No sorteio do Mundial 2026, os noivos Trump e Infantino terão um novo encontro antes do casamento do próximo verão
Gianni Infantino num do vários encontros que tem tido o presidente dos Estados Unidos desde que Donald Trump voltou à presidência
Chip Somodevilla
O sorteio do Mundial 2026 realiza-se esta sexta-feira (17h). Portugal e as restantes seleções vão ficar a conhecer os adversários numa cerimónia em que o líder da FIFA e o presidente dos Estados Unidos se voltarão a encontrar. O evento decorre no Kennedy Center, controlado por Trump, e espera-se que o inquilino da Casa Branca possa receber o Prémio pela Paz, criado à medida das suas mãos. Já a FIFA fará o funeral à pureza ideológica
O compartimento principal do Kennedy Center vai ter os 2465 lugares cheios para o sorteio do Mundial 2026. Por estes dias, é uma raridade que um evento esgote esta sala. Há um mês, o “The Washington Post” retratava que o centro artístico localizado na capital dos Estados Unidos, albergue de espetáculos de música, ópera, dança e teatro, tinha deixado por vender 43% dos bilhetes para produções regulares entre 3 de setembro e 19 de outubro.
A reduzida comparência é reflexo do boicote do público à gestão politicamente influenciada da infraestrutura liderada por Ric Grenell, nomeado por Donald Trump. “Vamos assegurar-nos de que vai ser bom e não vai ser woke”, garantiu o presidente dos Estados Unidos acerca da programação do Kennedy Center (Washington, D.C.), na qual interveio por via de um aliado.
Aparentemente, o Kennedy Center tem-se demarcado de ser um veículo cultural. O cancelamento da programação é frequente, pois a gestão tem preferido responder a outros interesses. A FIFA está a receber “favoritismo” na exploração do espaço ou, pelo menos, assim denunciou o senador Sheldon Whitehouse. Os democratas tiveram acesso ao contrato onde o Kennedy Center concede ao organismo que tutela o futebol mundial a exploração exclusiva e gratuita do local entre 24 de novembro e 12 de dezembro.
Perante as evidências plasmadas no documento, o Kennedy Center esclareceu que a FIFA doará 2,4 milhões de dólares e fornecerá “oportunidades de patrocínio” na ordem dos $5 milhões. A imprensa americana questionou o método de pagamento e o motivo por não estar escrito no acordo, mas ficou sem esclarecimentos.
De qualquer das maneiras, quando Gianni Infantino for o alvo dos olhares do público atento, terá uma figura próxima no meio da multidão para a qual poderá olhar. Pode sempre precisar de conforto no meio do discurso. Assim, olhos nos olhos com Donald Trump, dirá que a FIFA é ideologicamente virgem. Na segunda alínea do Artigo 4º dos seus Estatutos, lê-se que a entidade “permanece neutra em matérias de política e religião”, sendo vaga na previsão de “exceções” em assuntos “afetados pelos objetivos estatutários da FIFA”.
O evento terá pouco de singelo. Algures no alinhamento, atuarão Andrea Bocelli, Robbie Williams e Nicole Scherzinger, momentos musicais protagonizados no mesmo local onde decorreu uma vigília em homenagem ao ativista conservador Charlie Kirk, um evento que procura dar “destaque aos casos mais graves de violência, repressão e discriminação contra cristãos em todo o mundo” chamado Christian Persecution Summit, ou até o fórum que juntou líderes americanos e representantes do fundo de investimento saudita.
O exterior do Kennedy Center durante a vigília Charlie Kirk
Al Drago
O engorduramento do evento prossegue com a atribuição do novíssimo Prémio FIFA pela Paz que pretende reconhecer indivíduos que “uniram pessoas pelo mundo” com ações “excecionais e extraordinárias”. Trump reclamou para si o Prémio Nobel da Paz, mas este acabou por ser entregue a María Corina Machado. O presidente da FIFA, que não goza da melhor reputação junto de organizações defensoras dos direitos humanos, fez campanha pelo amigo. “Definitivamente merece”, escreveu Infantino, acompanhante de Trump na cimeira de paz que reuniu líderes de cerca de 20 países e respetivas comitivas no Egito para reforçar o cessar-fogo entre Israel e Palestina.
Assim sendo, o Prémio FIFA pela Paz parece ter sido criado à medida de Trump. Quem sabe se, quando o receber, o chefe de Estado americano não vai fugir ao guião. Afinal, quem esperava que o presidente dos Estados Unidos se juntasse à fotografia dos festejos do Chelsea no Mundial de Clubes?
