O jogador de 21 anos marcou ao minuto 6 do encontro contra a RD Congo
Carmen Mandato - FIFA
Fez várias tarefas ao mesmo tempo na estreia da seleção no Mundial 2026, mas foi particularmente efetivo a cravar-se na grande área, onde marcou o golo da equipa de Roberto Martínez. Por isso, João Neves foi escolhido pela redação da Tribuna Expresso como a figura do Portugal-RD Congo. Veja aqui os destaques (positivos e negativos)
João Neves não parece ter uma só existência. A omnipresença leva-nos a acreditar que existem outros em linhas temporais paralelas e que entre eles combinaram um encontro em Houston.
Do que se conhece do multiverso, há várias versões de João Neves: o invasor de grandes áreas, o recuperador de bolas e o construtor. No Portugal-RD Congo, todos se fundiram.
Num certo momento da estreia da seleção nacional no Mundial 2026, o médio solicitou a bola no pé para tentar acelerar a construção. Após não a ter recebido, fez uma correria desenfreada para procurar o espaço nas costas da defesa. Podem-lhe dar dois papéis em simultâneo que ele cumpre.
No entanto, foi mais efetivo quando se cravou na zona de finalização. Ainda não tinha chegado ao 1,74m que tem hoje e já se dizia nos corredores do Seixal que andava por lá um miúdo sempre aos pulos. Até que se crie uma regra que proíba o uso de molas nos pés, João Neves vai voar.
O médio do Paris Saint-Germain em modo recuperador
Michael Regan - FIFA
A impulsão foi-lhe particularmente útil para responder ao cruzamento de Pedro Neto, logo aos seis minutos. As aparências não lhe têm um espaço reservado naquela altitude, mas a pulga intrometeu-se para cabecear.
No momento em que adiantou a seleção nacional, tornou-se no terceiro mais jovem de sempre a marcar por Portugal num Campeonato do Mundo (21 anos e 8 meses). O recorde continua a pertencer a Cristiano Ronaldo (21 anos e 4 meses).
O médio é resultado de uma série de equívocos entre ligações que damos por certas. Ninguém pula como ele, apesar de ser baixo. Ainda atravessa a meninez, mas já cativou a maturidade.
Ao contrário do que a ficção científica sugere, Portugal só tem mesmo um João Neves. Não podendo reproduzi-lo, não assentava mal a outros assumirem o seu espírito.
🔥 O esperto
O extremo a quem Martínez gosta de chamar espalha-brasas
Anadolu
Francisco Conceição: estar no banco de suplentes não é uma condenação quando se usa o ponto de vista exterior para identificar lacunas e tentar resolvê-las. Francisco Conceição entrou como uma daquelas avós que se dizem muito modernas e, por isso, são tidas como prafrentex. Foi esperto em colmatar, no início da segunda parte, alguns dos problemas. O extremo parece funcionar de uma maneira autónoma, sendo capaz de desviar mais do que um adversário mesmo quando a equipa está a cometer um sacrilégio. Alterando o propósito da posição face ao antecessor, Bernardo Silva, assistiu Cristiano Ronaldo em duas situações que podiam ter dado à estreia portuguesa outro encanto. Talvez, como fez contra a Nigéria no último jogo de preparação, o melhor fosse ele próprio ter tentado resolver.
❌ O beneficiário
O capitão não teve motivos para sorrir
picture alliance
Cristiano Ronaldo: a RD Congo defendeu (e muito), mas o posicionamento da linha mais recuada não foi propriamente baixo. A estéril presença de Ronaldo não convenceu os cinco elementos da retaguarda de que, em algum momento, o avançado lhes pudesse escapar com um movimento mais repentino. A apatia do capitão permitiu à equipa africana encurtar o espaço entre setores, ou seja, os médios da seleção nacional perderam espaço. Com o jogador do Al-Nassr igualmente petrificado no momento defensivo, Portugal não teve como ser eficaz na reação à perda da bola. Santo António já se acabou, mas as titularidades em homenagem a São Cristiano estão para durar. O deputado do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, recusou o convite da Federação Portuguesa de Futebol para assistir ao jogo em Houston, sugerindo que a regalia fosse dada a alguém que “raramente tem a oportunidade de ver a seleção ao vivo”. O organismo liderado por Pedro Proença parece ter aceitado a sugestão e colocado essa pessoa a jogar lá na frente. No início do processo de decadência, aceitava-se que a capacidade de finalização substituisse a velocidade que, com o passar dos anos, perdeu. Depois, deixou de conseguir pressionar para logo também deixar de possuir habilidade para baixar e relacionar-se com os colegas. Todos os dias Cristiano Ronaldo perde e Roberto Martínez vai-se contentando com um esqueleto.
🐦 As pombinhas da Catrina
Wissa saltou sem marcação
Alex Slitz
Diogo Costa, Tomás Araújo e Renato Veiga: quando não se consegue injetar atitude competitiva ao longo das fases de qualificação e nos amigáveis, a dormência contagia as fases finais. O cruzamento de Masuaku foi lento e bombeado, características que ajudam quem defende. Diogo Costa gritou é minha, Tomás Araújo afirmou outra é tua e Renato Veiga disse outra é de quem a apanhar. Ninguém a apanhou, exceto Yoane Wissa, o marcador do golo da RD Congo. Os centrais equivocaram-se nas abordagens defensivas, acertando exclusivamente nos adversários ou mesmo na poça de ar diante dos próprios pés. Comprometeram.