Inglaterra: O pedregulho de Harry Kane para a seleção de Tuchel deixar o ‘quase‘
Harry Kane, um dos melhores futebolistas da última década, chega ao Mundial após brilhar no Bayern
Rich Storry
Finalistas vencidos dos dois últimos Europeus, os ingleses recorreram a um dos mais cotados técnicos da atualidade para, no pós-Southgate, quebrar um jejum que dura há 60 anos. O alemão não olhou a estatutos na realização da convocatória, que continua a ter no seu capitão a grande figura e candidato a estrela do Mundial
Há qualquer coisa de Sísifo na carreira de Harry Kane. O craque condenado a empurrar um pedregulho até ao topo de um monte, caindo, fatalmente, o objeto cá para baixo quando a tarefa parecia concluída, repetindo o esforço para todo o sempre.
Um dos mais fascinantes futebolistas da sua geração, Kane partilha esta ideia de suor, de superação, de trabalho árduo que se tem de fazer uma e outra vez, recomeçar, jamais se concluindo. Liderou a melhor equipa da história recente do Tottenham, fazendo-a lutar pela Premier League, mas sem obter a derradeira glória. Conduziu os Spurs à final da Liga dos Campeões, voltando a bater à porta da consagração, mas sem lá entrar.
Assinou pelo Bayern Munique. Fartou-se de marcar, mas viu o Leverkusen levantar a Bundesliga. Depois lá ganhou o campeonato alemão, mas a expedição até ao topo da montanha da Liga dos Campeões tem-no atirado, invariavelmente, de volta para a base, tendo de repetir a empreitada. Marcou 85 golos e fez 25 assistências nas duas primeiras temporadas na Alemanha - nesta na terceira campanha na Baviera, foram 61 golos e sete assistências.
Com a seleção a ideia de Sísifo ganha ainda mais força. Ele é o capitão, o guia de uma equipa nacional que no passado frequentemente se perdeu entre o caos e a polémica, desperdiçando gerações douradas. A era de Kane coincidiu com uma nova competitividade. Chegar a uma final. Puxar a pedra até ao cimo. Perder a decisão nos penáltis. Chegar a outra final. Puxar a pedra até ao cimo. Perder a decisão com um golo aos 86'. Recomeçar.
Campeão em França, na Alemanha e vencedor da Champions, Tuchel é um dos técnicos mais laureados do torneio
Eddie Keogh - The FA
Melhor marcador da história de Inglaterra, com 79 remates certeiros, e a 12 partidas do recorde de 125 internacionalizações de Peter Shilton, o londrino é, aconteça o que acontecer até ao fim da carreira, um dos grandes nomes da história da sua seleção. Mas, para erguer um troféu, para deixar o pedregulho no topo do monte, tem faltado sempre qualquer coisa.
Em muitas das fases finais anteriores, Kane apareceu esgotado. Sem reservas de energia, para lá dos limites do esforço físico, exausto por meses de dedicação aos clubes. No Mundial 2022 e no Euro 2024, vimos uma tendência no seu futebol: ele é demasiado criativo e bom assistente para ficar somente à espera para rematar, é excessivamente goleador para ser apenas um assistente nas costas dos atacantes; e estava fisicamente incapaz de fazer ambos os papéis, de construir e de finalizar, de ser o arco e a flecha.
Na sequência de meses brutais pelo Bayern Munique, Kane chega a este Mundial com ambição renovada. É, indiscutivelmente, um dos melhores futebolistas da temporada, candidato a estrela mais cintilante nos Estados Unidos, México e Canadá.
Para o ajudar no trabalho, para evitar que Harry seja Sísifo, Inglaterra fechou a era Southgate e entregou o banco a uma dasmentes mais brilhantesdo futebol internacional.
Não importam os nomes, interessa a equipa
Durante largas décadas, Inglaterra não se limitava a não ganhar torneios. Nem ficava perto.
