Mundial 2026

Quer ir ao Mundial ver os jogos de Portugal? Vai emagrecer a carteira: são os bilhetes mais caros da fase de grupos

Gonçalo Ramos festeja o golo que marcou contra a Arménia durante o jogo em que Portugal garantiu a qualificação para o Mundial 2026
Gonçalo Ramos festeja o golo que marcou contra a Arménia durante o jogo em que Portugal garantiu a qualificação para o Mundial 2026
MANUEL FERNANDO ARAUJO

As partidas da seleção nacional na fase de grupos do Mundial 2026 têm uma semelhança com as do Brasil e da Argentina: fora os jogos inaugurais das equipas das anfitriãs do torneio, são as que têm os preços mais caros. Começam nos 225€ para os lugares do estádio, em teoria, piores, e acabam quase nos 600€. Se Portugal chegar à final e alguém quiser assistir a todos os encontros terá de pagar, pelo menos, quase 5800€

Não na sua génese, ocorrida em faculdades inglesas e entre alunos, mas na forma como se enraizou na sociedade, o futebol é o jogo do povo, das massas, uma cola que faz comungar as pessoas, daí o quão alastrado está pelos corações de tantos, não importa o estrato social. Daí Gianni Infantino ter achado por bem proferir, durante o sorteio da fase de grupos do próximo Mundial, a frase: “A FIFA é o providenciador de felicidade para a humanidade número 1 há mais de 100 anos.” Na quinta-feira, já conhecidos onde e quando as seleções se vão defrontar, ao inaugurar a fase da venda de bilhetes para o torneio, a entidade mostrou o contrário.

Os preços estão longe de serem simpáticos, ou sequer acessíveis, a qualquer bolso, com desprimor para os portugueses. Caso a seleção nacional chegue à final e um adepto queira assistir, no estádio, a todos os jogos, terá de gastar quase 5800€ só em bilhetes. Para os encontros da fase de grupos, onde Portugal jogará duas vezes em Houston, no estado do Texas, antes de ir a Miami, na Flórida, o acesso mais barato começa nos 225€ para lugares na Categoria 3, correspondentes às bancadas superiores dos topos do recinto. 

Se quiser estar nas centrais, mas ainda no segundo ou terceiro anéis (Categoria 2), cada ingresso está à venda por 425€ ao câmbio atual. Caso pretenda ficar perto da ação lá mais para baixo, na bancada mais próxima (Categoria 1), seja atrás das balizas ou nas centrais, para encher as narinas com a fragrância da relva, os bilhetes começam nos 596€. É o que dá, pelos vistos, querer apoiar a seleção portuguesa, pois nenhuma tem preços de bilhetes mais caros para todos os seus jogos na fase de grupos do Mundial.

À exceção dos EUA, do Canadá e do México, as nações anfitriãs do torneio que receberam honras especiais de encarecimento dos bilhetes para os seus jogos inaugurais - vão dos 870€ aos 2330€ -, Portugal partilha com a Argentina e o Brasil a distinção de ter os ingressos mais chorudos na primeira fase da prova. Os motivos não serão de compreensão desafiante: o capitão da seleção nacional é Cristiano Ronaldo, o futebolista com mais tração nas redes sociais, a quem a FIFA perdoou dois jogos de suspensão para o ter no torneio; os argentinos são os campeões mundiais e terão, se tudo correr nos conformes, Lionel Messi; e o brasileiros, com maior ou menor pujança, vêm do país do ‘penta’ e arrastam uma reputação intocável.

Na fase de grupos do Mundial, a seleção nacional começa por defrontar, a 17 de junho e em Houston, o vencedor do play-off ainda por disputar (Nova Caledónia, República Democrática do Congo ou Jamaica. O adversário seguinte é o Usbequistão, na mesma cidade, a 23 de junho, antes de ir a Miami, a 27 de junho, fechar a fase de grupos contra a Colômbia.

