O primeiro golo do Mundial foi também um agradecimento de Julián Quiñones ao México, o país que o protegeu da violência
O atacante do Al-Qadisiyah demorou nove minutos a marcar no Estádio Azteca
DeFodi Images
Nasceu na Colômbia, numa região que faz parte da rota do crime. Aos 17 anos, mudou-se para o México, onde pela primeira vez na vida de sentiu paz e tranquilidade. Apesar dos convites para representar os cafeteros, preferiu esperar que o México o convocasse. No Mundial que o país organiza, foi ele o autor do primeiro golo. Um exemplo da eficácia que também tem demonstrado no campeonato saudita, onde marcou mais do que Cristiano Ronaldo
A pesquisa por notícias de Magüí Payán conduz-nos a uma sucessão de links sobre detenções em centros de armas de guerra, massacres, laboratórios de produção de droga desmantelados ou minas de ouro ilegais. O primeiro jogo do Mundial 2026 arredou todos os problemas para as páginas secundárias do motor de busca. Aquele foi o sítio onde Julián Quiñones nasceu e por isso lhe é dada prioridade quando se tenta encontrar mais informação sobre o município colombiano.
Magüí Payán é um lugar onde estão instalados guerrilheiros e redes de narcotráfico. Os negócios locais procuram na população quem os mantenha vivos. Também Julián Quiñones teve oportunidade – se assim se pode chamar – de seguir uma carreira no submundo. A mãe, que sozinha o criou a ele e mais três irmãs, conseguiu a difícil proeza de não normalizar perante os filhos as atividades que se desenvolviam em paralelo com o quotidiano da família.
Enquanto alguém com consciência do bem e do mal, seria difícil permanecer toda a vida “num lugar muito perigoso” e acabou por emigrar aos 17 anos. O que inicialmente era uma mera procura por realização profissional no Tigres, tornou-se numa viagem à ilha dos amores, descrita pelo jogador no canal televisivo TUDN: “O México deu-me paz mental, toda a tranquilidade com que algum dia sonhei.”
A serenidade permitiu-lhe fazer o seu trabalho quase sempre bem. Inclusivamente, foi titular pelo Tigres na final do Mundial de Clubes em 2021. O sucesso obrigou-o a tomar decisões. A Colômbia convidou-o pelo menos duas vezes para representar a seleção, no seguimento de um percurso nas equipas jovens. Quiñones ignorou as cartas. Quis esperar pelo país que o deixou expressar-se na plenitude. “A melhor forma de agradecer ao México e representá-lo.” O momento chegou em 2023.
O festejo com os colegas de equipa durante a vitória por 2-0 contra a África do Sul
Kevin C. Cox
Sendo o país da CONCACAF um dos membros da organização tríptica, a ponta do maior Mundial de sempre esteve no Estádio Azteca. Aos nove minutos de um jogo inaugural que venceu por 2-0, o extremo goleador de 29 anos que fez questão de representar o México, retribuiu com um golo no momento desportivo mais importante dos últimos anos para o país. Celebrou-o com a mesma coreografia de Tshabalala na abertura do Mundial 2010 e ganhou o prémio de homem do jogo, entregue pelo pugilista Canelo Álvarez numa clara equiparação às maiores figuras desportivas do país.
O zénite foi trazido pela brisa de uma forma assinalável. Julián Quiñones terminou a temporada com mais golos (37) do que jogos (35) no Al-Qadisiyah. Ninguém marcou mais vezes (33) do que ele no campeonato saudita. Cristiano Ronaldo, que liderou a lista de melhores marcadores na época anterior, ficou-se esta temporada pelos 28. Os números já eram motivo para os adeptos o terem debaixo de olho. A capacidade de salto e explosão são outros argumentos para que mereça ser observado.
Está num estado de maturação diferente daquele em que se encontrava em 2017, quando o Tigres o emprestou ao Lobos BUAP e teve uma altercação com um companheiro. Numa manhã de domingo, os responsáveis do clube receberam a indicação de que Julián Quiñones estava a receber assistência médica no hospital devido a uma lesão provocada um por uma faca.
Julián Quiñones e William Palacios eram colegas de equipa e vizinhos. Juntaram-se na casa do primeiro para celebrarem uma vitória, encetando algumas garrafas de álcool. Quando Palacios decidiu dirigir-se a casa, entre as 3h e as 4h segundo os relatos, Quiñones seguiu-o. A companheira de William não ficou agradada com o estado ébrio do marido e o casal começou a discutir. Na sua versão, Julián diz ter entrado em ação quando o colega demonstrou atitudes agressivas perante a mulher e, para a defender, foi buscar o objeto com o qual se acabou por cortar.
Apesar da boa intenção reconhecida pelos dirigentes – William Palacios acabou por deixar o clube –, ficou associado a um episódio de violência que o podia ter prejudicado. “Não tinha conseguido nada e já estava a perder. Esse momento pôs-me a pensar que não podia continuar a fazer aquele tipo de coisas. Tinha que me centrar no que realmente importa.”