Mirando apenas o histórico em Mundiais, houve ausências das fases finais em 1974, 1978 e 1994. Queda na fase de grupos em 2014, nos oitavos de final em 2010, nos quartos de final em 1970, 1986, 2002 e 2006. Entre a glória de 1966 e o ressurgimento recente, apenas concluiu nos quatro primeiros em 1990, com Gascoigne encantando em Itália.
Gareth Southgate assumiu a seleção num ponto especialmente baixo. Os precedentes mais próximos contavam uma eliminação aos pés da Islândia, no Euro 2016, e terminar o Mundial 2014 em último lugar de um grupo com Costa Rica, Uruguai e Itália. Apoiando-se na renovada capacidade do país em formar jogadores — note-se que, na última década, Inglaterra foi campeã do mundo sub-17 e sub-20 e campeã da Europa sub-19 e sub-21 — e no enriquecimento tático da Premier League, por via da presença de Guardiola, Conte, Klopp, Bielsa, Tuchel, Emery ou Arteta nos bancos da competição, Southgate criou um conjunto capaz de mirar os melhores olhos nos olhos.
Ficou-se sempre pelo quase. Meia-final do Mundial 2018 perdida no prolongamento, final do Euro 2020 nos penáltis, quartos de final do Mundial 2022 com um penálti desperdiçado aos 84' que daria o empate, final do Euro 2024 no limite. Findo Southgate, chegou um casamento de conveniência.
Cole Palmer e Phil Foden, dois dos principais ausentes da convocatória
Alex Grimm
Tuchel aterrou em Londres com uma missão clara. Ser campeão do mundo. Ao contrário de Southgate, não há uma grande visão de desenvolvimento do edifício das seleções inglesas, um processo de longo prazo. É chegar, competir, vencer.
Entregar a equipa a um alemão não surgiu sem polémica. A sala de troféus sustenta a opção: campeão francês e germânico, vencedor da Liga dos Campeões com o Chelsea, finalista da máxima prova de clubes do continente com o PSG, um especialista a eliminar, metódico, obsessivo.
Na antecâmara do Mundial, Tuchel foi Tuchel. Fiel às suas ideias, despiu os estatutos e criou a sua equipa, a sua lista. Maguire, pouco adaptado para uma equipa que não pretenda defender dentro da própria área, de fora. Alexander-Arnold, o mais específico dos laterais, de fora.
Durante o Euro 2024, Southgate cedeu à pressão mediática e juntou todas as estrelas no onze. O resultado foi uma equipa congestionada no espaço do número 10, onde jogava Belllingham e para onde fletia Foden e para onde recuava Kane e onde se inseria Palmer quando jogava. Tuchel tomou nota e, olhando à construção do coletivo, de uma lista coerente e submetida ao objetivo final, deixou Foden e Palmer de fora. É a sua equipa.
Harry Kane tem sido, ao longo dos anos, o melhor amigo dos que o rodeiam. Não foi tanto assim no Euro 2024, pela falta de movimentos e agressividade dos atacantes, todos esperando bola no pé, mas o atacante-passador ajudou Son, Sterling, Olise ou Luis Díaz a viverem alguns dos mais fulgurantes momentos das carreiras. É isso que Tuchel espera que o seu capitão volte a fazer, devolvendo ataque ao espaço e compatibilidade à dianteira, com gente como Anthony Gordon ou Morgan Rodgers visando a baliza.
O grupo, com a Croácia do eterno Modric, o Gana de Carlos Queiroz e o Panamá, tem, naturalmente, os ingleses como grandes favoritos. É de esperar, depois, um Tuchel em modo controlo, gerindo as eliminatórias e os momentos, procurando colocar o seu dedo de treinador, triunfando nos detalhes. Não há a pretensão de nada mais do que o fim da maldição. Tuchel e Kane, as grandes apostas para a festa inglesa a 19 de julho. Sem pedregulhos.