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Andreas Almgren: do relvado de futebol ao asfalto, da velocidade na pista ao ouro mundial na meia-maratona

O sueco Andreas Almgren bateu o recorde europeu e conquistou o Mundial da meia-maratona, em Copenhaga
O sueco Andreas Almgren bateu o recorde europeu e conquistou o Mundial da meia-maratona, em Copenhaga
Gaelle Mobuchon

Aos 19 anos era promessa dos 800 metros, um ano depois de ser convocado como defesa central para estágios da seleção jovem sueca de futebol. Aos 31, é o europeu mais rápido da Europa na meia-maratona e, desde domingo, campeão do mundo da distância. Entre um ponto e outro, uma década de fraturas, um método de treino que poucos aguentariam e a prova de que por vezes o destino desvia-nos do caminho para nos entregar o que era mesmo nosso

Há uma ironia que parece ter sido desenhada à medida de Andreas Almgren. Passou a adolescência a preparar-se para ser velocista, a moldar o corpo para os 400 e os 800 metros, convencido de que ali estava o seu destino, e um dia a vida abriu-lhe outra porta, mais longa, mais lenta à partida, mas afinal a única onde estava escrita a sua glória. Foi isso que aconteceu ao sueco que sonhava com velocidade, que jogava futebol nas seleções jovens de futebol da Suécia e que se estreou nos livros de recordes como especialista dos 800m.

Hoje, aos 31 anos, é o homem mais rápido da história da Europa na meia-maratona e, desde domingo, também campeão do mundo da distância.

Em Copenhaga, sob um sol que fez esquecer o cinzento habitual do outono dinamarquês, Almgren voltou a reescrever a sua própria marca europeia, baixando o recorde em 35 segundos e conquistando o primeiro título mundial da carreira, ao vencer a meia-maratona masculina com um novo recorde europeu. O cronómetro parou nos 58:06 e confirmou aquilo que já não é surpresa para ninguém que acompanha o atletismo: Almgren tornou-se, numa questão de meses, o corredor mais completo do continente.

Poucos percursos desportivos ilustram tão bem a arbitrariedade do talento como o de Almgren. Antes de ser corredor foi defesa-central. Chegou a integrar os estágios de elite da seleção jovem sueca de futebol e, se tivesse continuado a dar pontapés na bola, quem sabe não estaria hoje ao lado de antigos colegas de equipa que disputaram o Mundial de futebol de 2026. O destino encarregou-se de o levar por outra via.

Começou por competir nos campeonatos nacionais de atletismo na Suécia ao mesmo tempo que jogava futebol, até uma fratura de stress, aos 16 anos, o forçar a escolher.

Nascido em Sollentuna, junto a Estocolmo, em junho de 1995, Almgren começou por correr os 800 metros, a distância do seu ídolo de infância, o dinamarquês-queniano Wilson Kipketer. O talento apareceu cedo: aos 19 anos já trazia um bronze do Mundial de sub-20, em Eugene, nos Estados Unidos. Mas a seguir vieram anos de travessia no deserto. O corpo negou-lhe aquilo que a cabeça já sabia fazer e passou sete anos sem se qualificar para um campeonato. Tudo começou com uma fratura num osso do pé e prolongou-se em sucessivas fraturas de stress que o obrigaram a repensar tudo.

Treinado por Urban Aruhn, eleito, neste 2026, treinador do Ano na gala do atletismo sueco, decidiram em conjunto mudar de filosofia e, em 2019, adotaram o método do “duplo limiar”, um sistema que privilegia grandes volumes de treino com intensidade controlada. A filosofia era simples: menos desgaste por sessão, mais consistência ao longo da semana.

O impacto foi imediato.

Treinos com mais de 200km numa semana

O que essa mudança de filosofia significa na prática só se percebe quando se olha para os números que o próprio Almgren revela sobre a sua rotina. Numa semana de preparação chegou a somar 206 quilómetros, com dois treinos por dia, todos os dias, sem exceção. Um volume mais comum entre maratonistas do que em especialistas de pista. Foi precisamente essa base, segundo ele, que lhe deu vantagem na fase mais decisiva da época.

