Okay, Houston, tivemos aqui um problema, Portugal jogou assim-assim
Cristiano Ronaldo a clamar ao teto do estádio coberto de Houston durante o empate de Portugal contra o Congo, na estreia no Mundial 2026
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A seleção nacional estreou-se no Mundial com uma igualdade (1-1) apesar de ter entrado bem no jogo com o Congo: dona da bola, também da iniciativa, a seleção nacional marcou cedo, por João Neves, mas tentou logo adormecer o jogo com a sua preferência pelo controlo. Mas, quando os africanos mudaram o ritmo e Portugal manteve o seu, sofreu um golo. Os portugueses só mexeram na sua lentidão a trocar passes na segunda parte, nos momentos em que Francisco Conceição atacou a área. Foi pouco
Houston não destoa, no casulo de betão do estádio a música não toca, berra, as cheerleaders surgem a um canto da bancada, com pompons, hiperativas a dançar, no topo estão os dois maiores ecrãs gigantes que podem imaginar. O show impera, ao show os adeptos são fiéis e eles vibram com Cristiano Ronaldo, o maior dos shows, nem a frase pela qual é afamada a cidade do primeiro jogo de Portugal neste Mundial escapa à atração: o “Houston, we have a problem” dito, em 1970, por um dos astronautas da missão Apollo 13 quando ouviram uma explosão na nave a mais de 300 mil quilómetros da Terra não foi bem assim.
Só que a NASA, anos depois, batizou com essa frase um programa de rádio seu dedicado a pormenorizar a história, soava melhor assim, e um guionista de Hollywood, na década de 90, pô-la na boca de Tom Hanks no filme que popularizou a história, por ficar na orelha, como fica ouvir milhares a gritarem o “siiiu” popularizado por Ronaldo mal a seleção entrou o campo para aquecer, a entoarem o seu nome, em coro, logo ao primeiro minuto de jogo, ou a irromperem num bruá quando o capitão, fora da área, recebeu a bola e ameaçou rematar pouco depois. Mas a bola não era dele.
Era de Portugal, mandão desde o arranque, a pegar na iniciativa que lhe competia por talento e valor. Com Vitinha e João Neves juntos a filtrarem os primeiros passes, João Cancelo e Nuno Mendes bem projetados nas alas, a seleção quis fazer dançar o bloco compacto do Congo, paciente à espera perto da sua área. Difícil de furar pelo centro, a seleção tentou por fora, cedo lhe correu bem quando João Neves, o único de camisola aprumada dentro dos calções, surgiu de cabeça na área a desviar o cruzamento do lateral esquerdo.
O baixinho João Neves a saltar mais alto que Tuanzebe, central do Congo, e a marcar o golo de Portugal
Joe Buvid/ISI Photos
O golo nada mudou, antes acentuou a tendência. Prevaleceram as longas posses de bola da seleção, duradouras como o húmido calor de Houston. À exceção dos remates de Yoane Wissa e Cédric Bakambu, consecutivos a entrarem na zona de Renato Veiga após o Congo descobrir abertas nas costas dos médios portugueses, o jogo virou soporífero, cheio de demoradas posses de Portugal, de largos minutos, sem quererem nada com a velocidade. A seleção nacional parecia jogar à rabia, tal a prioridade dada ao controlo e a indiferença dos congoleses na pressão.
Até quem manda no estádio projetou nos ecrãs um conhecido influencer, vestido à Portugal, para imitar o festejo de vocês sabem quem, e a plateia acordar e o imitar. Um pouco de show forçado enquanto o espetáculo no campo estava morno. Cumprida a primeira pausa de hidratação, que é como quem diz finda a primeira parte da partida, que para quem a vê pela televisão significa uma interrupção para publicidade, o Congo quis mudar a tendência.
Os seus avançados deram uns passos em frente, chatearam mais os centrais no princípio do jogo português, Vitinha deixou de tocar na bola tão à vontade. Os pés de Diogo Costa foram chamados, eram precisos na saída da área e o guarda-redes, por um par de vezes, hesitou na cara da pressão congolesa. O velocímetro da partida agitou-se. Obrigado a pensar e a agir mais rápido, Portugal encurtou a duração das suas jogadas, que ganharam algum risco forçado que provocou mais passes falhados, mais erros, e bastante menos controlo.
As jogadas da seleção deixaram de entrar tanto na metade do campo dos africanos, decididos a arrastarem o jogo para os duelos provocados por marcações individuais. O Congo acelerou o ritmo, mas Portugal manteve o seu. Bruno Fernandes pouco tocava na bola, Bernardo Silva deixava-a fugir quando esta lhe chegava. Apenas João Neves e as suas pilhas Duracell se sintonizaram com a evolução do jogo forçada pelo Congo que, aos poucos, acumulou transições rápidas nas perdas de bola da seleção nacional que custaram horrores aos portugueses de acompanhar. E nos últimos segundos dos descontos, num canto, Yoane Wissa saltou sozinho na área para empatar.
Yoane Wissa, avançado congolês, a saltar sozinho na área de Portugal para marcar o golo do empate
Julian Finney - FIFA
O apito do intervalo soou no instante seguinte. Os jogadores de azul saíram do campo a sorrir, quase em festa, com os espíritos cá para cima, e os portugueses cabisbaixos, sem darem o espetáculo ansiado por milhares nas bancadas onde predominava o apoio a Portugal. E o expoente da adoração estava discreto. Pouco móvel na frente de ataque a não ser para recuar, fugir da área e dar uns toques inconsequentes na bola em zonas de perigo para ninguém, via-se Cristiano de vez em quando, mas dele pouco se via.
