O drama de Itália rumo ao Mundial tem de superar um último obstáculo: Edin Džeko e o elixir da eterna juventude
Edin Džeko, 40 anos, continua um especialista a marcar golos
Visionhaus
Ausente das duas últimas edições do torneio que venceu quatro vezes, a squadra azzurra vai disputar a final do play-off no pequeno estádio de Zenica, onde a Bósnia espera conseguir intimidar um adversário teoricamente mais forte. Aos 40 anos, Džeko, um filho da guerra elevado a herói nacional, tem uma última oportunidade de cimentar ainda mais a sua lenda
Benito Mussolini rapidamente percebeu o poder do futebol. O ditador até preferia desportos motorizados, com o rugir da máquina cantando em uníssono com o futuro, ou modalidades individuais, particularmente o ciclismo e o lado épico do homem subindo montanhas em esforços heróicos, mas compreendeu qual seria o melhor palco para se projetar a si e ao regime.
Desta forma, o Mundial 1934, o segundo da história, tornou-se um clássico exemplo de sportswashing. Transmitido via rádio para diversos países, a competição teve o merchandising próprio, bilhetes impressos em papel de alta qualidade, um cartaz oficial desenhado pro Filippo Tommaso Marinetti, ideólogo do movimento futurista.
Ainda assim, nada conferiu um toque tão pessoal ao Mundial como a criação da Coppa del Duce, um troféu seis vezes mais alto que o Jules Rimet — a taça oficial da competição — entregue em simultâneo aos vencedores como uma oferenda com a chancela de Mussolini. Muitas décadas depois, o Catar fez parecido ao cobrir Messi com o bisht.
Entre queixas de vários adversários sobre decisões de arbitragem, a Coppa del Duce iria, mesmo, parar às mãos dos anfitriões italianos. Quatro anos depois, na antecâmara da Segunda Guerra Mundial, Itália voltaria a ser campeã, tal como em 1982 e 2006, com vice-títulos em 1970 e 1994.
Mas algo mudou nos últimos 20 anos. Desde os festejos de Berlim, a nazionale deixou o romance com o Mundial e nem Jules Rimet, nem troféu da FIFA, nem objetos fascistas.
Mundial 2010. Campeã em título. Grupo com Paraguai, Eslováquia, Nova Zelândia. Zero vitórias, saída de cena na primeira fase.
Mundial 2014. Vice-campeã europeia. Grupo com Inglaterra, Costa Rica, Uruguai. Derrotas com ambos os oponentes não europeus, saída de cena na primeira fase.
A desilusão de Itália perante a Macedónia do Norte, em 2022
MB Media
Não podia piorar. Não? Nos últimos dois Mundiais, nem o palco se pisou.
2018. Eliminada no play-off com a Suécia. 2022 — campeã europeia em título —, eliminada no play-off, em casa, perante a Macedónia do Norte.
Chegamos a 2026. A campanha de qualificação entrou, novamente, no drama, na incerteza, na hipótese de voltar a ver a competição no sofá, ampliando para, pelo menos, 16 anos sem Mundial e 24 sem superar a primeira fase.
Um resultado agregado de 1-7 perante a Noruega atirou a squadra azzurra novamente para a repescagem. Sob o comando de Gennaro Gattuso, era preciso superar duas barreiras para apanhar o avião e cruzar o Atlântico em junho. A primeira, a Irlanda do Norte, foi ultrapassada.
Falta a Bósnia e Herzegovina (19h45, Sport TV4)
Um goleador criado na guerra
Edin Džeko não esquece. Não esquece os sons do terror, as memórias de quem se perdeu, o sofrimento.
Quando tinha seis anos, começou o cerco de Sarajevo, que arrancaria em abril de 1992 e prolongar-se-ia até fevereiro de 1996. Vindo ao mundo ainda como cidadão da Jugoslávia, a infância de Edin foi um tempo de guerra.
“Chorava muitas vezes, chorava com medo. Ouvias, todos os dias, sons de disparos e bombas. Morreram pessoas da nossa família. São memórias que não te deixam. Tive uma infância triste e traumática. Quando a guerra acabou, sentia-me mentalmente forte. Nada podia intimidar-me ou assustar-me depois daqueles anos”, contaria muito depois, já adulto.
Um adulto transformado num dos grandes heróis do país. Figura de destaque na Alemanha, Inglaterra, Itália ou Turquia, Dzeko continua, aos 40 anos, a liderar a seleção da Bósnia, por quem é recordista de encontros (147) e golos (73). Entre os europeus, apenas Ronaldo (143 golos), Lukaku (89), Lewandowski (89), Puskás (84), Kane (78) e Kocsis (75) marcaram mais que ele pelas respetivas seleções.
O 461º festejo da carreira do eterno Dzeko, do avançado que parece beber do elixir da eterna juventude cantado por Sérgio Godinho, inscreveu-o ainda mais na devoção nacional. Foi aos 86', em Cardiff, para forçar o prolongamento contra o País de Gales. A Bósnia viria a ganhar nos penáltis para marcar embate contra Itália.
Gattuso, o homem que tenta reconduzir Itália a um Mundial
Claudio Villa - FIGC
Džeko não limita a arrastar a sua carreira. Apontou 46 golos nas duas últimas épocas na Turquia, ao serviço do Fenerbahçe. No passado verão, assinou pela Fiorentina, onde as coisas não correram bem, fazendo-o voltar à Alemanha. No país onde, em 2008/09, conduziu o Wolfsburg ao título, está a brilhar no histórico Schalke 04, com seis golos em oito jogos e um papel fundamental na luta dos mineiros para subirem à Bundesliga (lideram o segundo escalão).
O Bósnia-Itália será disputado em Zenica, numa jogada conhecida de Portugal. Tal como no play-off para o Mundial 2010, quando Raúl Meireles decidiu, os bósnios levaram o encontro para o pequeno e intimidante Bilino Polje. Com um nevão recente, há preocupação na imprensa italiana — que na véspera do jogo parece fugir do pessimismo falando das proezas de Jannik Sinner e Kimi Antonelli — pelo mau estado do relvado.
A Bósnia, a única seleção do mundo que já participou num Mundial (Brasil 2014), mas nunca no principal torneio do seu continente, acolhe alegremente o papel de outsider, sacudindo a pressão para os tetracampeões. Antes de uma competição em que, tal como em 1934, há líderes políticos desejosos de saltar para o palco e roubar protagonismo aos jogadores, Itália já não pensa em como será campeã. Voltar a participar já seria um bom começo de conversa.