É aquela altura do ano. Algures no início de junho, durante duas semanas, as ruas da pequena e habitualmente pacata Ilha de Man, no meio do Mar da Irlanda, enchem-se de gladiadores de capacete na cabeça, os mais corajosos dos pilotos, para participarem no Isle of Man TT, centenária prova de motociclismo e talvez uma das mais míticas competições de motores do planeta.
Não há circuitos ou escapatórias. Aqueles pilotos baixam a viseira e cruzam a alta velocidade o Snaefell Mountain Course, que passa por vilas, aldeias, pelos quintais dos habitantes da ilha e pela montanha que embeleza aquele rochedo. São 60 quilómetros cheios de riscos mortais, com milhares e milhares de aficionados que ali vão em peregrinação de toda a Europa a assistir nas bermas das estradas. É tudo cru e belo. Mas tão fascinante quanto perigoso.
Na Ilha de Man, cada vez que um piloto sobe à sua moto, sabe que pode ser a última. Em 2022, foi a última vez para seis pilotos. Em 2005, morreram 11 pilotos ali, na mais mortífera das edições da prova. Raul Torras Martinez, um espanhol de 46 anos, com experiência na corrida, tornou-se na noite de terça-feira na vítima número 156.
Torras Martinez despistou-se durante a terceira e última volta da primeira corrida da categoria de Supertwin. A organização sublinhou que Raul foi “o espanhol mais rápido da história do TT”, uma corrida normalmente dominada por pilotos locais, ingleses ou norte-irlandeses.
Natural da Catalunha, Torras Martinez competia na Ilha de Man desde 2017 e com uma licença de Andorra, já que a federação espanhola de motociclismo deixou de passar autorizações a nacionais para competir na prova desde que outro espanhol, Santi Herrero, ali morreu em 1970, conta o “El País”.
A edição do ano passado ficou marcada pela morte de um pai e um filho, Roger e Bradley Stockton, de 56 e 21 anos, respetivamente, quando participavam numa prova de sidecar, levantando de novo a discussão sobre se não será simplesmente demasiado arriscado competir ali, esperando a morte acontecer.
Disputado desde 1907, o Isle of Man TT é considerado o derradeiro desafio para um motociclista e é raro, por exemplo, ver as estrelas no MotoGP a arriscarem-se naquelas estradas. Valentino Rossi, que ali correu em 2009 mas apenas numa volta de exibição, confessou em 2021, na fase final da sua carreira, que não estaria disposto a competir na Ilha de Man. “É lindo e lendário. Mas é muito assustador. Não competiria ali, é demasiado perigoso”, disse em entrevista à “Gazzetta dello Sport”.
As ruas da Ilha de Man recebem bem mais do que o Isle of Man TT, que apenas na edição de 1982 não teve vítimas mortais. No total contam-se mais de 260 vítimas em provas no Snaefell Mountain Course que, ironia do destino, começa e termina junto ao cemitério da cidade de Douglas, cidade capital da ilha.
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