Manzambi interrompe com estrondo o diálogo entre o senhor repetente e o senhor silencioso e decide o Suíça-Bósnia
Manzambi festeja o 1-0
Soccrates Images
Um bis do jovem médio foi a chave do triunfo (4-1) dos helvéticos, que respondem da melhor forma ao tropeção diante do Catar e praticamente selam a passagem à seguinte ronda. Arbitrado por João Pinheiro, boa parte do encontro redundou num impasse, com poucas oportunidades, até Manzambi sair do banco para ser protagonista
Imagine-se uma pequena mesa, instalada em Los Angeles, com dois homens lá sentados. De um lado estava um indivíduo experiente, com muitas batalhas, que as vai contando através da repetição, serenamente, aplicando as mesmas fórmulas, mastigando e até engasgando as narrativas, confiante na sua lentidão. Do outro estava quem optava mais pelo mutismo, o silêncio, até o nada. O nada futebolístico, um jogar baseado na passagem do tempo, o cronómetro como amigo.
Deu-se assim parte do Suíça-Bósnia. Os helvéticos vivem neste Mundial com a fórmula das últimas décadas, uma seleção que por vezes dá a ideia de querer viver eternamente em 2014, um Brasil constante, só que sem Shaqiri. Xhaka e Ricardo Rodriguez chegaram às 288 internaconalizações entre eles, estão na sétima fase final de mão dada, Embolo e Elvedi vão na sexta, Freuler e Akanji na mão-cheia. Não é bem a aposta na continuidade, é a continuidade, ponto final.
A Bósnia, após tirar Itália da fase final, chegou aqui apostada no pontinho, um empate depois outro depois outro e fé em ser um dos melhores terceiros. Conseguiram um 1-1 diante do Canadá, não o lograram perante a Suíça.
Na sequência de 70 minutos amigos do sono, Murat Yakin, altamente criticado após ceder dois pontos na ronda inaugural face ao Catar, operou uma tripla substituição. Entraram Sow, Vargas e Manzambi e o sono virou entusiasmo, com quatro golos até final.
O 4-1 atira, virtualmente, a mais cotada destas duas formações para a fase a eliminar. A Bósnia, contra o Catar, deve ficar obrigada a somar três pontos.
Uma fotografia para João Pinheiro guardar
Alex Livesey - FIFA
Uma fotografia para João Pinheiro guardar
Alex Livesey - FIFA
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Manzambi é como o ingrediente que varia na repetida receita suíça, o caos inserido na ordem, a diferença no discurso reiterado. Tem 20 anos, joga como quem ainda se está a descobrir, mas essa irreverência é o fator que falta para este coletivo.
Aos 74', após uma hora e 15 minutos de impasse, as apostas vindas do banco começaram a render. Manzambi deu em Vargas, este cruzou, a defesa da Bósnia aliviou mal, Manzambi pontapeou a monotonia. Era o 1-0 e a porta de entrada para outro desafio, caminhando por estradas radicalmente diferentes ao visto até ali. Zero golos nos primeiros 74', cinco até ao apito final.
A comandar o encontro esteve João Pinheiro, debutando num Mundial. Interrompe 12 anos sem presença da arbitragem portuguesa no maior palco planetário, sucedendo a Pedro Proença. Teve uma atuação certeira, tendo de expulsar um bósnio e assinalar um penálti, ambas as decisões acertadas.
Ao contrário do sucedido perante o Canadá, Dzeko foi titular na Bósnia. Aos 40 anos, o grande ídolo nacional, que passou parte da infância debaixo do cerco a Saravejo, vivendo com outras 14 pessoas no pequeno apartamento dos avós e sabendo que ir jogar à bola na rua equivalia a risco de morte, tentou ligar futebol, mas a equipa de Barbarez, até ao golo já nos descontos, pouco ameaçou Kobel. Um dos disparos mais perigosos até foi de Dedic, que, defensivamente, sofreu com a velocidade de Ndoye.
Dean Mouhtaropoulos
Dean Mouhtaropoulos
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Até ao festival de golos, Ndoye foi o mais desequilibrador dos de vermelho. A Suíça circulava com ordem, mas, até ao descanso, incapaz de ferir os de branco. Após o intervalo, houve mais sentido ofensivo. Vasilj, com uma grande defesa, evitou que de um cruzamento de Xhaka e de uma bicicleta de Ndoye saísse um dos golos do torneio.
Os helvéticos já estavam mais perigosos aquando da tripla substituição, mas Manzambi foi mesmo a chispa que escasseava. Apontou o 1-0 e, logo a seguir, isolou Embolo, que foi rasteirado por Muharemovic. Cartão vermelho. Quatro minutos passados, o outro suplente de grande impacto, Vargas, sentenciou quem seriam os donos dos três pontos.
Manzambi ainda teria outro momento de protagonismo, assinando o 3-0, novamente servido por Vargas. Mahmic, logo após entrar para o lugar de Dedic, fez o 3-1, antes de Xhaka, de penálti, fixar o resutaldo final. O capitão da Suíça viveu uma rara ocasião em que, no adversário, havia muita gente a partilhar a sua falta de simpatia — usando eufemismos — para com a Sérvia. Foi a 27.ª presença de Granit em fases finais, a segunda de Manzambi. É desta mistura que pode sair o ouro para a Suíça.