Mundial 2018

Não é à toa que lhe chamam o jogo do século. Quer dizer, se só contarmos o tempo extra

Gerd Muller marca o 2-1 para a Alemanha, num jogo que os germânicos viriam a perder por 4-3 frente à Itália
Gerd Muller marca o 2-1 para a Alemanha, num jogo que os germânicos viriam a perder por 4-3 frente à Itália
Getty Images
A meia final entre Itália e Alemanha acabou em 4-3 para os transalpinos é considerada por muitos como o melhor jogo de sempre dos mundiais. Drama, lesões, futebol espetáculo e cinco golos após os 90 minutos, houve de tudo num confronto como já não se fazem (Esta é a nona história na nossa série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)

Tiago Oliveira

Jornalista

No Estádio Azteca no México, palco repleto de feitos, existem duas placas que se destacam. Uma a comemorar o jogo em que Maradona marcou dois dos golos mais famosos de sempre (o do século e da Mão de Deus) contra a Inglaterra. A outra, já mais esquecida pela atualidade, olha para um dos grandes confrontos coletivos da história do jogo. Mentira, talvez seja mesmo o melhor, a acreditar nessa inscrição: "o estádio Azteca rende homenagem às seleções de Itália e Alemanha, protagonistas no Mundial de 1970 do jogo do século."

O 4-3 que apurou a squadra azurra para a final à custa dos germânicos é um dos desafios mais épicos de sempre, o que não é dizer pouco, quando falamos de um Mundial que é considerado unanimemente como o melhor na história da competição e que tem o brilhantismo do Brasil de Pelé como a sua imagem mais duradoura. Mas num jogo em que cinco dos sete golos aconteceram no prolongamento, muito há a dizer.

Comecemos, pela Itália que, como é seu apanágio, começou a competição sem grande brilhantismo num estilo de jogo sobretudo assente numa linha defensiva formidável, liderada pelo capitão Giacinto Fachetti e à espera de um rasgo de génio de Riva e Rivera. Que encontraram o seu ritmo nos quartos-de-final quando, sem apelo nem agravo, despacharam os anfitriões México por 4-1.

Já a Alemanha, finalista vencida da anterior competição, tinha impressionado na fase de grupos com o bombardeiro Gerd Muller a somar sete golos e a classe de Beckenbauer a unirem-se para uma combinação de impôr respeito. Que o diga a Inglaterra que, numa reedição da final de há quatro anos antes, foi desta feita derrotada por 3-2, com ambos os suspeitos do costume a faturarem.

Numa prova onde, pela primeira vez, se mostraram cartões vermelhos e amarelos e foram permitidas substituições, o futebol foi marcadamente ofensivo, com uma média de golos de 2.97 por jogo que ainda não foi superada. O futebol total (que a Holanda haveria de introduzir na sua versão mais completa) começava a emergir e os cuidados táticos deram lugar a confrontos mais abertos. Ninguém esperaria tal de seleções como Itália e Alemanha, famosas pela sua consistência, só que, como também já sabemos, o futebol é fértil em surpresas.

E assim foi que, sem saberem que estavam prestes a marcar o seu lugar na história, no dia 17 de junho de 1970, as equipas subiram ao relvado do Estádio Azteca perante mais de 100 mil espectadores. A montanha-russa estava prestes a começar.

Foi só abrir o ketchup

O primeiro salto deu-se logo aos 8 minutos, quando Boninsegna rematou de longe para o primeiro golo da partida. Seguiu-se um confronto de parada e resposta, com lances de perigo junto das duas balizas e, ao contrário do que deve estar a pensar, sem que mais ninguém marcasse ao longo dos 82 minutos seguintes. Foi já com Beckenbauer lesionado - e a ter que continuar em campo com o braço pendurado - que a Alemanha chegou ao empate, com um veterano de quatro mundiais, Schnellinger, a marcar o seu único golo internacional . Ao melhor estilo de Cristiano Ronaldo, tinha-se aberto o ketchup.

O empate pareceu dar novo ânimo às hostes germânicas que, após o reatar do jogo, rapidamente chegaram à vantagem por intermédio do inevitável Muller. Não era agora que os habitualmente implacáveis alemães iam vacilar, certo? Errado. Volvidos quatro minutos, Burgnich voltou a empatar a contenda e, aos 104, Riva selou nova reviravolta no marcador. Feridos no orgulho, os alemães ainda voltariam a empatar por Muller aos 110 minutos. Só que não contavam que, na jogada seguinte, Rivera voltasse a desfeitear Sepp Maier. Se já perdeu a conta, nós ajudamos: 4-3.

Gianni Rivera festeja após marcar o golo da vitória naquele que ficou conhecido como o jogo do século
Getty Images

Os alemães ainda tiveram oportunidades para fazer o 4-4, mas o marcador de um jogo absolutamente louco não voltaria a conhecer alterações. Que, apesar da vitória épica, deixou os italianos completamente de rastos para a final e à mercê de um imperial Brasil, que não teve problemas em golear por 4-1.

Já a Alemanha garantiu o terceiro lugar e continuou a trabalhar na base que, quatro anos mais tarde, lhe daria o segundo titulo mundial. Sempre com o fantasma de uma rivalidade que viria a conhecer mais capítulos.

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