Vozinha, que é Josimar por causa do México 86, fez sete defesas contra Espanha e ganhou seis milhões de seguidores
O Campeonato do Mundo tem um novo herói e esse herói chama-se Vozinha
NurPhoto
O Mundial tem o seu novo herói: Vozinha, de 40 anos, fez a exibição da sua vida no jogo mais importante da sua vida, na estreia de Cabo Verde frente a Espanha. Foram sete defesas, que rapidamente se transformaram num movimento online que engordou a sua página de Instagram, que tinha 50 mil seguidores, para números impensáveis
Primeiro foi um voo para afastar uma recarga de Oyarzabal, depois de Ferran Torres rematar à barra. Ainda antes do intervalo, um cabeceamento de Laporte ia mesmo encontrar o cantinho da baliza de Cabo Verde, mas ele estava lá para afastar o perigo com uma palmada. Antes disso já tinha segurado um remate forte de Pedri. Nesta altura, ainda o número de seguidores de Josimar José Évora Dias no Instagram era de pouco mais de 50 mil.
Horas depois, abre-se a rede social de Vozinha e seis milhões de pessoas (e a contar...) seguem o guarda-redes culpado no tribunal do futebol por ser o responsável da maior surpresa deste Mundial, uma das maiores surpresas quiçá da história dos Mundiais.
Foram sete as bolas que o guarda-redes do GD Chaves, da II Liga portuguesa, evitou que fossem para a baliza de Cabo Verde. Os remates travados a Oyarzabal e Laporte, mesmo antes do intervalo, foram os mais vistosos, mas Vozinha foi sempre o último garante de calma e tranquilidade num jogo de sobrevivência e coesão dos Tubarões Azuis, um estreante a deixar um gigante a zeros.
Uma das sete defesas de Vozinha ao longo do jogo com Espanha
Justin Setterfield
No final do encontro, o Mundial tinha encontrado o seu novo cult hero, ajudado pelo combustível colocado na fogueira digital pela CazéTV, do Brasil, que já durante o jogo, e perante tamanha exibição, desafiou quem seguia a emissão esta TV que transmite no YouTube a pegar nos telemóveis e apertar o botão “seguir” no Instagram do guardião, a jogar a partida mais importante da sua vida aos 40 anos.
O Mundial que faz parte da vida
Os caminhos de Vozinha e do futebol cruzaram-se mal ele nasceu, no Mindelo, São Vicente a 3 de junho de 1986. Dois dias antes, o Brasil tinha começado a sua participação no Mundial 1986, com uma vitória frente, curiosamente, frente à seleção espanhola. E durante essa fase de grupos, o lateral Josimar, na altura no Botafogo, marcou frente à Irlanda do Norte e voltaria a fazer golo frente à Polónia, nos oitavos de final.
Numa entrevista à televisão mexicana Telemundo, na véspera da estreia de Cabo Verde, em Atlanta, o pai de Vozinha explicou que escolheu o nome Josimar precisamente por ter gostado dos golos do defesa. “Marcou um golo e eu fiquei entusiasmado com aquele golo. E 40 anos depois, tendo colocado ao meu filho o nome de Josimar por causa do México 86, ele participa no Campeonato do Mundo”, sublinhou o progenitor, com um misto de orgulho e incredulidade, não sabendo na altura que a história ia ainda melhorar.
Conta a FIFA que houve uma primeira tentativa do pai de Vozinha de lhe colocar o nome Valdano, em honra do argentino que estava a dias de se tornar campeão mundial ao lado de Maradona quando o miúdo nasceu, mas que as autoridades cabo-verdianas não permitiram tamanha excentricidade. Ficou, então, Josimar.
Mas é por Vozinha que Josimar Dias se tornou conhecido no futebol, uma alcunha que vem da infância. Numa entrevista à FIFA, em 2024, o guarda-redes, um dos oito quarentões deste Mundial, explicou que foi criado pelos avós: “Nunca vivi com os meus pais. Quando nasci, o meu pai estava no serviço militar e a minha mãe tinha sempre de trabalhar. Então cresci com os meus avós.”