Se não se perder o foco do essencial, as bolas andarão à roda e 48 seleções vão saber de que grupo farão parte na competição que se realiza entre 11 de junho e 19 de julho de 2026. Portugal integra o pote 1 num sorteio que vai proteger os países com melhor ranking (Espanha e Argentina) de se encontrarem antes da final.
Um bromance antigo
A confirmada presença de Trump no sorteio do Mundial 2026 marcará um novo encontro com o presidente da FIFA, algo vulgar por esta altura. Neste momento, parecem dois noivos à espera do casamento do próximo verão.
A organização do Mundial 2026 é um moroso processo no qual o inquilino da Casa Branca se empenhou enquanto líder da task force que está a preparar a competição. No entanto, demonstrou vontade de interferir em matérias sobre as quais não tem propriamente controlo direto.
Insatisfeito com os “líderes lunáticos de esquerda radical que não sabem o que estão a fazer”, Donald Trump ameaçou impedir que cidades lideradas por democratas, como São Francisco, Seattle, Boston ou Los Angeles, recebessem jogos caso se verificasse “qualquer sinal de problemas”. Ficou também um aviso para os mayors: “Vão ter que se comportar.”
Só um dia depois do sorteio serão revelados os jogos que cada estádio recebe. No que diz respeito aos Estados Unidos, as cidades anfitriãs são Atlanta, Boston, Dallas, Houston, Kansas, Los Angeles, Miami, Nova Iorque/Nova Jérsia, Filadélfia, Seattle e São Francisco. Hipotéticas alterações teriam que partir da FIFA. A influência de Trump sobre o cabecilha do futebol parece tornar tudo possível e o próprio admitiu, em caso de necessidade, pedir alterações a Infantino.
Infantino acompanhou Trump na cimeira de paz após o cessar-fogo entre Israel e Palestina
Pool
Infantino acompanhou Trump na cimeira de paz após o cessar-fogo entre Israel e Palestina
Pool
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O compadrio passou por várias fases de amadurecimento.A final do Mundial será realizada no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, não muito longe da Trump Tower. Em julho, a FIFA instalou um escritório nesse bastião de betão do presidente dos Estados Unidos sem especificar que funções ia desempenhar a nova delegação em Nova Iorque. O anúncio da ocupação que tornou física a proximidade foi feita na presença de Ronaldo (Nazário, o Fenómeno) e de Eric Trump, filho de Donald.
Os laços de Gianni Infantino estendem-se aos vários membros da família já que Ivanka Trump, também descendente do habitante mais famoso de Washington, D.C., foi nomeada conselheira de um fundo de $100 milhões destinado a projetos de educativos. O montante representa parte das receitas geradas através da venda de bilhetes no Mundial 2026.
O futebol une, os Estados Unidos desunem
Parecendo que não, o Canadá e o México também vão receber o Mundial. Trump pode ter uma boa relação com quem manda no futebol, mas a aliança com os co-organizadores é frágil.
A fronteira com o México é um dos pontos centrais da entrada de estrangeiros nos Estados Unidos. O controlo dessa linha de vizinhança tem-se intensificado desde que o presidente americano começou a aplicar drásticas medidas anti-imigração.
Nos comentários mais recentes que fez sobre o país, Donald Trump disse que “é ok” os Estados Unidos atacarem território mexicano de modo a diminuírem o tráfico de droga. “Sabemos a morada de cada barão da droga. Eles estão a matar o nosso povo. Isto é como uma guerra. Se o fizesse, ficaria orgulhoso”, afirmou.
O presidente dos Estados Unidos esteve presente nas comemorações do Chelsea após a conquista do Mundial de Clubes
Roger Wimmer/ISI Photos
Quanto ao Canadá, tem sido apontado como o “51º estado”. A sugestão de anexar o país vizinho foi um assunto que se tornou pessoal no hóquei no gelo. Em vésperas de um jogo entre os canadianos e os americanos da NHL, Trump trouxe o assunto à baila e, aos nove segundos, os jogadores já tinham lutado três vezes no ringue.
A política afeta até quem pretende ir ao Mundial enquanto adepto. Em junho, a Casa Branca “restringiu completamente” a entrada de pessoas oriundas de 12 países para “proteger os Estados Unidos de terroristas estrangeiros e outras ameaças à segura nacional e à segurança pública”. A lista inclui cidadãos do Haiti e do Irão, cujas seleções já garantiram o apuramento. A federação iraniana, inicialmente, confirmou que não iria marcar presença no sorteio, como forma de protesto, mas, na véspera do evento, reverteu o boicote e anunciou que o selecionador, Amir Ghalenoei, irá comparecer.
“O futebol une o mundo”, proclama a FIFA em loop. Mas há partes que ainda não estão coladas.