Seleção iraniana chega aos Estados Unidos para o Mundial após meses de incerteza - e com protestos à sua espera
Jogadores iranianos deixam o México a caminho dos Estados Unidos, onde só podem permanecer durante 48 horas
Anadolu
A situação relacionada com a presença do Irão tem sido uma das maiores crises nos quase 100 anos de história do Campeonato do Mundo, sendo a primeira vez que um país anfitrião se encontra em conflito aberto com um participante. O Irão estreia-se no Mundial na madrugada de terça-feira e estão previstos protestos anti-governo em Los Angeles
Tariq Panja/The New York Times
LOS ANGELES - Pouco antes das 16h, no domingo, uma responsável da FIFA, o órgão que rege o futebol, emitiu um pedido de desculpas. A equipa iraniana tinha-se atrasado, disse ela aos jornalistas reunidos no estádio So-Fi, perto de Los Angeles, para o que, em circunstâncias normais, teria sido apenas mais uma rotineira conferência de imprensa de pré-jogo.
Durante meses, a incerteza pairou sobre a participação do Irão no Campeonato do Mundo, na sequência dos ataques norte-americanos e israelitas ao Irão. Assim, quando o capitão e o treinador principal da equipa finalmente apareceram para representarem o plantel, um grande obstáculo tinha sido finalmente ultrapassado. O Irão tinha conseguido chegar aos Estados Unidos para estrear-se na competição numa partida contra a Nova Zelândia esta segunda-feira.
A equipa chegou ao Aeroporto Internacional de Los Angeles no domingo, após uma despedida emocionante na sua base em Tijuana, no México, para onde se mudou depois de os seus planos de ficar no Arizona terem sido cancelados semanas antes do torneio. Vários responsáveis iranianos, incluindo o presidente da federação nacional de futebol, ficaram para trás depois de lhes ter sido recusada a entrada. Os vistos da equipa limitam a sua permanência em território norte-americano a menos de 48 horas e obrigam-na a regressar ao México após cada jogo.
A situação relacionada com a presença do Irão tem sido uma das maiores crises nos quase 100 anos de história do Campeonato do Mundo, sendo a primeira vez que um país anfitrião se encontra em conflito aberto com um participante. (Poucas horas após a conferência de imprensa, Estados Unidos e Irão anunciaram um acordo que poderá, por fim, colocar um ponto final a uma guerra que teve início com os ataques norte-americanos e israelitas ao Irão em fevereiro.)
Os aplausos que a equipa recebeu à saída do México, um dos países anfitriões do Mundial, não tiveram paralelo em Los Angeles, onde se encontra uma das maiores comunidades da diáspora iraniana e um foco de forte oposição ao governo de Teerão. Um pequeno grupo de manifestantes entoou slogans contra a equipa quando o autocarro desta entrava no hotel onde iriam passar a noite. Prevê-se que haja manifestações muito maiores esta segunda-feira, no dia do jogo.
Um grupo de iranianos protesta contra o governo do país em Los Angeles, onde a seleção vai jogar na madrugada de terça-feira
Harry How
“Este tipo de tensão prejudica essa alegria e compromete a mensagem da FIFA e do nosso povo, que gira em torno do futebol e da promoção da paz”, afirmou Mehdi Taremi, estrela e capitão da equipa: “Acho que este Mundial poderia ter proporcionado um ambiente melhor do que aquele que se viveu e espero que, no futuro, seja melhor para todos os adeptos, independentemente da equipa que apoiam.”
A seleção do Irão, uma das primeiras a qualificar-se para o Mundial, tem sido afetada por várias alterações impostas pelos organizadores e pelo governo dos EUA. Além dos atrasos na obtenção dos vistos e das alterações aos planos para o local de estágio, foi cancelado um plano para distribuir bilhetes aos adeptos da equipa, tendo a FIFA afirmado que a venda dos mesmos violaria as sanções impostas pelos Estados Unidos.
No sábado, em Tijuana, o Irão realizou o seu último treino no México antes de partir para Los Angeles. A equipa tentou mostrar uma frente unida, formando um círculo que incluía os responsáveis a quem tinha sido proibido viajar para os três jogos do outro lado da fronteira.
O ambiente no estádio de Inglewood, na Califórnia, deverá ser tenso. Os organizadores dos protestos contra o governo iraniano afirmaram que esperam que milhares de pessoas se juntem a eles no exterior do estádio e outros afirmaram que irão assistir ao jogo e usá-lo como plataforma para novos protestos. Os dirigentes do futebol iraniano têm pressionado a FIFA para que tome medidas firmes para impedir que os espectadores tragam bandeiras, vestuário ou outros símbolos do Irão anteriores à Revolução Islâmica de 1979.
Mehrdad Ali, que nasceu no Irão e se mudou para Los Angeles há 26 anos, afirma que vai assistir ao jogo apenas para protestar e que não se importa com o resultado.
“Quero mudar o regime”, disse ele, vestindo uma t-shirt com o rosto do antigo Xá do Irão, que foi deposto pela revolução. “Isto é a equipa do governo, não a equipa iraniana.”
Para outros iranianos, incluindo muitos que se opõem ao regime, os protestos dirigidos contra a equipa estão a dissuadi-los de assistir aos jogos em Los Angeles, onde os grupos que apoiam o filho do Xá deposto têm sido dos mais vocais.
“Talvez não vá por causa da diáspora de Los Angeles”, disse Sahar Salajegheh, cirurgiã dentista: “Não quero ter problemas com eles. É por isso que não vou, apesar de os meus amigos terem um bilhete para mim,”
Neste contexto, os jogadores de futebol iranianos têm sido, em grande parte, mantidos afastados dos holofotes. Seguranças fortemente armados, disponibilizados pelo governo mexicano, estão permanentemente posicionados à porta do hotel da equipa e acompanham o plantel aos treinos. Apesar de todos esses esforços, o treinador da equipa, Amir Ghalenoei, afirmou que o seu “foco técnico” foi afetado. O futebol profissional no Irão está suspenso desde o início da guerra.
“Sem dúvida alguma, isto terá um impacto negativo no espírito do futebol”, afirmou Ghalenoei. “Esforcei-me realmente para garantir que os meus jogadores se concentrem na estratégia e na técnica.”