve de reconstruir as condições para continuar a competir.
“Na altura em que fui mãe, parecia que, embora não me tivessem descartado, a minha situação pessoal começava a ser vista como um entrave ou indisponibilidade. (…) Ficou uma mágoa”, recorda.
Seis anos depois, Sónia continua a competir e a rejeitar a ideia de que a maternidade determina o fim da carreira de uma atleta: “Parece que nos aplicam quase como que um prazo de validade. Parece que o nosso limite, a nossa validade, terminou ali por termos sido mães. E não é”.
A história da canoísta Joana Vasconcelos reflete uma batalha idêntica na água.
Com um currículo recheado de conquistas internacionais — onde se destacam o 6º lugar e o diploma olímpico em Londres 2012, múltiplos pódios em Taças do Mundo e Campeonatos da Europa, e a qualificação para os Jogos Olímpicos Tóquio 2020 —, a atleta viu a maternidade interromper abruptamente o seu suporte financeiro.
Ao engravidar, Joana ficou sem a bolsa desportiva.
A canoísta Joana Vasconcelos a pagaiar nos Jogos Olímpicos de Tóquio, que se realizaram em 2021 devido à pandemia
Francois Nel
“Na altura em que estava grávida não estava a competir e fiquei sem suporte nenhum. Só quando voltei a tirar resultados internacionais e me apurei para os Jogos Olímpicos é que voltei a ter a bolsa do Comité Olímpico“, explica a canoísta.
Embora tenha contado com a compreensão da Federação Portuguesa de Canoagem para ser acompanhada pela filha e pelo marido em estágios e competições internacionais, Joana aponta a falta de uma rede de acompanhamento durante a gestação como a grande lacuna do desporto nacional.
Para a canoísta, que amamentou a filha até aos dois anos e meio entre viagens com escalas de dez horas e provas internacionais, a maternidade trouxe contudo uma “motivação extra“ que devia ser potenciada pelo sistema e não penalizada financeiramente.
Os apoios que existem e os que faltam
Criada em 2024, a subvenção do IPDJ (537,13 euros mensais até 120 dias) apoia atletas de alto rendimento sem contrato, mas revela-se insuficiente para compensar a perda de bolsas e patrocínios durante a gravidez e pós-parto nas modalidades individuais.
Para o presidente da Comissão de Atletas Olímpicos, Emanuel Silva, a mudança de mentalidades já está em curso, mas a maternidade continua a ser encarada por muitas atletas como um risco para a carreira.
“A maternidade é um receio de qualquer atleta, mas as mentalidades estão a mudar. Não deve ser vista como um fim de uma carreira desportiva, mas como uma fase de uma vida para a qual o sistema desportivo tem de estar preparado”, afirmou à Lusa.
O antigo canoísta e medalha de Prata em K-2 1000m nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, considera que o regresso pós-gravidez, o apoio financeiro e a logística são alguns dos principais obstáculos que devem ser acompanhados por políticas adequadas à realidade atual.
Entre as medidas que considera necessárias estão condições para amamentar e conservar leite durante treinos e provas, apoio para cuidar das crianças e maior flexibilidade nos critérios de seleção.
Emanuel Silva defende ainda que treinadores e estruturas devem estar preparados para adaptar o treino às diferentes fases da gravidez e do regresso, garantindo que a atleta não fica sem suporte.
“É muito importante que haja esta política vincada, porque caso contrário, a atleta fica completamente sem suporte e dá-se o abandono”, alertou.