Tudo começa no Azteca, estádio dos estádios da história dos Campeonatos do Mundo, que coroou Pelé e Maradona
Imagem do renovadíssimo e histórico Estádio Azteca, na Cidade do México, que vai receber o jogo de abertura do Mundial
Rodrigo Oropeza
É o único estádio a receber duas finais, em 1970 e 1986, e no Mundial 2026 vai ser a casa do jogo de abertura pela terceira vez. Foi no Azteca, da Cidade do México, que Pelé se tornou tricampeão mundial e Maradona saltou com a sua Mão de Deus, antes de arrancar para o Golo do Século. Não há recinto que aguente tanta história dos Campeonatos do Mundo. É aqui que o Mundial 2026 vai começar, esta quinta-feira, com o México-África do Sul
Há locais que, numa conjugação mágica de propósito e acaso, se tornam página de história, memória coletiva eterna. “Há algo muito especial no Azteca”, disse um dia Pelé sobre o estádio que vai receber, esta quinta-feira, o jogo de abertura do Mundial 2026, entre o México e a África do Sul. Pelé tem as suas razões e não são poucas.
Foi no Azteca, cenário multitudinário, o maior estádio da América Latina, onde cabem mais de 87 mil pessoas, que o brasileiro recebeu o cruzamento de Rivelino para marcar de cabeça o primeiro golo da final do Mundial de 1970 (4-1 à Itália), onde se tornou no primeiro e, até agora, único jogador a sagrar-se campeão mundial em três ocasiões. Dias antes, os italianos haviam ali batido a Alemanha Ocidental por 4-3 nas meias-finais, num duelo com cinco golos no prolongamento e considerado então o Jogo do Século, com direito até a placa comemorativa nas paredes de betão do Azteca.
Pelé a festejar o seu terceiro Mundial, na final de 1970, no Azteca
Alessandro Sabattini/Getty
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A história fez-se merecida, depois de tanto suor ali investido. Para erguer tamanha estrutura no bairro de Coyoacán, o mesmo que viu nascer Frida Kahlo, no sul da Cidade do México, foi necessário espartilhar e remover 180 milhões de quilos de rocha naqueles 64 mil metros quadrados de terreno e convocar dez arquitetos, 35 engenheiros e mais de 800 operários. O estádio seria inaugurado em maio de 1966 e cedo ficaria viciado em feitos.
Dezasseis anos depois de Pelé, foi Diego Maradona a fazer do Azteca o seu La Scala, palco de arte, glória, marotice e, porque não, vingança. No México 1986, o Azteca tornar-se-ia o primeiro e único estádio a receber por duas vezes jogos de abertura e a final de um Mundial e voltaria a coroar um dos gigantes do futebol. Foi no ar rarefeito da altitude da Cidade do México que Maradona saltou mais alto, ergueu o braço e tornou eterna a Mão de Deus, nos quartos de final desse torneio, frente à Inglaterra que quatro anos antes humilhara a Argentina na Guerra das Malvinas. Porque nunca é só futebol.
O golo, de tão cheio de malícia como de esperteza, ilegal mas reparador, o mais perfeito exemplo da tão argentina viveza criolla, é o mais lendário da história do futebol. E foi o Azteca que lhe deu guarida.
A famosa Mão de Deus de Maradona no Mundial de 1986
El Grafico
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Não contente, minutos depois da mãozinha marota, e como que querendo mostrar aos terráqueos que com ele tudo era possível, de golos fora da lei a outros passíveis de estarem nos melhores museus de arte, Maradona ziguezagueou por entre meia equipa inglesa, entregando a bola à baliza de Peter Shilton. Chamam-lhe ainda hoje o Golo do Século. Dias depois, El Pibe levantaria ali, no Azteca, a sua taça de campeão mundial, num jogo não menos emocionante: 3-2 frente à Alemanha Ocidental. Foi o 19º jogo de Campeonatos do Mundo a realizar-se no Azteca, um recorde que será engordado a partir desta quinta-feira.
Nos anos que se seguiram, não só de futebol se fez a história do Azteca, onde tocaram Michael Jackson e os U2, e, em 1993, mais de 130 mil pessoas se juntaram para o combate de boxe entre Julio César Chávez e Greg Haugen. Até velórios ali se fizeram, como o do ator e comediante Chespirito, em 2014.
Será por isso algo injusto para a história do futebol que o Estádio Azteca seja, de alguma forma, apenas um ator secundário neste Mundial 2026 tripartido, mas onde há muito mais Estados Unidos do que México e Canadá.
O Azteca é o estádio dos estádios dos Mundiais, agora de cara lavada e reaberto em março com um particular entre México e Portugal. O recinto da capital mexicana ficará, no entanto, mais uma vez na história, recebendo pela terceira vez um jogo de abertura do Mundial. Mas depois do México-África do Sul restam-lhe apenas mais dois jogos da fase de grupos, um jogo dos 16-avos de final e outro dos oitavos de final.