Mundial 2026

A Nova Caledónia está a dois jogos do Mundial 2026: boa parte dos futebolistas joga na 5ª divisão francesa

A Nova Caledónia é a 150ª seleção do ranking da FIFA. Mas ainda está na corrida para o Mundial 2026
A Nova Caledónia é a 150ª seleção do ranking da FIFA. Mas ainda está na corrida para o Mundial 2026

É apenas a 150ª seleção do ranking da FIFA, mas tem ainda uma última hipótese de estar presente no Mundial. A Nova Caledónia, representante da Oceânia no playoff intercontinental, que se começa a jogar esta quinta-feira, é uma equipa constituída principalmente por jogadores da liga local, não profissional, e vindos das divisões secundárias de França. O primeiro adversário é a Jamaica

O caminho para o Mundial de futebol também passa pelos confins do ranking da FIFA e por latitudes estranhas até para o mais democrático dos desportos. O alargamento para 48 equipas, com todas as questões de logística, carga competitiva e até de espírito do jogo adjacentes, assim o permitiu.

Nas contas do somar de seleções que serão feitas a partir da competição que se vai realizar este verão nos Estados Unidos, México e Canadá, a confederação da Oceânia terá sido uma das mais beneficiadas: depois de décadas a ter de passar por playoffs atrás de playoffs para chegar ao mais cintilante dos palcos do futebol, haverá um membro fixo da OFC em cada Mundial. A Austrália não entra nestas contas, já que compete, desde 2006, na confederação asiática - partiu em busca de uma competitividade que não encontra entre os seus vizinhos, muitos deles pequenas ilhas em que o futebol está longe de ser o desporto mais relevante.

A Nova Zelândia, sem surpresa, conquistou a vaga direta da Oceânia para 2026, empilhando cabazes de golos para lá chegar: no grupo de qualificação, bateu o Taiti por 3-0, Vanuatu por 8-1 e Samoa por 8-0. No playoff continental, arrasou as Fiji por 7-0 nas meias-finais. Na final, chegou o duelo mais complexo, digamos: o adversário foi a Nova Caledónia e a vitória por 3-0 só se construiu na 2ª parte.

Com tudo isto, a Nova Caledónia ganhou o direito de disputar o derradeiro playoff intercontinental de apuramento para o Mundial 2026. Território francês do Pacífico Sul com pouco mais de 260 mil habitantes (e a mais de 16 mil quilómetros do país que o rege), para os amantes do futebol a Nova Caledónia era, até aqui, mais ou menos sinónimo de Christian Karembeu, médio ali nascido mas campeão mundial por França em 1998 e duas vezes vencedor da Champions no Real Madrid. Dificilmente a carreira internacional de Karembeu poderia ter sido feita noutros moldes: o grupo de ilhas onde nasceu só é membro da FIFA desde 2004, altura em que a vida desportiva do centro-campista já vivia o seu nadir.

Seleção do Pacífico Sul vai jogar com a Jamaica no primeiro jogo do playoff. Se vencer segue-se a RD Congo
Shane Wenzlick / www.photosport.nz

Estamos portanto perante uma situação em que a Nova Caledónia, que respira num mui modesto 150º lugar do ranking da FIFA, está a apenas dois jogos de chegar ao Mundial. E mesmo que a seleção sub-17 do território até tenha estado nos dois últimos Mundiais (em 2025 até se encontrou com Portugal) e a de sub-20 no Campeonato do Mundo de 2025, consegui-lo seria um dos maiores e mais bonitos escândalos da história da modalidade, já que terá de ultrapassar primeiro a Jamaica (70º do ranking) e depois a República Democrática do Congo, 48º seleção da FIFA e uma das equipas mais interessantes do continente africano - o vencedor desta poule, recordemos, irá para o grupo de Portugal no Mundial. A tarefa é hercúlea, mas a verdadeira magia do futebol, aquilo que suscita paixões e arrasta multidões, também é o sonho das possibilidades. E no futebol há sempre uma, nem que seja ínfima.