No sítio onde vivia, partilhou ainda, os rapazes eram todos muito mais velhos e Josimar sofria na hora de os enfrentar nos jogos de futebol. “Jogava na rua e levava muita pancada. Eu jogava bem com os pés, era competitivo e rebelde, não gostava de perder. Então levava muita porrada e ia para casa com raiva, de cara fechada. Eles gozavam comigo porque eu ia fazer queixas aos meus avós”. E daí o nome Vozinha.
Vozinha foi garante de segurança e tranquilidade na baliza de Cabo Verde
Icon Sportswire
O nome Vozinha ficou para gravado na pedra para o futebol quando, em 2012, o guarda-redes foi contratado pelo Progresso de Sambizanga, de Angola, onde conseguiu, aos 25 anos, finalmente tornar-se profissional, depois de jogar em clubes cabo-verdianos. No Progresso “já havia um outro guarda-redes chamado Josimar” e por isso foi Vozinha, o nome pelo qual toda a gente o conhecia em Cabo Verde, que foi parar à parte de trás da camisola.
Daí para cá, Vozinha tem construído uma carreira sólida fora de Cabo Verde. Ainda voltou ao Mindelense em 2015, mas seguir depois para o Zimbru da Moldávia. Teve uma primeira passagem por Portugal, no Gil Vicente, em 2016/17, e jogou depois cinco temporadas no AEL Limassol, de Chipre. Em 2022 foi contratado pelos eslovacos do Trencin, antes de regressar a Portugal, ao GD Chaves, que representa há duas temporadas.
A mãe sem visto
Podia não ser Vozinha ali, naquela baliza. Com a chamada de Bruno Varela, internacional jovem português e ex-jogador do Benfica e Vitória, o veterano guarda-redes perdeu espaço na seleção em 2023. Nesse processo, Cabo Verde falharia a qualificação para a CAN de 2025. Depois, Bruno Varela lesionou-se. Vozinha, que até tinha pensado abandonar a carreira internacional depois de deixar de ser titular, voltou a ser decisivo.
“Foi muito triste não estar no onze, mas no final foi ainda mais triste não nos termos qualificado, não porque não joguei, porque o mais importante é a seleção nacional. Foi uma altura difícil, cheguei a pensar deixar a seleção”, confessou em entrevista ao site Goalkeeper. “Todos os meus colegas de equipa falaram comigo, encorajaram-me a ficar por causa do Campeonato do Mundo. Fiquei por causa disso, porque era o meu sonho, o sonho de todos”.
Vozinha ficou e foi um dos capitães e jogadores mais importantes da caminhada vitoriosa de Cabo Verde na qualificação para o Mundial 2026, em que bateu equipas já com experiência de Mundiais como os Camarões e Angola. Cabo Verde ficou em primeiro lugar no seu grupo de qualificação - estaria no Mundial mesmo sem o alargamento para as 48 seleções.
As lágrimas do homem do jogo após o apito final
Patrick Smith - FIFA
Um dos primeiros abraços que um Vozinha em lágrimas recebeu após o apito final que confirmou a surpresa foi de Stopira, outro veterano desta equipa, que aos 38 anos foi herói da conquista do Torreense na Taça de Portugal.
No final, questionado pelas lágrimas, como se sete defesas frente a Espanha não fossem suficientes para, por si só, meterem um homem a chorar, Vozinha falou de outros motivos, bem mais próximos do seu coração. “Chorei porque eu cresci com os meus avós e eles não estão aqui, já faleceram”, começou por dizer, antes de explicar que a mãe não está presente nos Estados Unidos “por causa de problemas com o visto e do dinheiro que era preciso pagar” pelo processo.
A crueldade a que os Estados Unidos vetou muitos dos adeptos que desejavam ver as suas seleções tornou uma das mais heroicas exibições deste Mundial um pouco menos completa. Talvez a internet se junte de novo para que a mãe de Vozinha ainda possa ver o filho jogar neste Mundial.