Não é à toa que lhe chamam o jogo do século. Quer dizer, se só contarmos o tempo extra


















































































































































































































Jornalista
No Estádio Azteca no México, palco repleto de feitos, existem duas placas que se destacam. Uma a comemorar o jogo em que Maradona marcou dois dos golos mais famosos de sempre (o do século e da Mão de Deus) contra a Inglaterra. A outra, já mais esquecida pela atualidade, olha para um dos grandes confrontos coletivos da história do jogo. Mentira, talvez seja mesmo o melhor, a acreditar nessa inscrição: "o estádio Azteca rende homenagem às seleções de Itália e Alemanha, protagonistas no Mundial de 1970 do jogo do século."
O 4-3 que apurou a squadra azurra para a final à custa dos germânicos é um dos desafios mais épicos de sempre, o que não é dizer pouco, quando falamos de um Mundial que é considerado unanimemente como o melhor na história da competição e que tem o brilhantismo do Brasil de Pelé como a sua imagem mais duradoura. Mas num jogo em que cinco dos sete golos aconteceram no prolongamento, muito há a dizer.
Comecemos, pela Itália que, como é seu apanágio, começou a competição sem grande brilhantismo num estilo de jogo sobretudo assente numa linha defensiva formidável, liderada pelo capitão Giacinto Fachetti e à espera de um rasgo de génio de Riva e Rivera. Que encontraram o seu ritmo nos quartos-de-final quando, sem apelo nem agravo, despacharam os anfitriões México por 4-1.
Já a Alemanha, finalista vencida da anterior competição, tinha impressionado na fase de grupos com o bombardeiro Gerd Muller a somar sete golos e a classe de Beckenbauer a unirem-se para uma combinação de impôr respeito. Que o diga a Inglaterra que, numa reedição da final de há quatro anos antes, foi desta feita derrotada por 3-2, com ambos os suspeitos do costume a faturarem.
Numa prova onde, pela primeira vez, se mostraram cartões vermelhos e amarelos e foram permitidas substituições, o futebol foi marcadamente ofensivo, com uma média de golos de 2.97 por jogo que ainda não foi superada. O futebol total (que a Holanda haveria de introduzir na sua versão mais completa) começava a emergir e os cuidados táticos deram lugar a confrontos mais abertos. Ninguém esperaria tal de seleções como Itália e Alemanha, famosas pela sua consistência, só que, como também já sabemos, o futebol é fértil em surpresas.
E assim foi que, sem saberem que estavam prestes a marcar o seu lugar na história, no dia 17 de junho de 1970, as equipas subiram ao relvado do Estádio Azteca perante mais de 100 mil espectadores. A montanha-russa estava prestes a começar.
O primeiro salto deu-se logo aos 8 minutos, quando Boninsegna rematou de longe para o primeiro golo da partida. Seguiu-se um confronto de parada e resposta, com lances de perigo junto das duas balizas e, ao contrário do que deve estar a pensar, sem que mais ninguém marcasse ao longo dos 82 minutos seguintes. Foi já com Beckenbauer lesionado - e a ter que continuar em campo com o braço pendurado - que a Alemanha chegou ao empate, com um veterano de quatro mundiais, Schnellinger, a marcar o seu único golo internacional . Ao melhor estilo de Cristiano Ronaldo, tinha-se aberto o ketchup.
O empate pareceu dar novo ânimo às hostes germânicas que, após o reatar do jogo, rapidamente chegaram à vantagem por intermédio do inevitável Muller. Não era agora que os habitualmente implacáveis alemães iam vacilar, certo? Errado. Volvidos quatro minutos, Burgnich voltou a empatar a contenda e, aos 104, Riva selou nova reviravolta no marcador. Feridos no orgulho, os alemães ainda voltariam a empatar por Muller aos 110 minutos. Só que não contavam que, na jogada seguinte, Rivera voltasse a desfeitear Sepp Maier. Se já perdeu a conta, nós ajudamos: 4-3.
Os alemães ainda tiveram oportunidades para fazer o 4-4, mas o marcador de um jogo absolutamente louco não voltaria a conhecer alterações. Que, apesar da vitória épica, deixou os italianos completamente de rastos para a final e à mercê de um imperial Brasil, que não teve problemas em golear por 4-1.
Já a Alemanha garantiu o terceiro lugar e continuou a trabalhar na base que, quatro anos mais tarde, lhe daria o segundo titulo mundial. Sempre com o fantasma de uma rivalidade que viria a conhecer mais capítulos.
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