O sexto Mundial de Cristiano Ronaldo, ainda à caça de uns certos golos

O capitão será o mais velho jogador de campo do torneio e procura algo que lhe falta, além do troféu: marcar em jogos a eliminar

















































































































































































































O capitão será o mais velho jogador de campo do torneio e procura algo que lhe falta, além do troféu: marcar em jogos a eliminar
Editor de Desporto
Há quatro invernos houve um vitupério nacional, quase revolta unânime, causado pela decisão de um homem, Fernando Santos, em deixar Cristiano Ronaldo sentado no banco para um jogo do Mundial. Mais ainda quando repetiu o desplante, ousando fazê-lo suplente também nos quartos de final quando o país já rogara pragas ao selecionador, acusando-o de ingratidão e amnésia. O capitão da seleção tinha 37 anos, não era descabido presumir que estava na sua última edição do torneio.
Portugal despediu-se do Catar com uma decalcada imagem de polémica, em parte justificada pela raridade: contra a Suíça, nos oitavos de final, e Marrocos, nos ‘quartos’, em respetivo o 46º e o 47º jogos feitos pela seleção em Campeonatos do Mundo ou da Europa desde a primeira internacionalização de Ronaldo, no longínquo ano de 2003, foi apenas a quinta e a sexta vez em que o mais que tudo de um país, de importância autoexplicativa, não era titular. As anteriores tinham sido redundantes — aconteceram quando ele era um adolescente com madeixas loiras e acne nas bochechas, ainda sem estatuto na equipa, ou quando Portugal teve jogos da fase de grupos dos torneios já qualificado para as rondas a eliminar.
As consequências de mexer no inamovível são conhecidas. Fernando Santos saiu do cargo com discrição, um campeão europeu em 2016 empurrado para uma despedida pela porta pequena; Cristiano ficou a engordar o seu legado na seleção, veio Roberto Martínez e o madeirense, soprando entretanto 40 velas no bolo de aniversário, continuou a marcar golos, muitos golos: vai com 25 em 32 jogos feitos na regência do espanhol.
A predominância de Ronaldo na seleção não sentiu um beliscão, nem já com 41 anos e a jogar na Arábia Saudita, um futebol menos exigente. Houve apenas um jogo (contra a Escócia, em 2024, para a Liga das Nações) em que não foi titular e nos 14 em que acabou substituído só por duas vezes saiu de campo antes dos 65 minutos. No Europeu de há dois anos, onde Portugal caiu perante a França, cumpriu por inteiro o cronómetro dos cinco encontros salvo os derradeiros 25 minutos do embate com a Geórgia, a terceira partida da fase de grupos — Portugal já tinha os ‘oitavos’ garantidos. Outro exemplo: no segundo amigável pré-Mundial, contra a Nigéria, foi o único jogador de campo a não ser substituído ao intervalo.
Cristiano manteve a influência na seleção na era Martínez: tem 25 golos em 32 jogos com o espanhol
É cabal a vénia do treinador ao jogador, reincidente a cada conferência de imprensa ou entrevista face às omnipresentes perguntas acerca de Cristiano, prova disso a questão com que respondeu ao Expresso quando a conversa alcançou o capitão: “Como é que podemos utilizar o que o Cristiano faz na seleção para termos mais jogadores como ele, em termos de atitude? Continua a ser importante.”
Os golos atestam as palavras do selecionador. O Ronaldo atual, dos 41 anos, distante está do jogador dos dribles em correria que era aos 21, também do que canalizou a potência para os golos ali pelos 31. Já não é o que era, embora seja o único futebolista a marcar em cinco Mundiais mesmo que jamais tenha feito um em partidas a eliminar. Tem oito golos no torneio, mas, dos 29 remates que já fez em jogos do ‘mata-mata’, já dizia Luiz Felipe Scolari, treinador que o estreou na seleção, nunca um o levou a festejar.
Vinte anos após o seu primeiro pontapé na prova, Cristiano, único a marcar em cinco Mundiais, será o jogador de campo mais velho desta edição e um dos futebolistas que a sabedoria popular diz estarem nos novos trintas: também Guillermo Ochoa (México), Luka Modrić (Croácia), Edin Džeko (Bósnia e Herzegovina), Manuel Neuer (Alemanha), Craig Gordon (Escócia) e Vozinha (Cabo Verde) são quarentões, e Fernando Muslera, guarda-redes do Uruguai, juntar-se-á ao grupo já com o torneio a decorrer.
São oito, mais do que os sete quarentões que jogaram nas 22 edições anteriores. Vidrado em recordes, não será desta que Ronaldo ultrapassará a proeza de Essam El-Hadary, guarda-redes egípcio que jogou na Rússia, em 2018, com 45 anos e cinco meses.
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