Mundial 2026

Brasil e Marrocos trocam golpes no primeiro jogo com aroma a candidatos do Mundial 2026

Marrocos e Brasil empataram a um golo
Marrocos e Brasil empataram a um golo
Simon Stacpoole/Offside

No único embate da fase de grupos entre duas equipas do top 10 do ranking FIFA, os pentacampeões e os africanos empataram (1-1). Marrocos entrou melhor, mostrou as suas virtudes e e chegou ao 1-1, antes de Vinícius, o melhor de um Brasil com períodos de confusão, responder. Foi uma partida competitiva e arduamente disputada até final

Brasil e Marrocos trocam golpes no primeiro jogo com aroma a candidatos do Mundial 2026

Pedro Barata

Jornalista

Ao terceiro dia, o campeonato do mundo chegou a julho. Não, não há aqui qualquer engano, há, sim, o impacto de uma contenda com contornos do mês em que tudo se decidirá, um frente a frente de fase de grupos que, a dado momento, pareceu encaminhar-se para um desempate por penáltis, tal o sabor a mata-mata vindo do MetLife Stadium.

Brasil e Marrocos evidenciaram virtudes e defeitos. Talvez os africanos vão para a segunda jornada mais satisfeitos, mais motivados, reforçando a convicção que, sim, eles são inferiores a muito poucas seleções. Os aspirantes ao hexa, na paranóia exigente em que residem, levarão com vários dias de interrogações e dúvidas. Mas, para quem entrou totalmente ao lado, concluir com um 1-1 perante a nova aspirante a potência internacional não é um drama.

Os que ficaram em quarto no Catar 2022 marcaram primeiro, Vinícius, carregando o escrete consigo, empatou. De fora ficou o lesionado Neymar, que passou os minutos prévios ao pontapé de saída convivendo com gente do star system, como Tom Brady.

A gigantesca cratera existente em Nova Jérsia acolheu o único encontro da fase de grupos entre duas equipas do top 10 do ranking FIFA. Debaixo de um calor implacável, com sensação térmica a rondar os 34 graus, os três gigantescos anéis que formam o colosso que acolherá a final do Mundial pintaram-se de amarelo e vermelho, desenhando o primeiro momento do torneio com sabor a ocasião grande, transcendente.

Havia, desde o período de aquecimento, qualquer coisa de brutal no ambiente, o sol escaldante, o estádio aberto, exposto à canícula, os jogadores limpando o suor, um teste tanto à resistência como ao talento, os elementos da natureza entrando, também, em cena neste campeonato do mundo. Ao contrário do verificado em outros jogos do Mundial, a pausa de hidratação serviu, mesmo, para refrescar, colocar toalhas geladas, baixar a temperatura. Enquanto o desafio decorria, Nova Iorque, ali mesmo ao lado, respirava fundo e enchia-se de expetativa para o quinto jogo das finais da NBA, o qual poderia dar o tão ansiado título para os Knicks face aos Spurs.

A partida principiou com Marrocos a aderir à moda do pontapé de saída batido diretamente para fora, levando a bola a sair perto da área adversária, para pressionar logo o opositor. Precavido para a situação, o Brasil deu-nos uma imagem caricata: Ibañez, o lateral-direito, a correr para apanhar rapidamente a bola, quase como um jogador de râguebi, procurando agarrá-la e lançar imediatamente, escapando assim à intenção marroquina de pressionar.

O selecionador marroquino já não é Regragui, é Mohamed Ouahbi, o homem que liderou o conjunto que venceu o Mundial sub-20, auxiliado pelo português João Sacramento. Mas, emocionalmente, os norte-africanos pisaram esta competição como se nunca tivessem saído do Catar 2022, plenos de energia, agressividade, entusiasmo, tudo com mais qualidade e perfume técnico do que quando se tornaram a primeira equipa do seu continente a pisar as meias-finais.

Aos 21', o belo arranque dos de vermelho valeu o 1-0. O Brasil chegou com o fato errado para o relvado, com confusão tática, imprecisões técnicas, laterais desconfortáveis, médios chegando sempre tarde. Brahim Díaz aproveitou o espaço para, com requinte, lançar Ismael Saibari, que, isolado perante Alisson, picou a bola por cima do guarda-redes, um golo que apanhou a canarinha desposicionada, como que querendo mostrar visualmente os defeitos que transportou para Nova Jérsia.

O choque de candidatos viu um menino de 18 anos em destaque. Ayyoub Bouaddi, médio de Marrocos, teve momentos em que agarrou o jogo pelos colarinhos, adulto, responsável. O Brasil não encontrou propriamente uma estabilidade, mas foi forçado a regressar ao empate através de Vinícius, que, praticamente sozinho, reencaminhou a viagem da sua equipa. Aos 32', puxou para dentro, agradeceu o espaço deixado e fuzilou Bono.

Igor Thiago, o homem que ainda em 2023 atuava no Ludogorets da Bulgária, teve a responsabilidade de ser o avançado dos pentacampeões. Logo ao início falhou um cabeceamento na sequência de boa incursão de Vinícius, parecendo que a bola se evaporou à sua frente, e no início do segundo tempo finalizou em boa posição na direção de Bono. Apenas tocou 16 vezes na bola até ser substituído, o menor valor entre todos os titulares, parecendo uma presença descolocada na dinateira, como um estagiário que não recebeu a formação adequeada para o lugar.

Ancelotti mexeu ao intervalo. Tirou Casemiro e Ibañez, que juntos somam 61 anos, e colocou Danilo e Fabinho, que perfazem 66 voltas ao sol. É sempre estranho dizê-lo, mas há um evidente problema de renovação de talento neste Brasil.

A equipa sul-americana pouco criou ao longo de todo o desafio, perdendo-se entre mutações posicionais. Chegam aqui vindos do pior ciclo mundialista da sua história, com quatro treinadores, 37 jogos, 17 vitórias, 10 empates e 10 derrotas desde o Catar 2022, apenas com 54,5%. Ancelotti tem apelado ao otimismo e à coragem — “se não tens medo, um leão parece-te um gato”, disse, —, mas passou parte do dia de sobranchela franzida, preocupado.

Marrocos foi deixando a acutilância da primeira meia-hora, mas recompôs-se para assumir uma parte final em que não foi encostada à sua baliza pelo adversário. Soube ter a bola e, mesmo no fim, voltar a tentar golpear o escrete. Alisson evitou males maiores, já quando o sol se ausentara do estádio, já quando ambos os lados se mostravam cansados, debilitados por uma partida longa, própria de outra altura do Mundial.

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