No Países Baixos-Suécia todos atacaram bem. Nem todos foram eficazes
Crysencio Summerville fez o quinto golo neerlandês contra os suecos: foi o segundo marcado pelo jogador no Mundial
Lars Baron
Olhando para o resultado (5-1) que os suecos sofreram após aplicarem o mesmo no seu primeiro jogo, poder-se-ia dizer que os neerlandeses destruíram o adversário sem espinhas. Em Houston, esteve longe de ser esse o caso. Com bis de Brian Brobbey e Cody Gakpo, a seleção que arrasta uma multidão laranja pelos EUA foi, sobretudo, eficaz, mas incapaz se mostrou de impedir as muitas oportunidades fabricadas pelos nórdicos. Faltou à Suécia a eficácia que houve do outro lado
Fica difícil resistir à Holanda a que não se pode chamar Holanda apesar de cada neerlandês com quem se fala se dirigir à sua terra como “Holland”, mas pronto, houve muitos tempos em que ainda mais complicado foi um adepto neutro não ser cativado pelos Países Baixos quando ainda lhes podíamos chamar Holanda: nas duas finais seguidas de Mundiais, em 1974 e 1978, uma com Johan Cruyff, no extraordinário golo de Marco van Basten à União Soviética no Europeu de 1988, no não menos incrível de Dennis Bergkamp dez anos depois, à Argentina.
Mais fluorescente na camisola, menos radiante nos nomes, humilde na exuberância do futebol jogado que lhe é hoje possível, os Países Baixos vindos de um empate com o Japão começaram práticos, sem burilados, diretos nas suas ações contra os igualmente simples suecos. Em Houston, chocavam duas seleções a pressionarem os primeiros passes, decididas a serem chatas junto dos centrais. O futebol inicial refletiu essas vontades.
Houve chutão longo para a frente, o armário de músculo de Brian Brobbey resistiu ao encosto do corpulento Isak Hien, aguentou as faíscas do duelo, tocou para Tijjani Reijnders que aparecia de frente, este lançou a corrida de Cody Gakpo pela esquerda. Entretanto o avançado que domesticara a bola na relva já corria desvairado, um camião de músculos embalado e desgovernado área dentro, sem puxões de tecido que valessem para o frenar. Brobbey marcou cedo o primeiro golo, o centralão da Suécia nada pôde contra ele.
Só com 10 minutos já jogados, depois de Viktor Gyökeres ter pradaria para correr, fugir ao duelo com Virgil Van Dijk e rematar na passada, chamando Bart Verbruggen a defender, é que a partida se deixou de esticões. Os choques perto de ambas as áreas de um avançado matulão contra um defesa central equivalente passaram a acontecer de um só lado. Obra dos neerlandeses, dado o clique em como atrair a pressão do par de avançados da Suécia para a sua saída a três e libertar Frenkie de Jong. Com a pausa do médio, demorado na bola por natureza, as jogadas ganharam passes.
O matulão Brian Brobbey a festejar o segundo golo que marcou à Suécia, em Houston
Molly Darlington
A do segundo golo juntou a paciência a empurrar a Suécia para trás à predominância física de Brobbey, agressivo a livrar-se da marcação, atacar a pequena área e desviar o cruzamento de Denzel Dumfries, na direita. Com o laranja justo às suas curvas, bastava olhar para o avançado e constatar o quão distante, em estilo, está do arquétipo de atacante do país: com os gémeos nas pernas, os bícepes nos braços, os trapézios a trepar o pescoço, tudo inchado, programado está para o choque físico. A equipa toca a bola, ele bate nos corpos.
Até à pausa para faturação de quem pagou à FIFA os direitos de transmissão dos jogos, desculpa para os jogadores beberem água no estádio de Houston onde a temperatura nem aos 23ºC deveria chegar, os Países Baixos tiveram mão firme no jogo, adormecendo-o, mas deixando de encontrar Brobbey ou Donyell Malen, falso extremo à direita para se enfiar entre os centrais. Feita a pausa, tendo o inglês Graham Potter os seus três minutos para privar com os suecos no sueco que aprendeu nos anos em que por lá lançou a carreira, a Suécia transfigurou-se.
