“Não deixámos ninguém de fora“: aos velhos debates, Martínez juntou novas questões antes de um Mundial para “lutar contra a história”
O selecionador nacional, Roberto Martínez, após anunciar os convocados para o Mundial de 2026 na Cidade do Futebol
JOSE SENA GOULAO
Um guarda-redes para fazer número, o lateral extra devido à exigência física e o tão famoso terceiro avançado: todos eles tiveram lugar na lista de 27 convocados para o Mundial 2026. Roberto Martínez não deixou ninguém de fora, os outros é que simplesmente não conseguiram entrar. O treinador revelou que ligou a alguns dos jogadores que não foram incluídos e também que houve uma abordagem rejeitada para que Eli Junior Kroupi, do Bournemouth, representasse Portugal
Ao mesmo tempo que tentava explicar com a máxima clareza os motivos que o levaram a tomar certas decisões, Roberto Martínez travou uma luta. Não queria que se dissesse que deixou jogadores de fora dos convocados: “Não deixámos ninguém fora, entraram 27 jogadores na lista.” Demarcando-se da responsabilidade de cortar nomes, imputou aos escolhidos o mérito de terem sido chamados para o Mundial 2026.
Recorrendo ao seu processo “profissional”, “responsável” e “honesto”, o selecionador nacional construiu uma lista aparentemente pouco ergonómica, a tombar para os lados e para a zona da baliza. Ao todo, são 27 os jogadores elencados, número vasto que, mesmo assim, excluiu válidos esperançosos. Perdão: não incluiu válidos esperançosos.
Para proteger a baliza, Martínez levará quatro guarda-redes. Três deles - Diogo Costa, José Sá e Rui Silva - para jogarem e um para treinar. Ricardo Velho é o último na hierarquia, mas o treinador falou com ele e o jogador dos turcos do Gençlerbirligi mostrou-se “preparado para ajudar a seleção em tudo o que fosse necessário”, revelou o técnico. “Precisamos de utilizar as regras. Se houver uma lesão durante o torneio, só o guarda-redes pode ser substituído. A nossa metodologia de trabalho tem alta intensidade em todos os treinos. Há muita finalização. Trabalhamos muito no último terço e precisamos de mais um guarda-rede.” Há experiências piores do que ir a um Mundial, seja em que circunstância for.
Outro apêndice foi o quinto lateral. Tudo porque há posições em que “precisamos de ter mais do que dois jogadores por posição” devido à “complexidade do torneio”. Diogo Dalot, Matheus Nunes, Nélson Semedo, João Cancelo e Nuno Mendes sobrecarregam o lote de possíveis de opções e revezar-se-ão num posto que é “muito exigente fisicamente”, sobretudo quando a “temperatura” e o “fuso horário” começarem a atrofiar o bem-estar.
Depois do Euro 2024, Martínez comandará Portugal no Mundial 2026
Com Roberto Martínez é sempre um risco fazer previsões que tenham por base o passado. Os quatro guarda-redes e os cinco laterais foram os novos debates suscitados. Depois, existem aqueles que sempre se têm à mesa da sala de imprensa da Cidade do Futebol.
O terceiro ponta de lança atiça a troca de argumentos há algum tempo. Gonçalo Guedes, tal como em março, voltou a vestir essa pele. Pelo menos em teoria, visto que no último estágio não chegou a ser testado nessa posição. O atacante da Real Sociedad é o jogador com as “características mais próximas às do Diogo Jota” que o radar de Martínez consegue encontrar. “Tem mais flexibilidade para jogar por fora, por dentro, abrir espaços, contra-ataques, movimentos diferentes de um ponta de lança.”
Do leque de cortados, Roberto Martínez ligou a sete por uma questão de “transparência e honestidade”. Quando Paulinho acordar, vai também entrar em contacto com o ídolo mexicano. Ricardo Horta e António Silva são fortes candidatos a terem ouvido antecipadamente as justificações para as suas ausências.
Contando com a Liga das Nações, Roberto Martínez já fez três convocatórias de Portugal para fases finais de grandes competições
Entre os desbastes menos óbvios feitos à lista esteve Eli Junior Kroupi, avançado de 19 anos que leva 12 golos esta época no Bournemouth e que podia ter optado por representar Portugal, apesar do percurso nas seleções jovens francesas. “Existiu um contacto. Tentámos antes do estágio de março. Tivemos uma abordagem. Uma coisa é acompanhar os jogadores que podem vestir a camisola de Portugal, outra é se o jogador quer. Neste caso, o Junior queria jogar pela França. É um aspeto que respeitamos.”
Apesar das muitas palavras que sabe dizer em português, Roberto Martínez ainda não consegue juntar favoritismo, seleção e Mundial na mesma frase. Não consegue ou não quer. “Só uma seleção que já ganhou o Mundial é que pode ser favorita. Candidatos é uma palavra melhor.” O catalão reiterou ainda que não está preocupado com o quão dependente o futuro no cargo pode estar do desempenho no torneio. “O mais importante é o Mundial. A minha posição não é importante.”
Agora, é “começar a lutar contra a história” ou “parafraseando Pedro Abrunhosa como o selecionador parafraseou, “fazer aquilo que nunca foi feito”.