Há jogadores que entram num clube como promessas e saem como símbolos. Rabah Madjer foi um desses casos, no FC Porto: discreto na chegada, decisivo no relvado, foi autor de um gesto, um toque de calcanhar, que virou uma final europeia do avesso e o Bayern de Munique de pernas para o ar. Chegou a Portugal com 27 anos, já internacional consolidado, mas foi no FC Porto que atingiu o auge e reconhecimento mundial.
A “Raposa de Ouro” saiu das ruas poeirentas de Hussein Dey, nos arredores de Argel, onde aos 14 anos começou a jogar nas escolas do Onalait d’Hussein-Dey, antes de se estrear no NA Hussein Dey, dois anos depois. A Argélia vivia tempos turbulentos, mas o jovem avançado destacava-se pela técnica felina e pela calma de predador. Em 1978, levou o clube à final da Taça da Argélia e à qualificação para a Taça das Taças africana.
A história de Madjer com a seleção argelina começou a ganhar forma ainda antes do estrelato europeu. Foi ele quem marcou o 2-1 frente à Nigéria, no apuramento para o Mundial de 1982, garantindo a estreia absoluta da Argélia numa fase final. Em Espanha, ninguém acreditava que os magrebinos pudessem incomodar os gigantes, mas eis que, no jogo inaugural, a Argélia derrotou a RFA (Alemanha Ocidental) por 2-1, com Madjer a assinar o primeiro golo da seleção na história dos Mundiais, um momento que mudou também a forma como o futebol africano era visto.
Os seus golos quase sempre decisivos projetaram o seu nome para França, primeiro no Racing Club de Paris, onde chegou a ser um dos melhores marcadores da equipa e ganhou visibilidade no futebol europeu; depois, no Tours FC, onde não se adaptou tão bem. Mas o destino tinha reservado outro palco.
Em 1985, Madjer chegou ao FC Porto e estreou-se com uma vitória por 3-2 frente ao Belenenses, tendo participado nos três golos. Duas semanas depois, marcou os primeiros golos no Bessa frente ao Boavista. Sob o comando de Artur Jorge, integrou uma equipa que viria a dominar em Portugal e a surpreender a Europa. Mas o momento que o eternizou chegou em 1987, na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Aquele calcanhar
O Bayern vencia por 1-0, o FC Porto parecia condenado, até que surgiu o improvável, ou melhor, aconteceu futebol: uma jogada pela direita, cruzamento atrasado, e Madjer, de costas para a baliza, inventou um calcanhar impossível - um gesto técnico que viria a ser conhecido mundialmente como o “calcanhar de Madjer” - que ainda hoje é revisto e venerado. Como se não bastasse, dois minutos depois, assistiu Juary para o 2-1. O FC Porto era campeão europeu pela primeira vez. Madjer tornava-se lenda e o segundo africano de sempre a marcar numa final da competição.
Menos falado, mas igualmente extraordinário, é o que aconteceu meses depois, na final da Taça Intercontinental, no Japão: num relvado coberto de neve, Madjer marcou o golo decisivo frente ao Peñarol, num chapéu perfeito. Foi eleito o melhor jogador da partida, reforçando o estatuto internacional, e recebeu um automóvel que, segundo relatos amplamente citados, vendeu para dividir o dinheiro com os colegas, um gesto que ajudou a cimentar a sua imagem de líder de balneário.
A carreira internacional foi igualmente marcante: 87 jogos e 29 golos pela seleção da Argélia, dois Mundiais (1982 e 1986) - incluindo a histórica vitória sobre a Alemanha Ocidental em 1982 - e uma Taça das Nações Africanas, em 1990, conquistada em casa. Foi eleito Bola de Ouro Africana em 1987 e é amplamente considerado um dos maiores jogadores africanos de sempre, sendo frequentemente apontado como o maior da história da Argélia.
Madjer mantém uma ligação emocional profunda com o FC Porto e com Portugal. Em 2024, ao regressar ao Estádio do Dragão para receber o Dragão de Ouro na categoria Vintage, afirmou com emoção: “Portugal é o meu segundo país. O FC Porto é a minha família e sempre será a minha família.” Recordou amizades, convívios e a cumplicidade com Paulo Futre, o jogador com quem melhor se entendeu, formando uma das duplas mais decisivas da história do clube.
Depois de pendurar as chuteiras, foi treinador, comentador e tornou-se embaixador da Confederação Africana de Futebol. Também teve várias passagens como selecionador interino da Argélia e envolveu-se em projetos de desenvolvimento do futebol africano. Mas, para muitos, continua a ser o homem que, com um simples toque de calcanhar, mudou a história de um clube, de uma cidade e de um continente.