Lá se viu quando simplificou, fazendo de parede na área, colocando-se entre central e lateral para receber um passe e a dois toques, simples e prático, lançar o embalado Nuno Mendes. O cruzamento rasteiro não foi emendado por pouco. Era este um dos caminhos, para Ronaldo e para a seleção: promover combinações nos espaços entre os congoleses, ter gente a surgir a correr de trás, acelerar assim os ataques, não ser só aumentar a contagem de passes feitos. Noutra jogada parecida, o peito de João Neves ajeitou o cruzamento de Pedro Neto para Cancelo chutar de bicicleta. A bola entrou, mas houve fora de jogo.
Francisco Conceição entrar para o lugar de Bernardo no descanso foi outro sinal. Portugal ganhava um acelerador, não podia ser só rame-rame, um estilo morno funciona apenas se servir de base para uns arrepios de frio repentinos. O Congo, sentido o toque, ameaçou logo a seguir, outra vez os avançados a provocarem dúvidas nos buracos entre médios e centrais, de novo Renato Veiga demasiado hospitaleiro. Virando-se com a bola na área, Cédric Bakambu rematou a bola com brutidão contra o poste esquerdo da baliza.
O jogo depois regressou às chuteiras da seleção nacional, devolvida ao meio-campo adversário, mais controladora a preparar os momentos em que punha alguém a entrar no espaço entre o lateral congolês, atraído para o jogador que dava a largura, e o defesa central mantido na dúvida entre dar cobertura ou seguir o português que atacava esse buraco. Foi onde ‘Chico’ Conceição apareceu, entrou pela área e, ao invés de rematar, serviu Ronaldo com uma bola descalibrada, um pouco para trás do pé direito do capitão. O primeiro remate de Cristiano saiu tosco, não proporcionou espetáculo, mas era um raro movimento de aplaudir a Portugal.
Cristiano Ronaldo a agradecer um cruzamento que quase lhe chegou na área
Icon Sportswire
Tão pertinente se provou essa intenção que mal o jogo foi retomado para a quarta parte, imediatamente após outra pausa contra o calor não existente no estádio refrigerado de Houston, a seleção repetiu a jogada, tirando uma fotocópia, Conceição outra vez furou os congoleses, passou a Cristiano e a batida do capitão, agora em cheio na bola, falhou a baliza. Nélson Semedo e Rafael Leão entraram pouco antes, pouco depois Bakambu, na outra área, assustou com um remate que podia ter entrado na baliza. Os contra-ataques do Congo, menos frequentes, ainda existiam.
Atinar a defesa portuguesa sem Rúben Dias será uma prioridade para as próximas núpcias de Portugal no Mundial, destapada que se mostrou, de novo, na derradeira aproximação do Congo à baliza portuguesa: Renato Veiga foi cortar a jogada, o lançamento lateral dos africanos saiu rápido, Tomás Araújo deixou-se atrair para a mesma zona do outro central, ficaram juntos a um lado e Portugal defendeu o cruzamento, saído torto, com João Neves e Vitinha, os seus mais baixos, na área. Já decorriam os últimos 10 minutos, Gonçalo Ramos entraria para fazer companhia a Ronaldo.
Entre dribles forçados, e perdidos, de Rafael Leão, entremeados com cruzamentos em demasia, a seleção não incomodou mais a fortaleza congolesa que agradeceu a gentiliza, ao preferir lidar com problemas deste tipo, apta com os seus três centrais, Chancel Mbemba à cabeça, para cortar solicitações vindas pelo ar. A última ameaça de Portugal veio do pé de Bruno Fernandes, rematando de fora da área na reciclagem de um cruzamento infrutífero; na ressaca do lance, Yoane Wissa ainda cavalgou sozinho num contra-ataque rápido ameaçador do Congo - uma fotografia geral adequada para a partida.
Alguns jogadores portugueses, no final do jogo, cabisbaixos a abandonarem o campo
Michael Regan - FIFA
O último apito repetiu o cenário do intervalo, os congoleses pularam e celebraram, felizes com o ponto, enquanto as cabeças dos portugueses encolheram entre os ombros. A bola na estreia no Mundial foi de Portugal, a iniciativa igual, as expectativas também já estavam do seu lado, mas, em campo, entusiasmou pouco. A confundir controlo com lentidão, rígida no jogo posicional de Roberto Martínez onde, desta feita, nem se viu um lateral a aparecer pelo centro do campo para fingir desordem, como é costume, a seleção só se fez perigosa quando tentou algo diferente, o tal rasgo de alguém a atacar o espaço inesperado.
Rareou o espetáculo, se é que existiu, e a América bem que adora um bom pedaço de showbiz. Não foi Cristiano a dá-lo onde o dito deve acontecer, em campo, onde teve 90 minutos aos 41 anos, inócuo na sua sexta edição do torneio. Não foi o único. Ele e a equipa não deram show, nem de perto, privando Houston do que provocou uma das frases mais repetidas e certamente a pior citada da história. Em 1970, lá em cima em órbita, o astronauta James Lovell disse ao Centro Espacial da NASA, que fica a uns quarenta quilómetros deste estádio, um mais palavroso “Okay, Houston, we’ve had a problem here”, não tão apetecível para o ouvido como o repetido à exaustão “Houston, we have a problem”.
A cultura do que fica melhor para ser vendido alterou a frase para consumo das massas, primeiro na rádio, depois em Hollywood, celebrizando uma citação mal feita. Calha melhor respeitar a original, mais exata para resumir a estreia no Mundial de uma versão de Portugal pouco apta a ficar gravada na memória: porque houve aqui um problema em Houston, onde a seleção não entusiasmou e jogou assim-assim. Na próxima terça-feira cá regressará, contra o Usbequistão.