Duplantis a cantar, recorde de prémios monetários e só os melhores do mundo: como o Ultimate Championship quer revolucionar o atletismo
Armand Duplantis é estrela e cabeça de cartaz (musical) do Ultimate Championship, a nova competição da World Athletics
Shaun Botterill
Só as disciplinas mais populares, sem paragens, com foco na experiência televisiva e nas narrativas dos atletas, em três dias intensos de competição. O Ultimate Championship, que se vai realizar de dois em dois anos e dará 130 mil euros a cada vencedor, é a nova aposta da World Athletics para trazer novos públicos e mais dinheiro a uma modalidade cheia de super-homens e mulheres, que raramente são pagos como tal. A primeira edição arranca esta sexta-feira, em Budapeste. E Mondo Duplantis é o autor e cantor do hino oficial
Olhares sérios antes da competição, licras bem justinhas com as cores dos seus países ou patrocinadores, uma celebração (ou uma desilusão), um pódio. Era assim, e unicamente assim, que estávamos habituados a ver os melhores do atletismo, uma das mais obreiras das modalidades, fosse em Mundiais ou Jogos Olímpicos, ocasionalmente nas etapas da Liga Diamante.
E, por isso, foi surpreendente ver as imagens da apresentação do Ultimate Championship, a nova competição da World Athletics, a federação internacional de atletismo. Atletas com os seus melhores fatos de cerimónia, com as roupas mais ousadas e vanguardistas. Armand Duplantis como que acabado de vir de um alfaiate de Londres, Noah Lyles cheio de brilhantes, Keely Hodgkinson em modo heroína em filme de ação, Josh Kerr quase saído de um episódio de Miami Vice.
Um primeiro objetivo do Ultimate Championship foi, assim, conseguido: trazer atenção para as histórias e para as personalidades dos atletas, que não são apenas máquinas de correr, saltar ou lançar. Outro dos objetivos será agarrar novas audiências, uma luta de tantas modalidades, e dar ao atletismo uma competição que junte os melhores em temporadas sem Campeonatos do Mundo, como é esta de 2026.
Pelo caminho, os atletas vão competir pelo maior prize money de sempre numa prova de atletismo, uma modalidade onde raramente os praticantes são justamente pagos pelas suas capacidades sobre-humanas.
Josh Kerr
Maja Hitij
Josh Kerr
Maja Hitij
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Mas afinal que novidades traz esta competição, que terá a sua estreia esta sexta-feira em Budapeste e vai estender-se (mas não muito, é essa a ideia) durante o fim de semana?
Anunciado há dois anos, o Ultimate Championship vai reunir, em anos pares, os melhores nas disciplinas mais populares, numa competição rápida, sem eliminatórias, só meias-finais ou até finais diretas. E sem medalhas, só com um vencedor. Esse vencedor receberá um prémio de 150 mil dólares (cerca de 130 mil euros). Um valor significativo se compararmos com o que significou para a conta bancária ganhar uma medalha de ouro nos últimos Mundiais: 64 mil euros. O bolo monetário total será de 10 milhões de dólares (€8,6 milhões) do qual todos os atletas presentes recebem uma fatia, por mais pequena que seja.
Nem todas as disciplinas do atletismo farão parte do Ultimate Championship, uma Superliga de atletismo que pretende ser uma competição sem momentos mortos, com apelo televisivo. As distâncias longas como os 10.000m ou os 3000m obstáculos não estarão presentes, com a prova mais longa a ser os 5000m. Nas disciplinas técnicas, não se disputará, por exemplo, o lançamento do peso. A competição de triplo salto só se fará no feminino, não no masculino.
A World Athletics justifica as escolhas com a popularidade de cada disciplina, medida com dados de comportamento das audiências, incluindo “frequência cardíaca” e “transpiração”, mas o cardápio não será estanque. A escolha do lançamento do martelo na competição masculina, por exemplo, prende-se com a localização da primeira edição do Ultimate Championship, em Budapeste, na Europa de Leste, onde a disciplina tem tradição.
“Queremos que haja um reflexo local. O lançamento do martelo provavelmente não fará parte do programa daqui a dois anos”, assumiu Sebastian Coe, presidente da World Athletics, ao “The Athletic“. Coe quer que o Ultimate Championship seja uma espécie de laboratório para o futuro do atletismo. O que se experimentar e correr bem, poderá pouco tempo depois aparecer em Mundiais e Jogos Olímpicos. O que não resultar será descartado sem problemas. O líder do organismo fez mesmo uma analogia com a Semana da Moda de Paris: “Nem tudo o que se vê lá vai acabar num cabide de uma loja, mas haverá variações disso.“
Quem pode participar?
Ora aqui está outro conjunto de regras que poderá ser moldado. À partida, as contas são simples: cada disciplina de corrida terá uma start list de 16 atletas, com as disciplinas técnicas limitadas a oito participantes, em finais diretas. No caso da edição de 2026, garantem automaticamente presença os medalhas de ouro dos últimos Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo, tal como o vencedor da final da Liga Diamante de 2026.
O ranking mundial da época determinará o resto dos escolhidos e há ainda wildcards disponíveis. Inicialmente seria apenas um por disciplina, mas a organização não quis travar uma batalha entre o britânico Josh Kerr e o norueguês Jakob Ingebrigtsen nos 1500m e por isso convidou os dois. Esta será uma das corridas mais esperadas, igual aos 800 metros femininos que, tal como nos recentes Europeus, vão juntar Audrey Werro, Keely Hodgkinson e Femke Broeders-Bol.
