O croata Luka Modric, 40 anos, vai participar no seu 5º Mundial
Johnnie Izquierdo - FIFA
Aos 40 anos, o único croata a conquistar a Bola de Ouro prepara‑se para o derradeiro Mundial da carreira. Carrega consigo a leveza de quem domina o jogo e o peso de uma infância feita de sirenes, corredores de hotel e um avô perdido à porta de casa. Tal como Ronaldo e Messi, ele é o rosto, o coração e o cérebro idolatrado por toda uma geração e chega ao palco maior do futebol sabendo que cada toque pode ser o último capítulo de uma história que o futebol não voltará a escrever
Luka Modrić nunca precisou de grandes gestos para ser grande. A sua história sempre avançou em voz baixa, feita de passos certeiros, escolhas simples e uma serenidade que resistiu ao tempo. Vindo de um lugar onde nada prometia futuro e o futebol era mais refúgio do que promessa, tornou‑se um jogador mais do que idolatrado, indispensável. Chega a este seu quinto Mundial, como sempre chegou: discreto. É nessa quietude que continua a ser diferente de todos os outros. Há nele uma quietude que o acompanha, de quem cresceu a ouvir bombas antes de ouvir aplausos, de quem aprendeu a correr não para fintar, mas para sobreviver: o menino franzino de Zadar que cresceu em plena guerra, refugiado num hotel, órfão de avô - assassinado por milícias sérvias -, e habituado a treinar no parque de estacionamento porque não havia mais nada.
O próprio Modrić recordou esse período ao “Guardian“: “Coisas que não são bonitas acontecem na guerra, mas não guardo ódio.”
A morte do avô, também chamado Luka Modrić, é o ponto zero da sua história. Foi assassinado em 1991, perto da aldeia de Modrići, num dos primeiros episódios de violência da guerra. A família fugiu de imediato, e Luka deixou para trás a casa, os animais e a infância que ainda mal tinha começado. Acabou por viver durante anos deslocado no Hotel Kolovare, em Zadar, transformado em abrigo para centenas de famílias.
Anos mais tarde, Modrić escreveria na sua autobiografia intitulada “My Game” [A Minha História], que a lembrança desse dia continua a doer, como se a imagem do avô caído à porta de casa nunca tivesse fechado dentro dele. Recordou que, aos 10 anos, quando a escola pediu às crianças que escrevessem sobre algo marcante, ele não falou de futebol: escreveu sobre granadas, sobre o medo e sobre a perda que o moldou demasiado cedo. Cresceu assim, entre corredores de hotel improvisados como casas e um parque de estacionamento que servia de campo de futebol, a transformar o trauma numa força silenciosa que o acompanharia para sempre.
Luka Modric em 2006, durante um jogo amigável entre a Croácia e a Argentina
Adam Davy - EMPICS
O seu percurso é feito de superação: rejeitado em jovem por ser “demasiado pequeno”, foi emprestado ao Zrinjski Mostar, da Bósnia, uma liga dura, quase hostil, onde cimentou a robustez mental que o acompanharia para sempre. Em 2004, foi eleito Jogador do Ano da Liga da Bósnia, um detalhe que poucos recordam, mas que diz muito sobre a sua capacidade de adaptação.
Tornou-se para a Croácia aquilo que Cristiano Ronaldo significa para Portugal ou Lionel Messi para a Argentina, mas com uma diferença grande: Portugal e Argentina têm décadas de tradição, títulos, academias consolidadas, uma cultura futebolística que se tornou exportação nacional. A Croácia, muito mais jovem enquanto país e muito mais pequena em escala, teve de construir tudo isso quase do zero. É por isso que Modrić se torna tão singular: porque elevou uma seleção que ainda estava a aprender a ser potência, e fê-lo com a naturalidade de quem já nasceu para comandar.
O Mundial de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, será a sua despedida dos grandes palcos internacionais, na última dança de um maestro que, durante duas décadas, carregou uma nação de pouco mais de quatro milhões de habitantes até às maiores glórias do futebol mundial.
Luka Modric chuta para golo, durante a partida entre Inglaterra e Croácia, no Estádio de Wembley, de qualificação para o Euro 2008
Laurence Griffiths
Luka Modrić foi o farol que levou a Croácia à final do Mundial de 2018 e ao terceiro lugar em 2022, no Catar, onde conquistou a Bola de Bronze como terceiro melhor jogador do torneio. Em 2018, o médio do AC Milan conseguiu o impensável: quebrar a hegemonia de Messi e Ronaldo na Bola de Ouro, tornando-se o primeiro jogador desde Kaká, em 2007, a erguer o troféu mais cobiçado do futebol individual. Nesse mesmo ano, acumulou praticamente todos os prémios individuais existentes: o prémio The Best, da FIFA, o prémio da UEFA de melhor jogador a atuar na Europa e a Bola de Ouro do Mundial da Rússia, onde capitaneou a Croácia até à final, a maior conquista de sempre da seleção.
A estes dados junta-se o seu impressionante registo de longevidade na Europa, onde se fixou como o jogador mais velho de sempre a marcar na história dos Campeonatos da Europa (no Euro 2024, com 38 anos e 289 dias). Sem esquecer que, em 2023, liderou a Croácia até à final da Liga das Nações, em mais uma prova de que, mesmo já veterano, continuava a ser o motor competitivo da equipa.
