A FIFA tem mais um problema: Egito e Irão não gostaram de calhar no jogo e na cidade onde se vão defender os direitos LGBTQ+
Gianni Infantino, presidente da FIFA, com o troféu do Mundial
Tasos Katopodis - FIFA
Antes de serem conhecidas que seleções iam jogar em que estádios do Mundial 2026, a comissão de organização de Seattle, uma das 16 cidades-sede, já tinha definido a partida de 26 de junho como o Pride Match, com uma série de ações de celebração da comunidade LGBTQ+. Ditou o sorteio que lá se vão defrontar o Egito e o Irão, países onde vigoram leis que criminalizam a homossexualidade. As federações queixaram-se, uma delas pedindo à FIFA que cumpra uma regra sua que é acusada de violar: o dever da neutralidade
Um dos apelos escritos pela Associação de Futebol do Egito (AFE) na carta enviada à FIFA tem o seu quê de curioso por sabermos como o destinatário, cof, cof, cof, tem o costume de prezar a separação de poderes. “Pedimos que garanta que o jogo tenha lugar numa atmosfera focada apenas no desporto”, urgiu a entidade, acrescentando uma pitada de irrisório à correspondência ao citar os Estatutos da organização responsável pelo Mundial, em particular o Artigo 4º, que “enfatiza a neutralidade em assuntos políticos e sociais durante as competições”.
A FIFA talvez não esteja muito importada com regulamentos por estes dias, como demonstrou o sorteio da fase de grupos do Mundial de última sexta-feira, em Washington, onde a vénia institucional e pessoal de Gianni Infantino a Donald Trump decorou a cerimónia, enchendo o anfiteatro com elogios ao presidente dos EUA, a quem foi entregue um Prémio da Paz inventado de fresco. Nem a AFE é a única entidade a querer lembrar quem gere o futebol internacional do que consta nas regras que a guiam, ou deviam guiar.
Já na terça-feira, a Fair Square, uma organização de defesa dos direitos humanos, submeteu uma queixa ao Comité de Ética da FIFA contra Infantino, acusando-o de “violar repetidamente” o tal dever de neutralidade que consta nos Estatutos. A ONG critica o que apelida de lobbying feito pelo líder da FIFA a favor do homem com quem, no último ano, muito tem privado na Casa Branca, ao citar uma publicação no Instagram feita pelo líder da FIFA, em outubro: “O Presidente Donald J. Trump merece definitivamente o Prémio Nobel da Paz pela sua ação decisiva.” Mas isto já é um desvio do que motivou a carta da Associação de Futebol do Egito e também da Federação de Futebol do Irão (FFI).
Quando o sorteio ditou um duelo entre essas seleções a 26 de junho, em Seattle, calhou ser no Pride Match, assim definido há meses pela comissão de organização do Mundial da cidade do estado de Washington, como se lê no seu site oficial: “Com centenas de milhares de visitantes e milhares de milhões de telespectadores, esta é uma oportunidade única para mostrar e celebrar as comunidades LGBTQIA+.”
O problema causado pelo sortilégio do agrupamento dos grupos do Mundial foi serem o Irão e o Egito a calharem nessa partida, ambos países onde o Islão é a religião primordial e que criminalizam a homossexualidade. O jogo coincide com o fim de semana do Seattle Pride, na principal cidade do estado de Washington onde, em 1969, aconteceram os Stonewall Riots, quando uma repressão da polícia num bar local contra pessoas homossexuais, que resistiram à ação policial, fez eclodir o movimento pró-direitos gay nos EUA.
O estádio de Lumen Field, em Seattle, que vai acolher o jogo entre Irão e Egito no Mundial 2026
Steph Chambers
Cidade vai manter ações pró-LGBTQ+
Os responsáveis pelo futebol egípcio, na carta enviada à FIFA, “rejeitam categoricamente quaisquer atividades que promovam LGBTQ durante o jogo”, argumentando que entram “diretamente em conflito” com “valores culturais, religiosos e sociais” de nações árabes e islâmicas, o que “provocará sensibilidades entre os adeptos”. Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol, foi ao canal de televisão estatal do país catalogar de “anormal e irracional” o “apoio a um grupo específico”. A BBC noticia que apenas a AFE apresentou uma queixa formal, sem que os dirigentes iranianos tenham seguido o exemplo.
A justificação pode estar na decisão do governo de Donald Trump em manter as restrições na concessão de vistos para 19 países, entre eles o Irão e o Egito, que vão proibir, até ver, os adeptos dessas seleções de entrarem nos EUA aquando do Campeonato do Mundo. Serão atribuídas exceções aos jogadores, equipa técnica e dirigentes das equipas - a federação iraniana, aliás, chegou a anunciar um boicote ao sorteio da fase de grupos, até revelar, na véspera, que o selecionador, Amir Ghalenoei, iria afinal estar presente. O Irão é regido pela lei Sharia, sob a qual as relações homossexuais são consideradas um crime e podem ser punidas com a pena de morte.
Sem uma bola de cristal para adivinhar que seleções iriam aterrar no Pride Match, a comissão de organização do Mundial de Seattle, uma das 16 sedes do torneio espalhadas por EUA, Canadá e México, assegurou que os planos são para manter. “O nosso papel é preparar a cidade para receber jogos e gerir a experiência fora do estádio”, explicou, à BBC, a sua vice-presidente para a comunicação, Hana Tedesse, ao salientar que as ações vão decorrer fora do recinto do Lumen Field. “O futebol tem um poder único de unir pessoas de várias fronteiras, culturas e crenças.”
O Irão vai participar no sexto Mundial de futebol da sua história
Scott Taetsch - FIFA
Na sua crítica, por escrito, remetida para Mattias Grafstrom, o secretário-geral da FIFA, a federação egípcia carregou contra “as atividades que são cultural e religiosamente incompatíveis” com os dois países em questão, no fundo pedindo que dentro dos EUA, uma nação que não pune, nem legisla, contra relações entre pessoas do mesmo sexo, seja aplicada intransigência - uma descrição eufemística - pela comunidade LGBTQ+ que vigora no Irão e Egipto.
A entidade lembrar-se-á do que aconteceu no Mundial de 2022, no Catar, onde a FIFA avisou que os árbitros iriam atribuir de cartões amarelos os jogadores que usassem braçadeiras com as cores do arco-íris, após várias seleções anunciarem o gesto de apoio para o torneio que teve como anfitrião outro país que criminaliza a homossexualidade. Por curiosidade, também a seleção catari vai jogar em Seattle no próximo Campeonato do Mundo.
E a cidade, ainda esta semana, recebeu a atenção de Donald Trump, não relacionada com este assunto, quando o presidente dos EUA, ao classificar a nova mayor, Katie Wilson, de “muito, muito liberal/comunista”, ameaçou “pedir ao Gianni”, usando só o primeiro nome, que retirasse a cidade da lista das que vão acolher partidas do torneio. Foi mais um exemplo público da estreita relação que o presidente dos EUA mantém com o líder da FIFA, a entidade, em teoria, regida pelo dever de ser apolítica e neutral. Um esteio que a federação do Egito lhe pede agora para cumprir.