No México, os preços dos bilhetes fazem com que o Mundial pareça um evento para a alta sociedade
Adeptos vestidos com trajes tradicionais mexicanos junto ao Estádio Azteca, antes do jogo de abertura do Mundial
LUIS ANTONIO ROJAS/The New York Times
Muitos dos 80 mil presentes no jogo de abertura do Mundial 2026, México-África do Sul, na Cidade do México, eram norte-americanos de origem mexicana, com um maior poder de compra que os habitantes do país. A própria presidente do México, Claudia Sheinbaum, decidiu não comparecer, oferecendo o seu bilhete a Yolett Cervantes Cuaquehua, uma jogadora de futebol amadora indígena
Tariq Panja/The New York Times
CIDADE DO MÉXICO — Marcelo Gonzales observou a parede verde e enérgica que se movia na sua direção enquanto se dirigia para a entrada do Estádio Azteca, na Cidade do México, pensando em quem compunha a multidão vestida com camisolas de futebol no início do Campeonato do Mundo.
“O verdadeiro México? Não”, disse Gonzales, de 26 anos, rindo ao ver dezenas de milhares de compatriotas, muitos deles com camisolas da seleção nacional recém-compradas.
Com o início do torneio na tarde de quinta-feira, o mundo teve um primeiro vislumbre das multidões que lotam aquela que é, de longe, o Mundial mais caro em quase um século de história do evento.
A subida acentuada dos preços dos bilhetes tem sido uma das maiores controvérsias a abalar o torneio de 48 equipas, que o México está a coorganizar com o Canadá e os Estados Unidos. A FIFA, entidade organizadora, justificou os preços afirmando que necessita dessas receitas para cumprir os seus compromissos de financiamento para com o futebol mundial.
Os custos suscitaram não só a indignação dos adeptos, mas também ações judiciais nos Estados Unidos. Gonzales e um amigo tinham comprado os bilhetes apenas três dias antes e, na opinião deles, fizeram um bom negócio, comprando-os a um amigo por 3.500 dólares cada (cerca de 3 mil euros).
Ao observar a multidão de adeptos que começava a encher a enorme arena de betão de um dos estádios mais emblemáticos do futebol, Gonzales estimou que a maioria dos presentes pertencia à alta sociedade mexicana, incluindo muitos políticos. “Já vi uns dez”, disse ele.
Adeptos assistem ao México-África do Sul, o jogo de abertura do Mundial 2026, na FIFA Fan Fest no Zócalo, a principal praça da Cidade do México
CESAR RODRIGUEZ/The New York Times
Foi nesse contexto — um torneio para a elite — que a presidente mexicana Claudia Sheinbaum decidiu, há meses, que não assistiria ao jogo de abertura, um momento de alcance mundial que coloca o México no centro das atenções. Sheinbaum ofereceu o seu bilhete, que lhe teria garantido um lugar ao lado do presidente da FIFA, Gianni Infantino, a Yolett Cervantes Cuaquehua, uma jogadora de futebol amadora indígena de 21 anos, natural de Veracruz.
Sheinbaum, por sua vez, juntou-se aos adeptos numa exibição pública na cidade. O jogo decorreu no meio de semanas de protestos por parte de grupos que iam desde sindicatos de professores, que se queixavam dos salários e das pensões, até agricultores e mães de pessoas desaparecidas.
Um pequeno grupo no exterior do estádio entrou em confronto com agentes da polícia de intervenção. “Na verdade, estou um pouco triste porque a situação no México não é das melhores, e temos este grande evento no nosso país, o que me deixa com sentimentos contraditórios”, disse Alfonso Asevez, de 40 anos, que assistia ao jogo. “Estamos aqui pelo futebol, mas a verdadeira situação do país não se resume a este jogo.”
Dentro do estádio, os adeptos estavam alheios a tudo, bebendo alegremente cervejas de 20 dólares enquanto a sua equipa goleava a África do Sul, estreando-se no Mundial com uma vitória. Muitos dos presentes eram norte-americanos de ascendência mexicana que viajaram para dar o seu apoio — e contribuir com o seu poder de compra— à etapa mexicana do torneio.
Entre eles estava Francisco Orozco, de 51 anos, que veio de Los Angeles e gastou quase 10.000 dólares (cerca de 8,6 mil euros) em dois bilhetes. “As únicas pessoas que vêm assistir ao jogo são aquelas que têm muito dinheiro ou que pedem crédito para comprar bilhetes”, afirmou ele, especulando que o elevado custo dos bilhetes — entre três e dez vezes superior ao do último Mundial — tem como objetivo atrair adeptos mais abastados e bem comportados.
Infantino participou numa conferência de imprensa no estádio no dia anterior e foi questionado sobre a estratégia de preços da FIFA, que tem sido alvo de escrutínio por parte dos procuradores-gerais de Nova Jérsia e Nova Iorque e criticada por grupos de adeptos e políticos de todo o mundo.
“Cada dólar que entra é revertido para o desenvolvimento do futebol”, afirmou Infantino, que ganha cerca de 6 milhões de dólares por ano como presidente da FIFA, uma organização sem fins lucrativos suíça.
“Realizamos uma competição de quatro em quatro anos. Nos restantes 47 dos 48 meses, estamos a investir estas receitas no crescimento. Mais ninguém está a fazer isso.”
Crianças jogam futebol num novo campo, na Cidade do México, onde nem toda a gente está feliz com o que dizem ser uma gentrificação acelerada pelo Mundial
LUIS ANTONIO ROJAS/The New York Times
Mas o México é o coração do futebol norte-americano — este desporto domina acima de qualquer outro e transcende todas as classes sociais. Ramon Barbosa, de 37 anos, que assistiu ao jogo de estreia com a irmã, não precisou de recorrer às poupanças. Os bilhetes foram-lhe oferecidos por um parceiro de negócios.
“Estes não são os fãs típicos”, disse ele. “Esta é uma região privilegiada do nosso país”, acrescentou, referindo que muitas das pessoas presentes no jogo ficaram impressionadas com a dimensão do evento.
O jogo foi precedido por uma cerimónia de abertura grandiosa, que incluiu fogos de artifício nas cores da bandeira mexicana, uma exibição aérea de jatos militares e a participação de estrelas internacionais, incluindo a cantora pop Shakira e a atriz Salma Hayek.
O México é o segundo país da América Latina com maior número de milionários, a seguir ao Brasil, mas também sofre de graves desigualdades económicas. Um relatório da organização humanitária Oxfam, publicado em março, revelou que 1% da população detinha 40% da riqueza do país.
Omar Pernas, um homem de 35 anos que se mudou de Espanha para o México há oito anos, afirma que a estratégia de preços é contrária à cultura do futebol. “Acho que o Mundial é para todos”, disse Pernas, que trabalha na Amazon e conseguiu bilhetes gratuitos através de um cliente.
“Acho que não é a forma ideal para todos se divertirem.”