Uma lista de ilustres desconhecidos

Olhar para a lista de convocados para o playoff intercontinental rabiscada por Johann Sidaner, francês que passou boa parte da carreira a treinar os escalões jovens do Nantes, é ler uma sucessão de nomes de ilustres desconhecidos. A exceção será Angelo Fulgini, médio do Lens a jogar por empréstimo no Al-Taawoun da Arábia Saudita e que conta com passagens na Bundesliga, no Mainz. Nascido na Costa do Marfim há 29 anos, foi internacional jovem por França e em dezembro viu a FIFA aprovar o seu pedido de mudança para a seleção do território do Pacífico Sul, onde nasceu a sua mãe.

Jekob Jeno é outro dos poucos profissionais da equipa. Jogou na Ligue 2 pelo Grenoble e nas últimas temporadas andou pelas primeiras divisões de Israel e Roménia. No mercado de inverno deixou o Unirea Slobozia, da principal divisão romena, para assinar com o Hapoel Rishon LeZion, do segundo escalão israelita. O veterano Georges Gope-Fenepej, agora com 37 anos, fez um par de jogos na Ligue 1 francesa, pelo Troyes e pelo Amiens. Agora joga pelo SC Locminé, do National 2, o quarto escalão do futebol francês.

Ainda assim, acima de boa parte dos seus colegas de convocatória. Dos 26 chamados, 11 jogam em França, quase todos no National 3, a quinta divisão gaulesa. O Vertou, clube da Bretanha, é o mais representado, emprestando quatro jogadores à seleção. Titouan Richard joga no Olympique Salaise Rhodia, do Regional 2, a sétima divisão do país. Ao “Guardian” revelou estar agora desempregado, depois de um período em que fez malabarismos entre um emprego num grande supermercado, os estudos em comunicação e os jogos aos domingos nos campos pouco glamourosos das distritais francesas.

Há mais uma dezena de jogadores que atuam no campeonato local da Nova Caledónia, não profissional, e dois que se transferiram recentemente para o Tahiti United, clube profissional que disputa a Liga da Oceânia, que junta emblemas de vários países da região - o que não deve ter caído nada bem na Nova Caledónia, que olha para a seleção do Taiti como a sua grande rival. Um deles, Germain Haewegene, trabalhou como treinador de atletas paralímpicos e esteve mesmo nos últimos Jogos Paralímpicos, em Paris, como guia de sprinters com problemas de visão. Com quase 30 anos, conseguiu o seu primeiro contrato profissional como futebolista esta temporada.

Christian Karembeu, o mais famoso dos futebolistas nascidos na Nova Caledónia (mas internacional por França) durante o sorteio do playoff intercontinental, em novembro
Marcio Machado - FIFA

Descobrir talentos vindos da Nova Caledónia não é fácil. Segui-los é o desafio que se segue num território onde a liga de futebol esteve parada de maio de 2024 até este ano, na sequência dos protestos violentos que se seguiram após a tentativa de França de implementar uma reforma eleitoral que, de acordo com os nativos, colocaria barreiras à luta pela independência. Catorze pessoas morreram nos tumultos.

Johann Sidaner, selecionador desde agosto de 2022, tem procurado incentivar jogadores a mudarem-se para a metrópole, onde têm acesso a um futebol mais competitivo. Ao “Guardian” revelou que, face às dificuldades em acompanhar o futebol amador, foi necessário investir numa aplicação em que os jogadores que estão longe podem colocar os seus dados de atividade desportiva e de saúde. “Seguimos diariamente 45 jogadores e eles precisam de estar no verde para poderem ser escolhidos”, explicou o treinador de uma equipa em busca de algo único e que em outubro bateu Gibraltar por 2-0 num jogo de preparação disputado na Europa.

Conseguir transformar isso em mais duas vitórias será um feito aparentemente impossível. Mas como se existissem impossíveis no futebol.

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