Talvez a comitiva portuguesa leve um dicionário na bagagem. Para matar o tempo nos longos dias de espera entre jogos, desafiando o tédio e o calor em Palm Beach, no hotel perto da residência de Donald Trump onde a seleção ficará, jogadores, treinador e presidente podem debater a divergência discursiva que se apoderou do grupo.
Pedro Proença não tem ido com meias-palavras. Diz que a esperança está “no máximo”, que a ambição é “sem limites”, que “não chegar acima dos quartos de final” representará um “torneio muito curto”. Bernardo Silva concretizou a ambição. “Ganhar o Mundial é um sonho, um objetivo e uma grande oportunidade”, classificou o segundo mais internacional da convocatória. No entanto, Roberto Martínez tem apelado ao “realismo”, mencionando que erguer o troféu é “um sonho”, somente passando a objetivo “quando já foi feito”.
Reside maior prudência oratória no espanhol que se senta no banco do que no presidente da Federação. Talvez a ausência de sintonia seja mais um sintoma de um divórcio anunciado, somente adiado pelo êxito na Liga das Nações. Seja como for, a qualidade do plantel obriga a cruzar o Atlântico com o estatuto de candidato a erguer o título na final de 19 de julho.
Instalado no Grupo K, Portugal é uma das últimas seleções a entrar em campo, estreando-se esta quarta-feira, às 18h, contra a República Democrática do Congo, em Houston. Segue-se o Usbequistão, a 23 de junho, também em Houston, e fecha-se a fase inicial contra o adversário teoricamente mais poderoso, a Colômbia, dia 28, em Miami.
Com os dois primeiros de cada um dos 12 grupos e os oito melhores terceiros seguindo para os 16 avos de final, não aceder ao ‘mata-mata’ representaria um dos maiores descalabros da história do futebol nacional. Caso a participação não seja “muito curta”, citando Proença, haverá, pelo menos, o igualar de 1966 e 2006, as duas únicas ocasiões em que Portugal esteve entre os quatro primeiros.
Justificando-se com os amigáveis disputados em março nos Estados Unidos e no México e com a circunstância de disputar os dois primeiros desafios num recinto fechado, a comitiva somente abandona o estágio na Cidade do Futebol na sexta-feira, já depois de a bola ter começado a rolar no torneio. A opção foi treinar em casa e realizar dois amigáveis em solo nacional. Frente ao Chile e Nigéria, além da grande rotação de jogadores, uma das notas de maior destaque foi o pouco fulgor demonstrado por Cristiano Ronaldo, que se mantém como absolutamente indiscutível para Bob. Diogo Costa, Rúben Dias, Nuno Mendes, Vitinha e Bruno Fernandes também partem com lugar fixo no onze.
Os caminhos de Portugal
A incerteza quanto aos terceiros que avançarão para os 16 avos de final complica as antevisões, mas é possível traçar alguns cenários quanto ao futuro nacional na competição. Se vencer o grupo, Portugal beneficiará de mais tempo de descanso e defrontará, em Kansas City, um terceiro classificado. Seguir-se-ia uma eliminatória em Vancouver, o regresso a Kansas, meia-final em Atlanta e a final em Nova Jérsia. Neste caminho, progredir até aos quartos de final seria, em teoria, um pouco mais acessível, podendo aí haver um histórico embate contra a Argentina de Messi.
Convém sublinhar que estas projeções partem da premissa da lógica a prevalecer e os favoritos a cumprirem, o que frequentemente não sucede. Seja como for, no campeonato das hipóteses, se a seleção for segunda do grupo, terá vida bem mais complexa. Percorreria distâncias maiores, com 16 avos em Toronto, oitavos de final em Dallas e depois indo a Los Angeles, e calharia primeiro contra o segundo classificado do Grupo L (Inglaterra, Croácia, Gana e Panamá) e depois, possivelmente, frente a Espanha. Caso a equipa de Martínez desiluda e passe como terceira, a logística até proporcionaria uma curta viagem até Atlanta, mas possivelmente para esbarrar logo perante os ingleses.
Para Portugal, uma das metas passará por contrariar a histórica dificuldade face à oposição não europeia. Este século, em Mundiais já houve derrotas com Estados Unidos, Coreia do Sul, Uruguai e Marrocos e empates com Costa do Marfim e Irão. O caminho para o sonho, ou objetivo, ou oportunidade, passa por não ser eurocêntrico.