Antes do recorde europeu dos 10.000 metros, em Valência, houve sessões que lhe deram a certeza de que algo grande se aproximava: um treino de 3x3 km com três minutos de descanso, a um ritmo notável, e uma série de 10x1000m com apenas um minuto de recuperação, com média próxima dos 2:33 por quilómetro.

Os treinos de limiar - aqueles em que o corpo está no ponto de transição entre o esforço que ainda aguenta e o que já dói a sério -, são acompanhados como uma experiência de laboratório: Almgren mede a velocidade a que corre, o lactato no sangue, a frequência cardíaca e até a sensação que tem naquele momento. Normalmente corre esses treinos com o coração entre as 167 e as 178 pulsações por minuto, a um ritmo que pode chegar aos 2:40 por quilómetro.

Mesmo o dia mais leve da sua semana seria, para a esmagadora maioria dos corredores, um dia grande: 12 quilómetros pela manhã, 10 à tarde, mais trabalho de força. A recuperação é tratada com o mesmo rigor: botas de compressão, massagem regular, tentativas nem sempre bem-sucedidas de dormir oito horas por noite

Um cientista de dados a bater recordes

Há algo de irónico em como esse método combina com a outra vida de Almgren, como se o destino provasse mais uma vez estar certo. Formado em matemática aplicada pelo KTH Royal Institute of Technology, em Estocolmo, continua a trabalhar como consultor de ciência de dados em paralelo com a carreira desportiva. Essa formação tornou-se parte do segredo do seu sucesso.

Chegou a recorrer a análises preditivas de uma empresa especializada em otimização de treino baseada em dados para afinar a preparação da estreia na meia-maratona. É um homem de números, tanto na vida profissional como nas pistas de atletismo, dividido, como ele próprio já brincou publicamente, entre a paixão pelas corridas e pelos hambúrgueres, que assume devorar uma ou duas vezes por semana como forma de recompensa.

Andreas Almgren bateu o recorde dos 10.000m no Campeonato Europeu de Atletismo de 2026, em Birmingham
Maja Hitij

Nem tudo, no entanto, foi linear. O sonho olímpico de Paris 2024 desmoronou-se à última hora, quando uma reação de stress na tíbia o impediu de competir. Um desapontamento profundo depois de uma temporada de recordes suecos. Aí a resiliência voltou a falar mais alto: em 2025, conquistou o primeiro bronze internacional da história do atletismo de fundo sueco, nos 10.000m dos Mundiais de Tóquio. Este verão, em Birmingham, transformou esse bronze em ouro europeu na mesma distância.

O próximo capítulo

E depois há a meia-maratona, distância que ninguém lhe tinha reservado no papel mas onde encontrou a sua consagração definitiva. Primeiro baixou o recorde europeu para 58:41, em Valência, em outubro de 2025, sendo o primeiro europeu da história a descer dos 59 minutos na distância. Agora, em Copenhaga, foi mais longe: 58:06, título mundial incluído.

Confrontado com o contraste entre o ponto de partida e o ponto onde chegou, o próprio sueco não escondeu o espanto: ainda lhe parece surreal ter passado dos 400 metros às meias maratonas, quando há uma década a ideia de um dia correr os 5000 metros já parecia motivo de troça entre amigos.

E a história não vai ficar por aqui.

Almgren revelou que vai estrear-se na maratona daqui a um mês, em Nova Iorque. O passo lógico seguinte para quem, distância a distância, tem vindo a testar os limites do que é possível a um só corpo. Não há muito tempo diziam que ele era o melhor corredor europeu de sempre sem medalha. Hoje, com um ouro europeu, um bronze mundial e um título mundial de meia-maratona na bagagem, essa etiqueta já não lhe serve. T

alvez seja essa a lição mais bonita da história de Andreas Almgren: a de que o destino, por vezes, não nos rouba um sonho, apenas o troca por outro que ainda não sabíamos que era nosso. O rapaz que treinava para ser velocista de 800 metros tornou-se, contra todas as previsões, o rei europeu da meia-maratona. E a estrada, essa que outrora parecia longa demais para ele, é hoje o palco onde melhor se revê.

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