Yasin Ayari e os golos envergonhados no Suécia-Tunísia
Yasin Ayari marcou o primeiro golo dos suecos no Mundial 2026, mas não festejou
David Ramos
Filho de pai tunisino e mãe marroquina, Yasin Ayari marcou dois golos na vitória da Suécia por 5-1 sobre a Tunísia, mas manteve-se em silêncio após o primeiro e levantou as mãos em sinal de desculpa, por respeito às suas origens. Ele que até podia estar a jogar do outro lado do campo
Marcar um golo é o vértice do futebol, é o instante em que tudo faz sentido. É o momento em que treinos, tácticas, discursos, expectativas e sacrifícios se desfazem num gesto simples e o jogador existe de forma absoluta, sem precisar de explicar nada. Depois vem o segundo em que o corpo se ilumina por dentro e a alegria irrompe, como se desde sempre estivessem estado à espreita. Festejar é um instinto.
Para Yasin Ayari não foi. Quando aos oito minutos a bola que pontapeou à entrada da área, em ângulo, entrou na baliza adversária, ficou quieto, como se o corpo tivesse ficado preso ao conflito interior que emergiu de imediato. A Suécia marcava à Tunísia no Mundial no seu jogo de estreia, mas Ayari marcava ao país do pai. E isso pesa.
Os colegas rodearam-no em euforia, mas o seu gesto foi pequeno, a cabeça baixa, o pedido de desculpa quase imperceptível, que disse tudo. Não era culpa, nem arrependimento, antes a consciência de que há golos que atravessam fronteiras que não aparecem nos mapas. Ayari nasceu em 2003 em Solna, na Suécia, e quando teve de optar, acabou por escolher o país onde cresceu. Mas a casa nunca é só o lugar onde se nasce. Muitas vezes é também o lugar de onde vêm os pais, as histórias, os silêncios e momentos felizes. Há sentimentos que não se resolvem, coexistem.
Yasin, filho de pai tunisino e mãe marroquina, começou a jogar futebol no Råsunda IS, mas fez toda a formação no AIK, clube onde se estreou profissionalmente ainda adolescente. Em 2022/23, transferiu‑se para o Brighton & Hove Albion, da Premier League, e, na época seguinte, foi cedido ao Coventry City, onde somou minutos regulares no Championship antes de regressar ao clube inglês.
Ayari a agradecer após marcar o segundo de dois golos à Tunísia, país do seu pai
Azzouz Ayari, pai do jogador que se tornou no mais jovem marcador da Suécia numa fase final do Mundial desde Tomas Brolin, em 1990, também assumiu que queria que o filho “jogasse pela Suécia”, porque “ele deve sentir que está a retribuir ao país que cuidou dele.”
Os suecos acabaram por bater a Tunísia por uns expressivos 5-1 e foi Ayari quem fechou a contagem, no periodo de descontos. Foi um novo remate de longa distância, que já saiu com outra respiração e celebração, embora esta ainda algo tímida, como quem tenta encontrar um lugar seguro entre a alegria e a tentativa às vezes desajeitada, de não ferir ninguém.
A Suécia está no Grupo F, com a Tunísia, o Japão e a Holanda e após esta fase os dois primeiros colocados cruzam com o Grupo C, do Brasil, Haiti, Escócia e Marrocos. Ou seja, Ayari ainda pode cruzar com o país de origem da mãe. Resta esperar para ver se vai guardar mais uma vez a comemoração para si, caso marque golo num eventual encontro com Marrocos.