Mundial 2026

Velhos fantasmas ou Ronaldo de coração dividido: o que pode calhar a Portugal no sorteio do Mundial 2026

O sorteio do Mundial será em Washington, capital federal dos EUA, apesar de a cidade não acolher qualquer jogo do torneio
O sorteio do Mundial será em Washington, capital federal dos EUA, apesar de a cidade não acolher qualquer jogo do torneio
Michael Regan - FIFA

A fase de grupos da competição pode dar à seleção adversários de dificuldade muito díspar. Ao estar no pote 1 do sorteio, estes são os confrontos a evitar, as curiosidades e as ligações familiares para Portugal no lançamento do primeiro Mundial a 48 equipas

Velhos fantasmas ou Ronaldo de coração dividido: o que pode calhar a Portugal no sorteio do Mundial 2026

Pedro Barata

Jornalista

Portugal, Equador, Noruega e Gana seria um grupo altamente exigente. Portugal, Irão, África do Sul e Haiti seria um alinhamento muito simpático para a equipa de Roberto Martínez. Portugal, Japão, Costa do Marfim e Itália — se os transalpinos superarem o play-off — teria um aroma a grupo da morte. Portugal, Austrália, Panamá e Nova Zelândia colocaria toda a gente a pensar por quantos é que a seleção venceria os seus encontros.

Os quatro cenários acima descritos são todos possíveis no sorteio que arrancará às 17h desta sexta-feira. Se é certo que, como costume, os grandes favoritos ao Mundial se encontram no pote 1, onde está Portugal, não é menos verdade que as diferenças de qualidade entre os participantes dos restantes potes levam a que, para principiar o caminho do lado de lá do Atlântico, existam patamares de exigência muito diversos entre si.

Os meses prévios a um Campeonato do Mundo são um momento em que a avaliação de cada equipa é feita num patamar ideal e idealizado. Não sabemos que lesões, quebras de forma, diferendos internos, discussões devido a prémios de jogo ou dificuldades táticas terá cada formação, pelo que podemos imaginar versões perto da máxima força de cada uma.

Os potes para o sorteio do Mundial 2026

Pote 1: Canadá, México, EUA, Espanha, Argentina, França, Inglaterra, Brasil, Portugal, Países Baixos, Bélgica, Alemanha

Pote 2: Croácia, Marrocos, Colômbia, Uruguai, Suíça, Japão, Senegal, Irão, Coreia do Sul, Equador, Áustria, Austrália

Pote 3: Noruega, Panamá, Egito, Argélia, Escócia, Paraguai, Tunísia, Costa do Marfim, Usbequistão, Catar, Arábia Saudita, África do Sul

Pote 4: Jordânia, Cabo Verde, Gana, Curaçao, Haiti, Nova Zelânia, Itália/Irlanda do Norte/Gales/Bósnia, Ucrânia/Suécia/Polónia/Albânia, Turquia/Roménia/Eslováquia/Kosovo, Chéquia/Irlanda/Dinamarca/Macedónia do Norte, Nova Caledónia/Jamaica/RD Congo, Bolívia/Suriname/Iraque

Ao estar no pote 1, Portugal sabe que evitará os maiores colossos. Há a garantia de não calhar, na fase de grupos, contra um dos quatro últimos campeões do mundo (Argentina, França, Alemanha e Espanha), bem como seleções do nível de Inglaterra, Brasil, Países Baixos e Bélgica. A juntar a este lote, que foi definido pelo ranking FIFA, há que adicionar, no pote 1, os anfitriões Canadá, México e Estados Unidos da América.

O sorteio começará, justamente, por colocar cada seleção do pote 1 num dos grupos, os quais serão nomeados de A a L. Ficou previamente estipulado que o México iria para o A, realizando o encontro de abertura no Estádio Azteca contra um adversário do pote 3. O Canadá vai para o B, os Estados Unidos para o D.

Marrocos, que eliminou Portugal no passado Mundial, pode defrontar a seleção nacional na fase de grupos
Soccrates Images

Uma nova condicionante é a separação, ao estilo do ténis, das equipas mais cotadas. Assim, Espanha e Argentina irão para lados opostos do quadro, tal como França e Inglaterra. Significa isto que se as quatro primeiras do ranking FIFA vencerem os respetivos grupos, espanhóis e argentinos só poderão medir forças na final, enquanto franceses e ingleses apenas poderiam cruzar-se nas meias-finais.

Os potes 2, 3 e 4 são definidos com base nos pontos FIFA de cada seleção. Os seis participantes que ainda faltam apurar — quatro dos play-off UEFA, dois do intercontinental — irão para o último dos potes.

Os perigos que podem aparecer para Portugal

Olhemos, então, para os distintos cenários que se colocam aos vencedores da passada edição da Liga das Nações. Previamente à avaliação das dificuldades de cada possível adversário, importa sublinhar que, nesta série de Mundiais consecutivos que dura desde 2002, Portugal tem apresentado recorrentes dificuldades contra equipas de fora da Europa, mesmo quando não são adversários teoricamente mais fortes.

Assim, note-se que a seleção, nos Mundiais do século XXI, perdeu contra os Estados Unidos, a Coreia do Sul (duas vezes), o Uruguai ou Marrocos, somando ainda empates contra Costa do Marfim, Irão e novamente Estados Unidos. Com cada vez menos confrontos intercontinentais, devido à presença da Liga das Nações no período entre Europeu e Mundial, as singularidades dos choques contra oposição distantes não devem ser ignorados.

No pote 2, há quem apresente argumentos de peso. É o caso, desde logo, de Marrocos, carrasco de Portugal no Catar. Com uma equipa recheada de qualidade e bastante entrosada, a seleção do Norte de África ganhou 24 dos derradeiros 26 desafios que realizou e quer dar sequência às meias-finais alcançadas em 2022.

