Primeiro expectante e depois com entusiasmo, o Paises Baixos-Japão serviu para acordar um bebé da sesta
Ogawa cabeceia para o 2-2 de Kamada
Chris Brunskill/Fantasista
Duas seleções com ambição neste Mundial empataram (2-2), com os nipónicos a roubarem o triunfo neerlandês com um golo aos 88'. A primeira parte foi sonolenta, com escassos lances junto das balizas, mas o segundo tempo concentrou todas as emoções
Em Dallas, na enorme arena coberta, protegida por ar condicionado do calor exterior, defrontaram-se a melhor seleção a nunca ter vencido o Mundial e a melhor a nunca ter superado os quartos de final. Ainda assim, as duas chegaram em estados de espírito antagónicos ao torneio: os neerlandeses com desconfiança e até indiferença, afetados pela falta de brilho recente, os nipónicos com entusiasmo e crença, falando até da possibilidade de erguerem o troféu planetário.
Ora, do embate saiu, ao princípio, bem, nada. Zero. Zero golos. Zero ou quase zero oportunidades. Uma equipa a trocar passes e a outra a ver. O guião a repetir-se invertendo os protagonistas.
Perto do intervalo, durante aqueles minutos de inação, a realização televisiva mostrou um bebé a dormir na bancada. A toada da contenda pedia isso, uma sesta, era sonolenta, embalava. O conforto do recinto, fechado, fresco, conferia o pano de fundo perfeito.
Tudo se alterou com o intervalo. Um jogo de duas partes distintas, diria a frase feita do futebolês. Quatro golos na segunda parte, o último aos 88', selando o definitivo 2-2. Os japoneses, frescos da sensação de baterem Brasil e Inglaterra, saíram mais sorridentes. Os neerlandes, que a seguir têm um perigoso confronto com a Suécia, terminaram mais apreensivos.
Alex Pantling - FIFA
Alex Pantling - FIFA
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Donyell Malen aterra no Mundial cheio da vitamina consumida na Roma, ainda pleno da confiança injetada na capital italiana. O atacante foi o único homem capaz de realizar remates enquadrados no primeiro tempo, quebrando o marasmo existente, desafiando a sensação de partida bloqueada, como duas peças numa construção caseira que não estão plenamente instaladas, mas são impossíveis de pôr ou tirar, ficam encravadas.
Aos 3', o dianteiro, forte fisicamente, aguentou a carga da defesa japonesa e disparou forte para grande parada de Suzuki, que voltaria a dar boa resposta na sequência de um canto. Cedo se percebeu que, tendo em conta a diferença de estatura, as bolas paradas poderiam ser um meio através do qual os neerlandeses atingissem o golo, chegassem ao perigo que, de outras maneiras, custava gerar. A ironia das ironias viria em cima da conclusão.
Largos períodos da etapa inicial passaram-se em suaves trocas de bola, sem grande desenvolvimento, as duas equipas expectantes, os Países Baixos com mais iniciativa, o Japão mais aguardando, os dois relativamente cómodos com o estado de coisas. Os homens de Hajime Moriyasu, o mais longevo selecionador do país de sempre, têm qualidade e técnica, mas vestem um fato de pragmatismo e expetativa. Maeda, Kubo e Ueda, os seus três atacantes, foram os futebolistas de campo que menos vezes tocaram na bola até ao descanso. Nakamura e Ueda ainda ameaçaram Verbruggen nos instantes prévios à recolha aos balneários, no entanto seria a aguardada bola parada a romper o impasse.
Van Dijk abriu o marcador
Soccrates Images
Van Dijk abriu o marcador
Soccrates Images
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Toda a espera prévia tornou-se sucessão de golos no recomeço. Ah, os Mundiais e a teoria do ketchup, criada há 16 anos e um dia por Cristiano Ronaldo, a 13 de junho de 2010, na África do Sul. O 1-0 partiu da vantagem de centímetros que os europeus possuem, com Gravenberch a levantar a bola e Van Dijk a quase não ter de se levantar do chão para cabecear.
A vantagem dos três vezes vice-campeões durou menos seis minutos. O Japão atua frequentemente de uma forma que não extrai o melhor dos seus criativos, como se quisesse provar que já não é o conjunto ingénuo e frágil de outrora, só que correndo o risco de se anular na busca de anular o alheio. Ainda assim, quando ataca, a qualidade é evidente. Kubo tricotou um lance, Nakamura, que parece um meio-fundista atrasado para o trabalho em campo, sempre com pressa, rematou e, com um toque de fortuna, empatou.
Outros sete minutos e mais um golo. Se anteriormente assistir a um remate era motivo de festejo, agora as bolas a beijar as redes sucediam-se. Será que o tal bebé continuava o seu sono profundo? Duvidamos, pobre mãe, o descanso foi-se. Crysencio Jilbert Sylverio Cirro Summerville recebeu de Gravenberch na direita, puxou para o meio e fez um remate arqueado, colocado, bate no poste e entra. O extremo desceu, há semanas, com o West Ham de Nuno Espírito Santo, mas vem ganhando cotação que faz duvidar de uma ida para o Championship.
Os Países Baixos poderiam ter empatado. Gakpo, que frequentemente é consumido pelo síndrome de Podolski, um avançado em versão multiplicada na seleção, teve o 3-1 nos pés, mas Suzuki defendeu. Ronald Koeman, com o seu ar de tio do futebol neerlandês, não propriamente amado, mas sempre ali, colocou marcha-atrás quando lançou Aké. Os japones forçaram, sobretudo com Ito.
O inesperado veio aos 88'. Os Países Baixos contavam com Van de Ven, Van Dijk, Van Hecke e Dumfries em campo, o mais baixo deles com 1,89 metros. Mas eis que a fraqueza do Japão tornou-se arma, neste desafio que se foi metamorfoseando: Koki Ogawa, que tem 1,86 metros, ganhou nas alturas. Kamada, que tem 1,80 metros, desviou quase involuntariamente. Média de altura do onze neerlandês: 1,87 metros. Média de altura do japonês: 1,80 metros. Foi quase como a tartaruga a ganhar o sprint à chita.
O 2-2 final selado com emoção. Festejos nipónicos, caras de desilusão do outro lado. A arena de Dallas ruidosa, já não indiferente. E o bebé acordado, já não dava para sestas.