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O rabo de cavalo de uma campeã olímpica que a ciência queria esconder

Keely Hodgkindon, campeã olímpica dos 800 metros, a vencer a corrida no Athlos, em Londres, com um fato vanguardista da Nike
Keely Hodgkindon, campeã olímpica dos 800 metros, a vencer a corrida no Athlos, em Londres, com um fato vanguardista da Nike
Michael Steele/Athlos

A Nike passou quase um ano a desenhar um fato para tornar Keely Hodgkison mais rápida e ela usou-o pela primeira vez em Londres, onde venceu os 800 metros do Athlos. Lembrando o icónico fato de Cathy Freeman, nos Jogos Olímpicos de Sidney 2000, a britânica surgiu em pista ao estilo Catwoman no culminar de uma época que não foi 100% positiva

Há um pormenor nesta história que é o mais engraçado de tudo: a Nike gastou quase um ano de ajustes e um laboratório inteiro no Oregon, Estados Unidos, incluindo um túnel de vento, a desenhar um fato para reduzir a resistência do ar no corpo da atleta Keely Hodgkinson e ela, no fim, disse que não. Porque o cabelo ficava de fora.

A ciência dizia-lhe, admitiu depois da corrida, que era “tecnicamente mais lenta com o cabelo à mostra”, mas isso para ela foi inegociável. Por isso, o capuz da britânica tem um corte a meio, feito à medida, só para deixar o seu rabo-de-cavalo loiro a esvoaçar pela pista. A Nike, especialista em aerodinâmica computacional, teve de ceder à identidade, ou vaidade, da britânica de 24 anos.

E no fim tudo deu certo.

Foi assim, de rabo-de-cavalo ao vento dentro de um fato preto, comprido, de costas abertas e capuz, sem costuras visíveis e coberto de pequenos nódulos impressos em 3D, que Keely Hodgkinson fechou a época ao vencer os 800 metros na estreia do Athlos em Londres, uma competição exclusiva a mulheres. Correu a distância em 1:56.40, dois segundos acima do seu recorde britânico, fixado em junho, mas ainda assim mais de dois segundos à frente da suíça Valentina Rosamilia, a segunda classificada.

Nada foi deixado ao caso. O padrão foi cortado a partir do corpo em movimento, ajustado à passada máxima de Hodgkinson para não fazer pregas a alta velocidade; o joelho articulado na parte de trás, para o tecido ficar liso no pico da flexão da perna, e foram criadas fendas estruturais no capuz para encaixar os óculos Nike Vision Airelon Force E (18 gramas) sem esticar o tecido, entre outros pormenores.

O jornalista do The Guardian que assistiu à corrida, Sean Ingle, descreveu o visual como “parte assassina ninja, parte Catwoman” e para tirar as dúvidas dos mais céticos afirmou sem rodeios que Keely “podia ter corrido com um casacão grosso e ainda assim teria vencido com facilidade” os €50.000 e a coroa da Tiffany & Co. em disputa. Ou seja: a vantagem, a existir, é para os centésimos, não para o resultado.

Não se via um espetáculo destes há 26 anos e a própria atleta britânica fez questão de o admitir: “Cathy Freeman e outras atletas de há uns anos fizeram algo parecido. Isto é a versão atualizada, com a nova tecnologia.”

Keely referiu-se aos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, onde a australiana venceu os 400 metros com um fato de corpo inteiro verde e dourado, também de capuz, assinado pela Nike com o designer Eddy Harber e o especialista canadiano em aerodinâmica Len Brownlie.

Mas enquanto Harber afirma que Cathy Freeman via aquele fato “como uma espécie de armadura”, já Keely foi muito objetiva sobre a sua nova vestimenta: “Com este kit de velocidade sinto-me rápida, à vontade, confortável e cheia de energia. Queria sentir-me confortável, mas também queria sentir-me um pouco sensual; as costas ficam à mostra e isso dá-lhe um ar muito fixe. Sinto que não estou a vestir nada, sinceramente. Treinei com ele na África do Sul, com 37 graus, e correu bem.”

Época de altos e baixos

A época da atleta britânica, de 24 anos, campeã olímpica dos 800 metros, começou da melhor maneira: recorde do mundo indoor da distância em fevereiro, com 1:54.87, em Liévin, França, e o título mundial a seguir; mas desatou a correr mal, devido a lesões. Depois de ter ficado em segundo lugar, atrás da suíça Audrey Werro, na final dos 800 metros dos Mundiais de Budapeste, em setembro, Keely revelou ter descoberto que tem um tendão isquiotibial “dividido”: significa que tem dois tendões em vez de um. A anomalia permite-lhe continuar a correr quando um dos tendões está rompido, mas que também pode torná-la mais suscetível a lesões.

O reajustamento nos treinos devido a essa condição, e o fato da Nike, acabaram por contribuir para que Keely terminasse em grande, precisamente no Athlos, o circuito só de mulheres fundado em 2024, por Alexis Ohanian, cofundador do Reddit e marido de Serena Williams, que teve nas duas edições anteriores (2024 e 2025) palco em Nova Iorque e encontrou em Londres a sua primeira paragem fora dos Estados Unidos.

Quanto ao futuro, tendo em conta que os fatos de corpo inteiro são permitidos no atletismo, ao contrário da natação, desde que justos ao corpo, é muito provável voltarmos a ver atletas vestidos da cabeça aos pés, em pista, prontos para passar fintar o vento e bater recordes.

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