Mundial 2026

Argélia: Rabah Madjer, o argelino que virou Viena do avesso com um calcanhar

Rabah Madjer fez 87 partidas pela Argélia e marcou 29 golo. Jogou nos Mundiais de 1982 e 1986
Rabah Madjer fez 87 partidas pela Argélia e marcou 29 golo. Jogou nos Mundiais de 1982 e 1986

Antes do seu nome ficar ligado a um dos gestos mais icónicos da história do futebol europeu, Rabah Madjer já tinha conquistado os holofotes do mundo com golos (quase) sempre decisivos, tanto no FC Porto como na seleção argelina. Rabah Madjer é o oitavo dos 48 Cromos do Mundial, série que destaca um futebolista excêntrico, ou quase, de cada país que jogará na edição de 2026

Há jogadores que entram num clube como promessas e saem como símbolos. Rabah Madjer foi um desses casos, no FC Porto: discreto na chegada, decisivo no relvado, foi autor de um gesto, um toque de calcanhar, que virou uma final europeia do avesso e o Bayern de Munique de pernas para o ar. Chegou a Portugal com 27 anos, já internacional consolidado, mas foi no FC Porto que atingiu o auge e reconhecimento mundial.

A “Raposa de Ouro” saiu das ruas poeirentas de Hussein Dey, nos arredores de Argel, onde aos 14 anos começou a jogar nas escolas do Onalait d’Hussein-Dey, antes de se estrear no NA Hussein Dey, dois anos depois. A Argélia vivia tempos turbulentos, mas o jovem avançado destacava-se pela técnica felina e pela calma de predador. Em 1978, levou o clube à final da Taça da Argélia e à qualificação para a Taça das Taças africana.

A história de Madjer com a seleção argelina começou a ganhar forma ainda antes do estrelato europeu. Foi ele quem marcou o 2-1 frente à Nigéria, no apuramento para o Mundial de 1982, garantindo a estreia absoluta da Argélia numa fase final. Em Espanha, ninguém acreditava que os magrebinos pudessem incomodar os gigantes, mas eis que, no jogo inaugural, a Argélia derrotou a RFA (Alemanha Ocidental) por 2-1, com Madjer a assinar o primeiro golo da seleção na história dos Mundiais, um momento que mudou também a forma como o futebol africano era visto.

Os seus golos quase sempre decisivos projetaram o seu nome para França, primeiro no Racing Club de Paris, onde chegou a ser um dos melhores marcadores da equipa e ganhou visibilidade no futebol europeu; depois, no Tours FC, onde não se adaptou tão bem. Mas o destino tinha reservado outro palco.

Em 1985, Madjer chegou ao FC Porto e estreou-se com uma vitória por 3-2 frente ao Belenenses, tendo participado nos três golos. Duas semanas depois, marcou os primeiros golos no Bessa frente ao Boavista. Sob o comando de Artur Jorge, integrou uma equipa que viria a dominar em Portugal e a surpreender a Europa. Mas o momento que o eternizou chegou em 1987, na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus.

Aquele calcanhar

O Bayern vencia por 1-0, o FC Porto parecia condenado, até que surgiu o improvável, ou melhor, aconteceu futebol: uma jogada pela direita, cruzamento atrasado, e Madjer, de costas para a baliza, inventou um calcanhar impossível - um gesto técnico que viria a ser conhecido mundialmente como o “calcanhar de Madjer” - que ainda hoje é revisto e venerado. Como se não bastasse, dois minutos depois, assistiu Juary para o 2-1. O FC Porto era campeão europeu pela primeira vez. Madjer tornava-se lenda e o segundo africano de sempre a marcar numa final da competição.

Menos falado, mas igualmente extraordinário, é o que aconteceu meses depois, na final da Taça Intercontinental, no Japão: num relvado coberto de neve, Madjer marcou o golo decisivo frente ao Peñarol, num chapéu perfeito. Foi eleito o melhor jogador da partida, reforçando o estatuto internacional, e recebeu um automóvel que, segundo relatos amplamente citados, vendeu para dividir o dinheiro com os colegas, um gesto que ajudou a cimentar a sua imagem de líder de balneário.

A carreira internacional foi igualmente marcante: 87 jogos e 29 golos pela seleção da Argélia, dois Mundiais (1982 e 1986) - incluindo a histórica vitória sobre a Alemanha Ocidental em 1982 - e uma Taça das Nações Africanas, em 1990, conquistada em casa. Foi eleito Bola de Ouro Africana em 1987 e é amplamente considerado um dos maiores jogadores africanos de sempre, sendo frequentemente apontado como o maior da história da Argélia.

Madjer mantém uma ligação emocional profunda com o FC Porto e com Portugal. Em 2024, ao regressar ao Estádio do Dragão para receber o Dragão de Ouro na categoria Vintage, afirmou com emoção: “Portugal é o meu segundo país. O FC Porto é a minha família e sempre será a minha família.” Recordou amizades, convívios e a cumplicidade com Paulo Futre, o jogador com quem melhor se entendeu, formando uma das duplas mais decisivas da história do clube.

Depois de pendurar as chuteiras, foi treinador, comentador e tornou-se embaixador da Confederação Africana de Futebol. Também teve várias passagens como selecionador interino da Argélia e envolveu-se em projetos de desenvolvimento do futebol africano. Mas, para muitos, continua a ser o homem que, com um simples toque de calcanhar, mudou a história de um clube, de uma cidade e de um continente.

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