Modalidades

Solveig Løvseth era a campeã mundial de Ironman. Deixou de o ser porque quase desmaiou a um quilómetro da meta

Solveig Løvseth a correr durante a final do Mundial de Ironman 2026 em Kona, no Havai
Solveig Løvseth a correr durante a final do Mundial de Ironman 2026 em Kona, no Havai
Ezra Shaw

A triatleta norueguesa era campeã do mundo de Ironman e ia a caminho do segundo título consecutivo no Havai quando o corpo lhe falhou, a pouco mais de um quilómetro da meta. Um ano depois de conquistar a modalidade que implica fazer quase 226 quilómetros entre nadar, pedalar e correr (com uma estratégia baseada na gentileza para consigo própria), Solveig viu escapar-lhe uma vitória que parecia certa

Faltava pouco mais de um quilómetro para o fim do Campeonato do Mundo de Ironman, no Havai, quando Solveig Løvseth, de repente, deixou de conseguir correr.

A norueguesa, de 27 anos, que liderava a prova e preparava-se para conquistar o segundo título mundial consecutivo, caiu no chão várias vezes, levantou-se outras tantas e até chegou a correr na direção errada, como se as pernas se tivessem desligado do cérebro e ganhado uma descoordenada vida própria. Por mais que Solveig recorresse à habitual estratégia de ser a sua própria claque, dizendo coisas a si própria — “Estás a fazer boas escolhas”; “Estás a sair-te bem”; “Tenho orgulho em ti” —, desta vez o corpo não lhe respondeu. Quem aproveitou foi a rival, Taylor Knibb, que passou por ela e ganhou. A americana terminou em 8h36m29s. Solveig, que tinha chegado a conseguir mais de um minuto de vantagem na fase final da prova, acabou no 8º lugar, com 9h02m09s.

A corrida de 10 de outubro, em Kona, fez-se com os termómetros a atinfirem os 35 graus e 85% de humidade, segundo o diretor-desportivo da seleção norueguesa, Frode Viberg Jermstad, citado pelo VG. Após quase 226 quilómetros repartidos por natação (3,8 km), ciclismo (180 km) e corrida (42,1 km), Solveig começou a vacilar e quis parar. “Priorizei a minha saúde”, disse, segundo o jornal norueguês VG. “As pessoas pediam-me que continuasse, mas tive de me deitar”, explicou depois.

Numa recente entrevista ao “The Athletic“ feita a partir de um estágio que fez nos Pirenéus franceses, Solveig descrevera o que faz quando a prova começa a doer a sério. Não se flagela, como outros desportistas admitem fazer, antes prefere falar consigo com simpatia, mesmo quando as coisas não correm como previsto. “Sou a minha própria claque”, resumiu. A dúvida, porém, não desapareceu.

Em Kona, com calor, deu por si a perguntar se deve apertar, se está a ir depressa de mais, se vai rebentar. E olhou muito para o relógio, a fazer contas a quanto faltava e a onde podia ser apanhada ou apanhar quem vai à frente. Gosta da distância longa como aquela que disputou na ilha do Pacífico, contou, porque o ritmo controlado lhe assenta bem. E dorme sempre mal na véspera: acorda às 3h para uma partida às 6h.

Na final do Mundial de Ironman passaram por ela Knibb, Laura Philipp, Julie Derron, Kat Matthews, Imogen Simmonds, Lisa Perterer e Hannah Berry. Mas Løvseth levantou-se, chegou à meta com um sorriso e os braços no ar, e o público respondeu com júbilo. Fez 9:02:09, foi 8ª classificada, a mais de 25 minutos de Knibb, que ganhou em 8:36:29. Philipp foi segunda e Derron terceira, na estreia em Kona.

Frode Viberg Jermstad, diretor-desportivo da Federação Norueguesa de Triatlo, disse que Solveig se recompôs após alguns minutos a receber nutrição e sais, sem os quais o corpo da atleta entrou em modo de choque e colapsou. Jermstad notou ainda que o resto da seleção do país nórdico chegou ao Havai 16 dias antes da prova mas Solveig apenas a 10, quando as recomendações do Comité Olímpico Internacional apontam para pelo menos duas semanas de aclimatação ao calor em condições extremas.

Sobre o que sentiu, Solveig falou pouco. À “Sport1” disse não saber o que lhe aconteceu. O “VG” cita ainda a revista alemã “Triathlonmagazine”, segundo a qual Solveig explicou porque não desistiu: “Sou demasiado competitiva. Simplesmente não queria abandonar a prova.”