Audrey Werro, Keely Hodgkinson e Femke Broeders-Bol vão protagonizar os 800 metros
Julian Finney
Não há também, e ao contrário dos Jogos Olímpicos e Mundiais, qualquer limitação de número de atletas por nacionalidade. “Se tivermos cinco sprinters norte-americanos ou cinco jamaicanos ou quatro quenianos nas distâncias longas que assim seja. Queremos que isto pareça diferente, com altas octanas e grande impacto”, sublinhou Coe.
Incentivos para a audiência
Para lá do formato em si, a federação internacional de atletismo introduziu outras novidades com o objetivo de melhorar a experiência de quem assiste às provas. Além do já referido evento de passadeira vermelha na véspera da prova, haverá, por exemplo, um draft nos 200 metros, em que os atletas mais bem classificados no ranking mundial poderão escolher em que pista querem correr.
A transmissão televisiva será pontuada por dados, probabilidades e informações sobre os atletas em formato gráfico. O relvado onde decorrerão os lançamentos será pintado de negro e os dardos e os martelos serão brilhantes, para se notarem na transmissão televisiva.
As narrativas que envolvem os atletas serão assumidamente alimentadas. Armand Duplantis, recordista mundial do salto com vara, criou a canção oficial do Ultimate Championship, “Gold”, que irá cantar durante o evento. Noah Lyles, campeão olímpico dos 100 metros, não vai participar, devido a lesão, mas estará em Budapeste como anfitrião.
Estádio onde vai decorrer o Ultimate Championship, em Budapeste, com a sua relva negra
Martin Rickett - PA Images
Usain Bolt, a última grande estrela global do atletismo, é o embaixador do Ultimate Championship, que soube chamar as grandes figuras. Na apresentação do evento, o jamaicano desvendou, com um pequeno desabafo, o que pode significar para um atleta uma vitória no novo evento, mais ainda para quem conseguir juntar, por exemplo, vitórias nos 100m, 200m e 4x100m (um total de 250 mil dólares, cerca de 215 mil euros), algo que era pão com manteiga para Bolt nos seus dias de domínio da velocidade.
“Antes de vir para cá tive uma conversa com o Asafa Powell e nós estávamos tipo: ‘Meu Deus, falhámos este grande prémio monetário’”, começou por dizer o três vezes campeão olímpico do hectómetro e duplo hectómetro. “Eu ganhei uns quantos campeonatos e tudo junto não chega a todo este dinheiro. Fico triste por não ter tido esta oportunidade, mas estou muito feliz pelos atletas”, sublinhou, como que lamentando ter, talvez, nascido na geração errada, quando praticamente só os patrocínios engordavam as contas dos atletas.
As dúvidas
Estes números e factos podem fazer-nos recuar até ao projeto falhado de Michael Johnson, que fundou a Grand Slam Track em 2025 precisamente com os mesmos princípios, ainda que com diferenças a nível de formato: em vez de uma competição a cada dois anos, tratava-se de uma liga anual, com quatro etapas e que distribuía 100 mil dólares aos vencedores. A ideia foi um fracasso financeiro e de audiências, e ainda hoje há atletas à espera de receber os prémios monetários devidos.
O Ultimate Championship tem, porém, outras forças. Ao contrário do Grand Slam Track, que foi ignorado por muitos dos melhores nomes da atualidade, esta nova prova da World Athletics vai juntar a nata da nata do atletismo. Praticamente todos os mais recentes campeões olímpicos e mundiais estarão presentes. Entre eles quatro portugueses: Isaac Nader (1500m), Gerson Baldé (salto em comprimento), Agate de Sousa (salto em comprimento) e Fatoumata Diallo (400m barreiras).
Fatoumata Diallo festeja o bronze em Birmingham, nos Europeus
TOLGA AKMEN
Pedro Pichardo estará ausente porque a sua disciplina não foi eleita para estar no Ultimate Championship, o que levou a duras críticas do saltador português. “Não percebo qual é o vosso problema e menos ainda que tenham tomado esta decisão sem qualquer explicação. Isto não é bom para o nosso desporto”, escreveu na sua página de Instagram.
O barreirista Karsten Warholm é outro dos desconfiados, apesar de estar na start list dos 400m barreiras. O norueguês, que perdeu recentemente o recorde mundial na distância para o brasileiro Alison dos Santos (outro grande duelo para o fim de semana), acredita que, mais do que criar uma nova competição, a World Athletics deveria “cultivar” a Liga Diamante. Em declarações ao jornal local “VG”, Warholm mostrou receios de que o papel do novo formato seja de difícil compreensão para os adeptos do atletismo.
Do outro lado da barricada estão Mondo Duplantis, que elogiou as tentativas de fazer “algo novo e inovador”, lembrando o quão difícil é para um atleta encarar um ano sem uma grande competição global. “O Ultimate Championship preenche perfeitamente essa lacuna”, aponta o craque sueco.
Já Josh Kerr, britânico que esteve no Grand Slam Track e tem sido um dos atletas mais vocais nas críticas aos magros rendimentos que os atletas tiram das provas oficiais, falou de “progresso” e mostrou satisfação por a federação internacional estar a colocar “um esforço sério” na melhoria dos prémios dos atletas: “Obviamente que 150 mil dólares é muito dinheiro. Não é tanto como noutros desportos, mas é possível depois de anos a trabalhar o marketing.”
O Ultimate Championship arranca esta sexta-feira, no Centro Nacional de Atletismo, em Budapeste, que recebeu os Mundiais de 2023.