Ano novo é sempre sinónimo de Dakar. E na sétima edição consecutiva nos rochedos e dunas da Arábia Saudita, também de história. Se o prólogo de Yanbu era uma formalidade para os carros, uma especial de 22 quilómetros para ordenar a partida para a 1.ª etapa, no domingo, com já mais de 300 quilómetros cronometrados com início e fim na mesma localidade, nas motos já se corria a sério. E bem a sério correu Edgar Canet, espanhol da equipa oficial da KTM.
Aos 20 anos, 9 meses e 18 dias, o rapaz nascido em La Garriga, a norte de Barcelona, tornou-se no mais jovem motard de sempre a vencer uma etapa no Dakar, dando ainda mais lustro aos encómios que já vinham do ano passado, quando na estreia no mais míticos dos rally raids do mundo, venceu na categoria Rally 2, com apenas 19 anos, ele que era o mais novo de todos os pilotos da caravana do Dakar.
Canet foi 3 segundos mais rápido que Daniel Sanders, o seu colega de equipa australiano, que defende o título, e cinco que Ricky Brabec, com a Honda oficial - Martim Ventura (Honda) foi o melhor português, na 21ª posição. E mesmo que não se considerando um dos favoritos à vitória final, lança os sinais necessários para que muito se espere dele nos próximos anos.
Habituado desde cedo ao cheiro da fuligem que vinham da loja de motos do seu avô, Edgar começou no motocrosse e foi campeão do seu país aos 14 anos, na categoria de 85 cc. Passou depois para as 125 cc, mas aos 18 anos decidiu que não era nos circuitos de lama que ia continuar o seu sonho. Apreciador da ideia dos horizontes abertos dos rally raids, mudou para essa disciplina, mesmo indo contra os conselhos de Nani Roma, o seu padrinho no motociclismo e um dos poucos pilotos com vitórias no Dakar tanto nos carros como nas motos.
“Não é uma mudança natural. Aconselhamos a que não o fizesse, porque sabemos o perigoso que isto é. Mas com a sua insistência e atitude acabámos por o ajudar a escolher as pessoas de quem se devia rodear, porque é um caminho muito complicado para fazer sozinho. Ele demonstrou que tem a atitude para o fazer”, confessou Roma numa entrevista ao “Mundo Deportivo” antes da estreia de Canet no Dakar, no ano passado.
Logo nas primeiras corridas conseguiu bons resultados, estreando-se em provas do Mundial em Portugal, em 2024, fazendo logo um terceiro lugar no seu primeiro prólogo. A última temporada foi de confirmação, vencendo o Mundial de Rally 2 com quatro triunfos em cinco provas. A passagem para a equipa de fábrica da KTM foi a passagem natural para a categoria principal.
Mas tudo isto poderia ter sido uma miragem. Há cinco anos, ainda no motocrosse, e numa corrida próxima de casa, Edgar Canet sofreu uma queda grave que o deixou sete meses em convalescença. Partiu cinco vértebras, três costelas e ainda fraturou um joelho. E temeu não voltar a andar.
“No hospital disseram-me: ‘Mexe as pernas’. E eu: ‘Estou a mexê-las’. Mas a verdade é que elas não estavam a mexer”, contou no podcast espanhol Tragando Polvo, dedicado aos desportos motorizados em duas rodas. O catalão passou sete dias de tensão no hospital, a contas com um coágulo na medula. Passou depois por três operações, em que lhe foram colocadas “duas placas e 10 parafusos”, explicou no mesmo podcast. Osso da sua anca foi utilizado para reconstruir as vértebras danificadas. Ainda assim, confessa que nunca pensou deixar as motos.
Em boa hora não o fez. Há um ano, no Dakar, foi a grande revelação nas motos, contando sete lugares dentro do top 10 geral, apesar de estar numa moto de categoria inferior. Isto tudo com uma queda feia pelo meio, na etapa 6. As dores ainda fizeram pairar um abandono, mas tal como anos antes conseguiu recuperar de uma queda que o obrigou e a meses e meses de esforço para voltar à competição, também as dunas árabes viram a persistência do jovem Edgar Canet. No final foi 8º na geral, o primeiro na sua classe.
Este ano, começa já com um recorde, ao qual não dá grande importância. “Dormir como líder do Dakar é magnífico, sou o rapaz mais feliz do paddock. O resto é só um número. Agora é quando começa verdadeiramente a dureza e a luta pela geral”, apontou, em declarações citadas pelo “El País”.