Solveig Løvseth deitada no chão logo após vencer a etapa de Hamburgo do Mundial de Ironman de 2026
Alexander Koerner

A rapariga que tinha vergonha de fazer triatlo

Solveig era uma nadadora do secundário, frustrada, a quem o treinador sugeriu o triatlo. “No início, tinha muitas dúvidas”, contou ao “The Athletic”. O trialto “era uma modalidade muito pequeno na Noruega e eu não conhecia praticamente ninguém que a praticasse”. Enquanto a natação era uma modalidade conhecida, com um lugar reconhecido no desporto norueguês, o triatlo parecia-lhe estranho, quase difícil de explicar aos outros. Por isso, demorou a assumir que fazia triatlo. Hoje gostava de inspirar mais raparigas: na seleção norueguesa são sobretudo homens e por vezes sente-se sozinha. Segundo a organização da Ironman, as mulheres são 18% dos participantes nas provas em todo o mundo.

A distância entre aquela adolescente e a campeã que chegou ao Mundial de Kona, este ano, não se mede apenas em resultados. Mede-se também na forma como aprendeu a lidar com a própria cabeça.

Um Ironman junta 3,8 quilómetros de natação, 180 quilómetros de ciclismo e 42,1 quilómetros de corrida. O percurso soma praticamente 226 quilómetros e os atletas podem gastar cerca de 10.000 calorias durante a competição. O cenário havaiano, com o oceano e as estradas íngremes entre a paisagem vulcânica, não torna a experiência menos dura. É uma prova em que a estratégia alimentar, o ritmo e a gestão do esforço podem decidir uma vitória. Mas Solveig identificara outro fator: a maneira como cada atleta reage aos próprios pensamentos quando o cansaço começa a acumular-se.

“É difícil desligar a cabeça”, explicou. Durante o ciclismo, quando ainda se sente relativamente bem, deixa os pensamentos divagar. Na corrida, a conversa interior muda. “Devo ir mais depressa? Estou a ir depressa demais? Consigo manter este ritmo ou vou rebentar?”

A dúvida não desaparece por se treinar a autoconfiança. Solveig sabia-o antes de voltar a competir em Kona. O que tentava fazer era impedir que a dúvida tomasse conta de tudo.

Solveig Løvseth a cumprimentar adeptos na etapa do Texas, nos EUA, do Mundial de Ironman 2026
Tim Warner

“Mesmo que as coisas não tenham corrido como queria, sou bastante boa a concentrar-me no que correu bem ou no que ainda posso fazer bem“, disse ao “The Athletic” antes da competição.

Em 2025, essa capacidade acompanhou-a até ao título mundial. Solveig estreou-se em Kona e ganhou, em 8:28:27, numa corrida em que duas das principais rivais cederam ao calor: Knibb, que liderava, colapsou a cerca de 3,22 km da meta, e Charles-Barclay abandonou. O que veio a seguir foi desgastante. Nas três noites após a vitória dormiu, em média, cerca de três horas, entre pedidos de media e compromissos, e a viagem de regresso a casa demorou 40 horas — e durante a prova aguentou a pensar no hambúrguer, nas batatas fritas e no batido que iria comer depois. Ao chegar, ficou uma hora sem telemóvel e foi isso, disse, que melhor soube.

Este ano chegou ao Havai em boa forma, depois de vencer o Ironman do Texas e o de Hamburgo. Em setembro, terminara em quarto lugar no Campeonato Mundial de Ironman 70.3, em Nice, uma prova com metade das distâncias de ciclismo e corrida, vencida precisamente por Knibb.

Solveig Løvseth tinha, por isso, motivos desportivos para acreditar num segundo título mundial. Tentava tornar-se a primeira mulher a revalidar o título mundial em Kona desde 2018 e tinha ainda em perspetiva um prémio de 125 mil dólares (cerca de €112 mil) pela conquista do campeonato. A temporada colocava-a também numa posição forte na classificação geral da Ironman Pro Series, cujo prémio monetário é de 200 mil dólares (€179 mil).

Antes da partida, porém, recusava tratar o resultado do ano anterior como uma garantia. “Conheço muitas pessoas que tiveram uma experiência fantástica na primeira vez aqui e depois uma experiência terrível na segunda”, disse ao “The Athletic”. E acrescentou: “Não sinto, de todo, que saiba como correr aqui.” Terá sido uma premonição?

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