Curaçau ainda sorriu e festejou na cara da primeira pesada, mas justa lição do Mundial
Os jogadores da Alemanha a celebrarem um dos sete golos que marcaram a Curaçau no primeiro jogo no Mundial de 2026 para ambas as seleções
Alexander Hassenstein
Incomparável no talento e no andamento, a Alemanha cedo encostou lá atrás a seleção do país mais pequeno de sempre a qualificar-se para o Campeonato do Mundo. Com a sua teia de passes curtos e tabelas, os germânicos vergaram (7-1) Curaçau, mas o momento do jogo, em Houston, no estádio fechado e com ar condicionado em esteróides, foi a celebração eufórica após o golo de Livano Comenencia
Não é uma cara de frete, coitados, o exagero é escusado. Os alemães têm a sua conhecida frieza que nem o tórrido calor de Houston derrete. Pelas 10 horas da manhã os 30 graus já se espreguiçaram, o metro de superfície vira refúgio e eles aos magotes, austeros em entusiasmo, vestidos do branco habitual, ornados do hábito de nunca terem visto a seleção a falhar um Mundial salvo por vontade própria (em 1930) ou pela dos outros (em 1950, de castigo pela Segunda Guerra Mundial). As caras de Curaçau contam outra história.
Inferiores em números, superam o entusiasmo dos europeus: veem-se sorrisos a ligar orelhas, gente com adereços para lá da camisola, ouvem-se cânticos animados, carregados de notas do Caribe, a serem gritados pelo grosso da “Onda Azul”, alcunha da seleção, posta atrás de uma das balizas. A excitação é incomparável. O casulo do estádio coberto de Houston tem um efeito de trampolim acústico para as gargantas curaçauenses que podem com a rivalidade sonora, cá dentro caberia quase metade da população da “isla chikitu”, assim se diz no papiamento que falam.
Mais difícil foi poderem com o choque futebolístico. Mandona da bola, a Alemanha cedo empurrou lá para trás as camisolas azuis com uma insistência em tentar combinações curtas, pelo miolo do campo, aproveitando a técnica de cetim dos seus mais talentosos e tirando referências de marcação aos defesas adversários. No núcleo da troca de posições constante dos germânicos, desmantelando o bloco de Curaçau com o seu toca-e-vai, estavam Jamal Musiala Florian Wirtz, os fomentadores de tabelas. Foi o segundo a devolver o passe para o golo de Felix Nmecha, aos 6’.
O cerco era asfixiante. Só Kai Havertz, o avançado, além de Leroy Sané, canhoto que esperava pela bela aberto na direita, ficavam mais fixos no posicionamento na mixórdia de movimentações da seleção de Julian Nagelsmann, o treinador de manga curta, vestido à civil, em pé diante do banco e atento à fluência do futebol alemão que amestrou Curaçau, incapaz de acertar um, dois passes ao recuperar a bola e tentar lançá-la logo rápido para contra-atacar. A intenção sempre a mesma: pôr um dos seus atacantes a correr disparado rumo à baliza.
Alexander Hassenstein
Alexander Hassenstein
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Aos 20 minutos, quando uma dessas tentativas por fim superou a linha que fatia o relvado e alcançou a área, o capitão Leandro Bacuna, irmão de Juninho, seu parceiro no meio-campo, fez o primeiro remate da sua seleção em Mundiais - torto e inofensivo, para a bancada. Os alemães já tinham oito, todos perigosos. Mas essa ténue ameaça desconcertou-os, pouco depois, noutra saída rápida do manual monotemático dos estreantes, a defesa germânica ficou aos papéis, porosa a conceder espaços, e um dos nomes mais representativos da cataplana de influências da ilha caribenha, Livano Comenencia, fez-se gatilho de um dos momentos que ficará no mural de inesquecíveis deste torneio.
O seu golo do empate, aos 21’, serviu de erupção de barulheira no estádio enquanto os jogadores de Curaçau se encavalitaram sobre ele que, terminado o moche, correu rumo ao banco para tocar com a sua palma da mão na dos lá estavam. Uma delas a de Dick Advocaat, o mais velho (78 anos) selecionador do Mundial, neerlandês em tempos alcunhado de “Pequeno General” cuja fama de durão vem sendo amolecida pelos costumes calorosos e desempoeirados dos seus jogadores, que aparecem a bailar nos estádios e até puseram a dançar o comandante do avião que os trouxe aos EUA.
O treinador acabaria a primeira parte a esbracejar, já não tranquilo e sentado, contra a reação germânica à picada dos caribenhos, capazes de terem mais um par de chegadas à área de Manuel Neuer, com remates incluídos, mas acossados novamente pelo ímpeto dos tetracampeões mundiais. Num canto, Nico Schlotterbeck apareceu sem companhia na pequena área, marcando à cabeçada, aos 38’. Insistente a avançar pelo centro do campo com uma teia de passes curtos, teve Felix Nmecha a ser derrubado na área e a provocar o penálti que Havertz, já nos descontos, engordou a vantagem.