A ligação de Modrić à seleção croata é, por isso, única: é o jogador mais internacional de sempre do país, com quase 200 jogos e 29 golos; participou em todas as fases finais de Campeonatos do Mundo para as quais a Croácia se qualificou desde 2006 e em todos os Europeus desde 2008; foi eleito 14 vezes Futebolista Croata do Ano, um recorde absoluto.
O médio croata recebeu a Bola de Ouro, em 2018
Aurelien Meunier
A imprensa croata chama a esta seleção que esta quarta-feira faz a sua estreia frente a Inglaterra em Arlington, no Texas, a “segunda geração dourada” porque vê nela o eco da primeira grande seleção do país, a de Šuker, Boban (o ídolo de infância de Modric) e Prosinečki, que levou a Croácia ao terceiro lugar no Mundial de 1998, logo na sua estreia como nação independente. Se aquela geração abriu o caminho, esta, liderada por Modrić, foi a que a levou mais longe, transformando um país pequeno numa presença constante entre as melhores seleções do mundo.
Depois de deixar o Real Madrid em julho de 2025, onde se tornou o jogador mais titulado da história do clube, com 28 troféus, incluindo seis Ligas dos Campeões, Modrić rumou ao AC Milan para prolongar a carreira. Apesar de ter a opção de prolongar o vínculo por mais um ano, tudo aponta para que uma decisão final sobre a sua carreira só seja conhecida após o Mundial - se continuar será treinado por Ruben Amorim na próxima época.
Ao longo da carreira, Modrić colecionou títulos, prémios e recordes, mas talvez o elogio mais revelador venha daqueles que o treinaram. Slaven Bilić, que o lançou na seleção croata, via nele um talento raro muito antes de o resto da Europa o descobrir: durante o Euro 2008 dizia-lhe repetidamente que era "o melhor jogador da Europa" e chegou mesmo a afirmar que esperava vê-lo tornar-se o melhor jogador do torneio.
Harry Redknapp, que o acompanhou no Tottenham, considerava-o “insubstituível” e recordava uma observação de Alex Ferguson que dizia tudo: “Pode jogar em qualquer equipa.” Já Carlo Ancelotti, que o dirigiu durante alguns dos anos mais gloriosos do Real Madrid, descreveu-o como um dos melhores jogadores que alguma vez treinou: “O Modric é único. Não há outro jogador como ele no planeta”. Três treinadores, três gerações e a mesma conclusão: Modrić pertence a uma categoria rara de futebolistas cuja influência vai muito além dos números.
Luka Modric (no centro) festeja um golo que marcou contra a Eslovénia, no último amigável da Croácia antes do Mundial 2026
Pixsell/MB Media
Em 2025, Luka Modrić foi para o AC Milan, o clube com que sonhava em criança, não para terminar a carreira, mas para continuar. Em San Siro, tornou-se o veterano que não envelhece, o jogador que não precisa de correr mais do que os outros porque vê antes de todos. Há quem diga que ele já não joga com o corpo, joga com a memória. Mas terminou a temporada 2025/26 com uma enorme deceção porque se a equipa rossonera esteve invicta da segunda até à 25.ª jornada, no momento decisivo desabou: perdeu sete dos últimos 13 jogos da Serie A e acabou em 5º lugar, fora da próxima Liga dos Campeões. Para completar o cenário, viu o título escapar para a arquirrival Inter de Milão.
Entretanto, no final de abril, sofreu ainda uma lesão no rosto após um choque com Manuel Locatelli no jogo contra a Juventus, a 26 de abril, sendo posteriormente operado à parte esquerda do osso da face, passando a jogar de máscara.
A última convocatória
Fora de campo, Modrić continua ancorado naquilo que sempre o manteve inteiro: a família. Casado com Vanja Bosnić desde 2010, pai de três filhos, Ivano, Ema e Sofia, encontrou na vida familiar a estabilidade que nunca teve em criança. É nesse núcleo discreto, longe das câmaras, que Modrić se refugia, e é também daí que retira a serenidade com que atravessa cada fase da carreira, mesmo as mais duras.
Em abril de 2025, surpreendeu o mundo do futebol ao tornar-se investidor e coproprietário minoritário do Swansea City, histórico clube galês que compete no segundo escalão inglês. O movimento foi descrito pelo jornal britânico “Guardian“ como uma transição “surpreendente, mas reveladora da sua visão para o pós-carreira”, servindo como o seu primeiro passo oficial nos bastidores da gestão desportiva. Longe de ser apenas um investidor silencioso, Modrić assumiu o compromisso de usar a sua influência global e experiência para ajudar o emblema de Gales a captar novos talentos e patrocínios, iniciando um novo capítulo empresarial ao lado de outras figuras mundiais da cultura e do entretenimento que também entraram na estrutura do clube.
Este será (quase) certamente o último grande torneio de um homem que, como poucos, provou que o génio não se mede em centímetros nem em força física, mas em visão, inteligência e uma elegância intemporal com a bola nos pés. Modrić é daqueles jogadores que fazem o futebol parecer fácil.
A Croácia entra no Mundial no Grupo L, ao lado de Inglaterra, Gana e Panamá, onde o duelo com os ingleses será provavelmente o mais duro. Se avançar, a Croácia cruza com o Grupo K, onde mora Portugal e aí, Modrić pode reencontrar muitos dos rivais que enfrentou durante anos na Liga dos Campeões.
O futebol mundial sabe que, quando o número 10 croata pendurar as chuteiras, fechará um dos capítulos mais brilhantes da história do desporto. E talvez seja esse o maior legado: não o que ganhou, mas o que fez os outros sentir.