Além dos Leões do Atlas, outro nome poderoso no pote 2 é o Japão, que agrupa futebolistas cheios de técnica (Takumi Minamino, Takefusa Kubo, Daichi Kamada...), ainda que com algum histórico de ficar um pouco aquém das expetativas. Por falar em expetativas altas, o Equador, com um elenco jovem e que se está a destacar na Europa (Moisés Caicedo, Piero Hincapié, Willian Pacho...), é outro conjunto a ter em campo.

Austrália, Irão ou Coreia do Sul — apesar do péssimo histórico nacional contra os sul-coreanos, que têm o português João Aroso como treinador-adjunto — são os nomes mais simpáticos do segundo lote de equipas. É ainda importante destacar a competitividade de Croácia, segunda e terceira classificada nos últimos dois Mundiais, mas a parecer distante dos melhores tempos da geração de Modric, e também da Colômbia e do Senegal.

Cabo Verde é uma das seleções estreantes já confirmadas
Sportsfile

No pote 3 salienta-se a Noruega de Erling Braut Haaland, o homem dos 354 golos em 413 encontros como profissional, 55 deles em 48 internacionalizações. Os nórdicos estão, 28 anos depois, de volta ao maior dos palcos e, com o poderio ofensivo do atacante do Manchester City, a qualidade de Martin Ødegaard e a confiança vinda de uma fase de qualificação que terminou a golear a Itália em Milão, são a grande equipa a evitar no pote 3.

No terceiro degrau de seleções, a Costa do Marfim, campeã africana em título, seria outro duro teste. Em sentido inverso, Panamá, Catar ou Uzbequistão empurrariam a dificuldade do grupo de Portugal para baixo.

Se no pote 3 há discrepâncias, no seguinte elas são ainda mais acentuadas. Três das equipas do pote 4 são estreantes (Cabo Verde, Jordânia e Curaçao) e contra este trio, a Nova Zelândia ou o Haiti, Portugal seria tremendamente favorito. No plano teórico, o Gana tem mais qualidade. Depois, sobra a incógnita no caso de calhar aos portugueses um sorteio incompleto.

Faltando decidir, nos play-offs de março, as quatro vagas que restam da Europa e as duas do resto do mundo, se essas bolas caírem no grupo de Portugal, então ficará mais difícil avaliar o que o destino trouxe para a seleção nacional. A hipótese de Itália, tetracampeão do mundo mas ausente das duas últimas edições, calhar em sorte será sempre uma curiosidade, mas não faltam perigos na Dinamarca, Suécia ou até na República Democrática do Congo.

Os amigos do capitão e as primeiras vezes

Cada grupo do Mundial terá, pelo menos, uma equipa europeia, mas não poderá ter mais de duas. Quanto às outras confederações, não pode haver mais do que um representante de cada por grupo, o que significa que ter Marrocos no pote 2 levará a evitar as seleções africanas vindas dos restantes potes.

Dois adversários que seriam particularmente curiosos para Portugal, e mais concretamente para o seu capitão, seriam Cabo Verde e a Arábia Saudita. Começando pelo arquipélago do Atlântico, trata-se da terra da bisavó de Cristiano Ronaldo. Além desta ligação do avançado ao país africano, a proximidade entre os países levaria a um jogo com semelhanças ao Portugal-Angola de 2006, que também marcou a estreia dos angolanos em Mundiais.

Por outro lado, ter como adversária a Arábia Saudita levaria Ronaldo a defrontar o país onde joga e pelo qual manifesta afinidade crescente. Tendo estado presente na Casa Branca no mesmo dia que a delegação saudita, Cristiano abordou o seu sentimento pelo reino do Médio Oriente quando participou, por videochamada, numa conferência sobre turismo que decorreu em Riade enquanto a seleção nacional se encontrava em estágio: “O turismo, que para mim é muito importante, tem crescido muito. Por isso, estou feliz, faço parte disto. Como digo aos sauditas, eu sou um deles, também sou saudita.”

Cristiano Ronaldo a participar no dia nacional da Arábia Saudita
Anadolu

No entanto, a Arábia Saudita e Cabo Verde não fazem parte do grupo de seleções que nunca se cruzaram no caminho de Portugal. Entre os participantes já confirmados no Mundial, há a hipótese de um primeiro confronto contra o Haiti, Curaçau, Jordânia, Uzbequistão, Austrália, Senegal, Japão e Colômbia.

A questão do clima

Uma das grandes questões em torno do torneio são as condições em que será disputado. No passado Mundial de Clubes, as altas temperaturas massacraram os jogadores e uma série de fenómenos atmosféricos obrigaram diversas partidas a serem vítimas de paragens.

Roberto Martínez esteve nos EUA durante o verão passado, a trabalhar para a FIFA e justamente para recolher informações sobre as condições em que se disputará o Mundial. Também aqui o sorteio terá um papel a desempenhar.

Caso Portugal vá parar ao grupo C, poderá ter de jogar em Nova Jérsia, onde o Palmeiras-Al Ahly do Mundial de Clubes foi interrompido pelo calor extremo, ou em Miami, onde se disputou o Benfica-Boca Juniors que levou Trubin a dizer que nunca sentira tanto calor na vida. Se atuar no grupo F poderá ir a Houston, viver o calor do Texas, ou a Guadalupe, no México.

Mais amenas seriam, em teoria, viagens ao Canadá, com Toronto (grupo E, I ou L) ou Vancouver (grupo G) a apresentarem verões suaves. A sorte ou azar também passa por onde e quando se joga, particularmente num Mundial de viagens longas e climas tão distintos.

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