Uma “traição monumental” aos adeptos

Esta é a terceira fase da venda de bilhetes para o Campeonato do Mundo, embora seja a primeira na qual os adeptos sabem, ao certo, que seleções se vão defrontar, quando e onde. A FIFA já vendera cerca de dois milhões de ingressos a quem se inscreveu na sua plataforma de venda, onde a hipótese de compra era depois sorteada. Em setembro, a entidade anunciara que os preços começariam em torno dos 50€, antes do que apelidaram de “preço variável” entrar ao barulho, à semelhança do que sucedeu no Mundial de Clubes.

É a primeira vez que a FIFA aplica no maior torneio de futebol o sistema também conhecido por “preço dinâmico”, comum nas plataformas norte-americanas de venda de bilhetes para espetáculos desportivos e culturais, que ajusta os preços conforme a procura que o evento mereça: um que tenha mais gente em fila para comprar um ingresso encarece os acessos, outro ao qual, perto da data, ainda sobrem bastantes bilhetes disponíveis, tenderá a baixar os valores. Em outubro, o site “The Athletic” já citava relatos de vários adeptos queixosos por quase não descortinarem bilhetes à venda pelo anunciado valor mínimo. Inicialmente, haveria bilhetes de Categoria 4, os mais baratos, para os setores menos vantajosos dos recintos, mas é raro constarem nos sites de venda e revenda.

Um ligeiro suspiro de alívio pode ser solto pelos adeptos até 13 de janeiro, dia em que encerra esta fase de venda. A FIFA garante que os preços não aumentarão neste período, sejam os bilhetes comprados através da entidade ou via a Federação Portuguesa de Futebol, que dispõe de uma plataforma própria. Vendidos aos mesmos preços, cada associação nacional recebeu cerca de 8% dos bilhetes disponíveis para cada jogo. No caso do NGR Stadium, em Houston, com vagar para acolher cerca de 72 mil espetadores e onde Portugal terá os dois primeiros jogos do Mundial, a percentagem equivale a cerca de 5700 lugares.

O NGR Stadium, em Houston, onde Portugal fará dois dos três jogos da fase de grupos do Mundial 2026, tem capacidade para acolher cerca de 72 mil pessoas
Aaron M. Sprecher

Os “níveis astronómicos” dos preços estipulados pela FIFA para a sua venda suscitaram uma reação “perplexa” na Football Supporters Europe (FSE). A maior associação europeia para a defesa dos interesses dos adeptos classificou como “extorsionistas” os valores praticados pela entidade junto dos “fãs mais leais” de cada seleção. A entidade pede à organização liderada por Gianni Infantino que “pare imediatamente” a venda de ingressos com estes valores, “consulte as partes envolvidas” e “reveja os preços” para “respeitar o significado cultural”, do Campeonato do Mundo. 

A FSE critica que “reservar os escassos bilhetes de Categoria 4 para o preço dinâmico” nesta terceira fase de venda é “uma traição monumental à tradição” da prova, por “ignorar a contribuição dos adeptos para o espetáculo”. Se o costume tiver o seu espetro de comparação nos dois Mundiais anteriores, a crítica encontra o seu sustento. Já esta sexta-feira, a Football Supporters Europe voltou a pronunciar-se sobre as agruras financeiras a que os adeptos estão condenados: Os preços são escandalosos (...). Tudo o que temíamos quanto à direção em que a FIFA quer levar o jogo foi confirmada: Gianni Infantino só vê a lealdade dos adeptos como algo a ser explorado para gerar lucro.

Tendo em conta os preços atuais (com a política do “preço dinâmico”, poderão sempre aumentar), os bilhetes mais baratos para a final do Mundial 2026 custam 3568€, mas, para a edição de 2018, na Rússia, o valor partia dos 391€ e, no torneio de 2022, no Catar, começava nos 490€. É a evolução do custo cobrado pela FIFA para providenciar felicidade.

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