No Haiti de 2004, a esperança não chegava pelo voto, nem pela política, nem pela ONU. Chegou num avião militar, vestida de amarelo e verde, rodeada de soldados. E, por um dia, o país fingiu que isso bastava. Uma suspensão temporária da violência, uma pausa respiratória num país que vivia entre milícias, raptos, barricadas e a sensação permanente de que o Estado existia apenas no papel. Não é preciso romantizar o que aconteceu para reconhecer a dimensão daquele dia 18 de agosto. Basta recuperar uma frase que atravessou os anos: “O Haiti parou para ver o Brasil.”
O Haiti naquele tempo era um país exausto. Jean-Bertrand Aristide tinha sido afastado do poder, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) acabara de chegar ao terreno e o Brasil tinha assumido o comando militar da operação que envolveu quase 7 mil militares . A violência urbana era quotidiana, as instituições encontravam-se fragilizadas e a comunidade internacional procurava demonstrar que ainda existia um caminho possível para a estabilidade.
É neste contexto que nasce o chamado “Jogo da Paz”. A designação ficou para a História, mas nunca contou toda a história. Porque aquele encontro entre Haiti e Brasil foi, ao mesmo tempo, um gesto humanitário, uma operação diplomática e um exercício de poder simbólico. Servia para aproximar uma população traumatizada de um momento de normalidade. Servia para promover uma campanha de desarmamento. E servia também para projetar o Brasil como ator relevante num novo tabuleiro internacional, capaz de liderar uma missão de paz e exportar influência através do seu maior ativo cultural: o futebol.
A chegada da seleção brasileira a Porto Príncipe ilustra essa ambiguidade. Os jogadores não atravessaram uma cidade em festa num autocarro descapotável. Foram escoltados por sete blindados da ONU. O trajecto entre o aeroporto e o Estádio Sylvio Cator foi feito num comboio militar, sob fortes medidas de segurança, ladeado por uma multidão de dezenas de milhares de haitianos que ocuparam ruas, muros, telhados, árvores e postes de iluminação para tentar ver Ronaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos ou Júlio César. A imagem que permanece é poderosa: os mesmos blindados que simbolizavam a instabilidade foram transformados, por algumas horas, em carros alegóricos da esperança. “Lembro de tudo. De ir de tanque para o estádio. Chegando lá, todos nós tivemos noção de que aquilo não era só futebol, era muita coisa envolvida, e foi lindo”, contou Ronaldinho Gaúcho, campeão mundial em 2002, citado pelo “O Globo“.
Troca de armas por bilhetes
Antes do encontro, uma campanha promovida pelas autoridades haitianas e pelas Nações Unidas ganhou destaque internacional. A mensagem era simples: trocar armas por bilhetes para o jogo . O que parecia ingénuo, talvez até utópico, funcionou no sentido em que foram entregues algumas centenas de armas. Naturalmente, nenhum conflito se resolve através de um jogo de futebol. Nenhuma arma entregue altera, por si só, as estruturas que alimentam a violência. Mas a campanha dizia muito sobre o momento: quando as instituições falham, por vezes é o simbolismo que ocupa o espaço deixado vazio pela política.
O Estádio Sylvio Cator encheu-se com 15.000 espectadores, entre eles o presidente do Brasil Lula da Silva, horas antes do apito inicial. O ambiente foi descrito por muitos jornalistas como algo próximo de uma celebração nacional. Mais tarde uma frase surgiria como eco daquele momento único: “O jogo que parou uma guerra”. Não a parou. Mas interrompeu-a. E para quem vive permanentemente cercado pela violência, uma interrupção já é uma forma de acontecimento extraordinário.
Dentro das quatro linhas, o futebol foi previsível e nem os quase 40 graus daquela tarde ou o pedido do presidente Lula à seleção para poupar os haitianos de uma goleada, impediu o Brasil - então campeão do mundo - de vencer por 6-0. Ronaldinho Gaúcho marcou três golos, Roger Flores bisou e Nilmar fechou a contagem. O resultado confirmou a diferença de qualidade entre as duas equipas - o Haiti ocupava a 95ª posição do ranking FIFA -, mas acabou por tornar-se um detalhe da história.
O que permaneceu não foi o marcador. Foi a emoção. A cada passe ou drible dos canarinhos os adeptos haitianos respondiam com uma ovação como se eles próprios tivessem marcado golo. Como explica o historiador Gerard Charles no documentário “O dia em que o Brasil esteve aqui”, de 2005: “No futebol, os haitianos sabem que o Brasil é a projeção do seu sucesso e com o seu jeito particular, torna-se a projeção do que os haitianos querem ser”. Na sua tese de final de curso “Eventos esportivos como prática de sportswashing : um estudo sobre o "Jogo da Paz" entre Haiti e Brasil em 2004”, Renan Silva explica que o povo haitiano sempre viu a seleção brasileira como “um grupo de negros de origem humilde que, apesar das suas dificuldades, conseguiam derrotar as potências europeias e mostrar o seu valor. Essa identificação da população do Haiti pelo Brasil através do futebol fez nascer uma paixão sem precedentes dos haitianos (...) acima de tudo pela seleção brasileira de futebol.”
O “Jogo da Paz” tornou-se num dos exemplos mais citados da relação entre futebol, diplomacia e poder simbólico. A FIFA distinguiu a iniciativa com um prémio Fair Play. O encontro entrou em documentários, estudos académicos e reportagens.
Apesar dos jogadores brasileiros terem chegado ao Haiti apenas duas horas antes do jogo e terem partido para o Brasil logo após os 90 minutos, o legado deste encontro continua difícil de catalogar. Para uns, foi uma demonstração de como o futebol pode criar pontes onde a política falha. Para outros, foi também uma operação de comunicação que ajudou a legitimar uma intervenção internacional e a reforçar a imagem do Brasil como potência regional emergente. Provavelmente foi ambas, porque os acontecimentos verdadeiramente importantes raramente cabem numa única interpretação.
Mais de duas décadas depois, o Haiti e Brasil voltam a cruzar-se, agora num Campeonato do Mundo, e a memória daquele dia regressa inevitavelmente, como lembrança de que o futebol não resolve conflitos, não reconstrói Estados, nem elimina desigualdades, mas, por vezes, consegue oferecer algo igualmente raro: um momento de respiração.
Noventa minutos em que um país deixa de pensar apenas na sobrevivência. Noventa minutos em que a esperança parece mais forte do que o medo. O Haiti não mudou por causa daquele jogo. A violência não desapareceu. A instabilidade regressou. As crises sucederam-se. O terremoto de 7,0 graus de magnitude em 2010 deixou mais de 220 mil mortos. Em 2019, a Missão da ONU foi oficialmente encerrada. O país continua um caos. Mas, durante uma tarde de agosto de 2004, um país inteiro respirou. E há lugares no mundo onde isso já é muito.