A pressa da Alemanha teve imunidade contra o descanso. Mal o jogo retomou, noutro ataque que encostou Curaçau à sua baliza, Musiala rompeu pela área numa pequena diagonal, em zonas de avançado, para colher o passe de Joshua Kimmich e ser feliz - a segunda parte ainda nem um minuto tinha.
Schlotterbeck a celebrar o seu golo, marcado num canto, contra Curaçau
Steph Chambers - FIFA
Podiam os germânicos, com a cabeça em afazeres futuros - e mais desafiantes -, ter abrandado o ritmo, poupando um pouco as pernas que Houston, no seu recinto de teto fechado, poupa das brasas do exterior com o ar condicionado em esteroides que tratará de refrescar Portugal quando cá vier. Mas não. Mantendo a silhueta, com Kimmich a ser um lateral direito no papel que, em ataque, se junta aos centrais na saída a três ou serve de médio quando a seleção assenta no meio-campo contrário, a Alemanha continuou as suas diligências.
Os atacantes Nmecha e Wirtz remataram, Pavlovic, o médio garante do ritmo na troca de passes a meio-campo também, Sané imitou-os na passada, ao correr esbaforido pela direita. Foi a seleção de Nagelsmann, um dos treinadores fetiche do torneio, ávido experimentador de coisas novas, a demonstrar os oleados processos entre um conjunto de jogadores pouco olhado como fazendo parte da nata deste Mundial. Sê-lo-á, contudo, no futebol jogado até agora. Aos 68’, noutra jogada com tabelas em espaços exíguos, Nathaniel Brown acentuou o atropelamento.
Dependente da sua diáspora, à maior a que existe nos Países Baixos, onde todos os convocados para o Mundial nasceram, Curaçau não desmontou a sua defesa em bloco baixo. Mesmo golpeado sem piedade, empurrado ao canto do ringue, a estratégia não mudou. Comenencia ainda teve um disparou à baliza, num livre, antes de Jearl Margaritha, lançado pela esquerda numa transição rápida, ameaçar o descanso do quarentão Manuel Neuer, batizado aqui como o mais velho alemão a jogar no torneio. Deixou na sua exibição algo muito Neuer: às tantas, levou a sua cabeça até à linha do meio-campo cortar um passe.
O seu oposto, Eloy Rooy, desempregado quando, em março, os caribenhos garantiram a presença no Mundial, teve de ir à sua baliza buscar a bola uma sexta vez: Deniz Undav marcou, aos 78’, ao finalizar uma jogada que ainda teve dois toques para o lado, dentro da área, após Kimmich não querer marcar o golo por ele. Sem aliviarem a pressão alta, implacáveis a limitarem o jogo dos curaçauenses feitos de jogadores que atual nas divisões secundários de ligas secundárias da Europa, o seu guarda-redes, hoje no Miami FC, não o Inter Miami de Messi, ainda foi obrigado a ir às redes uma sétima vez, quando Havertz lhe picou um golo por cima do corpo.
Havertz a enfrentar Eloy Room, o guarda-redes de Curaçau
Steph Chambers - FIFA
Havertz a enfrentar Eloy Room, o guarda-redes de Curaçau
Steph Chambers - FIFA
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Foi um castigo pesado, custoso de mastigar, mas não se pode dizer que imerecido. A meritória chegada de Curaçau ao Mundial tratou-se, igualmente, de uma conjugação facilitada de fatores, com o alargamento para 48 seleções e o facto dos três anfitriões serem da sua zona de qualificação a ajudarem às circunstâncias. Ser goleado na estreia, por 7-1, é o futebol a lembrar como é implacável: o torneio vive de histórias como a deste pequeno país, que arrasta gente radiante, bem-disposta, mas não quer saber do seu encanto quando entra na prova de algodão no relvado.
Tíbios na defesa, incapazes de manterem os espaços fechados quando a Alemanha fazia fluir as suas trocas posicionais, os estreantes sentiram a bitola do que será o nível de jogo do Campeonato do Mundo. Se continuarem tão esburacados junto à sua própria área será difícil que beneficiem das vezes que cheguem à outra.
Os sorrisos, no final, estiveram nas caras dos alemães, então sim desfeitos de fretes por replicarem o marcador da sua mais estrondosa vitória em Mundiais, aplicada da última vez que a prova veio às Américas, como os brasileiros se lembrarão. Dados a provar da crueldade que por vezes mora no trigo que o futebol separa do joio quando a bola rola, ninguém na “Onda Azul” abandonou o assento quando a partida terminou. Os adeptos ficaram à espera dos jogadores, brindando-os com berros eufóricos de apoio, como se múltiplos golos fossem marcados sucessivamente.
Foi uma das bonitas ambivalências dentro do casulo de Houston decorado, por estes dias, para o soccer, mas onde no topo estão penduradas bandeiras a assinalarem conquistas da equipa local de futebol americano: Curaçau sofreu a bom sofrer, mas acabou em festa.