Nos 25 minutos seguintes os nórdicos de azul brincaram com a permeável pressão adversária, saindo da sua área com calma, seduzindo os neerlandeses a caírem em cima para encontrar Alexander Isak ou Gyökeres, um deles, a receber nas costas dos médios. A Suécia jogava como a Holanda do antigamente: passes no pé, um objetivo claro, jogadores próximos uns dos outros, a relacionarem-se na bonita simplicidade de uma tabela ou de um apoio frontal (quando alguém, de costas para a baliza, toca para quem está de frente). Tornaram-se quase imparáveis.
Gyökeres rematou um par de vezes, uma delas de livre direto. O pé canhão do médio Yasin Ayari, à boca da área, também. O canhoto Jesper Karlström tentou outro. Os suecos enchiam-se de volume ofensivo, abusavam dos espaços que os centrais laranjas destapavam, apenas lhes faltou um golo. Gustaf Lagerbielke, central cujo clube está em Braga, teve meia perna e um pouco de ombro fora de jogo quando, de cabeça, fez o seu. A Suécia produziu uma alarvidade de ataques, nenhum lhe valeu o que almejava. Brobbey deixara de ser visto, os Países Baixos nem na bola tocavam.
Gyökeres a marcar um livre direto que o guarda-redes Verbruggen defendeu
Michael Regan - FIFA
Mas o impiedoso futebol, indiferente a ímpetos não concretizados, castigou os nórdicos pelo desperdício. Mal a segunda parte começou, posto Crysencio Summerville no jogo, o veloz extremo dinamitou uma jogada pela direita, lançou Dumfries e a sua bola rasteira, a atravessar a pequena área, chamou Gakpo a festejar. O terceiro golo imitara o segundo. Pouco depois, o quarto pediu aos neerlandeses que corressem rápido: numa bola recuperada no seu meio-campo, Summerville acelerou primeiro, libertou Gakpo e, na esquerda, a sua marca registada apareceu. Finta para dentro, remate ao poste mais próximo.
Permeáveis, se bem que eficazes, os Países Baixos escapavam a pagar pela facilidade com que eram arrastados sem a bola, feitos baloiçar sem ordem pelas movimentações dos suecos. Era um jogo para os ataques, não para as defesas deixadas aos papéis de diferentes maneiras. A Suécia, frágil a defender a sua área de cruzamentos pela relva, marcou finalmente o seu golo ao soltar Isak entre linhas, fatiando a desorganização adversária pelo centro do campo com um passe para a corrida de Anthony Elanga.
A vivacidade da partida arrefeceu com a pausa, os adeptos bem que a assobiaram, esta surgiu quase aos 70 minutos para proporcionar outra drástica mudança num jogo. Tem sido hábito neste Mundial. Esmorecido o ritmo, a Suécia perdeu acutilância com a maior atenção dos neerlandeses a vigiarem o espaço à frente da sua defesa. Ajudou a entrada de Teun Koopmeiners, fresco no papel onde Frenkie de Jong sofria para impedir tanto jogo nas suas costas. Já sem Brobbey, saído para Memphis Depay ir conhecer o bolso do central Isak Hien, os Países Baixos contaram os minutos restantes a procurarem Gakpo, o único dos atacantes capazes de aguentar a bola na frente.
A boa fase da Suécia decaiu em qualidade com o acometimento dos neerlandeses. Viram-se os finos toques de primeira de Gyökeres quando solicitado de costas para o adversário, seguidos de tabelas, dotes que o avançado aprimorou no Arsenal e que dispensava durante a sua supremacia em Portugal. O médio Lucas Bergvall acrescentou calma às posses. Com bola os nórdicos continuaram bem, não tão bem face ao acometimento neerlandês, mas sem ela permaneceram mal.
Cody Gakpo seria eleito o melhor em campo no Países Baixos-Suécia
ANP
Sendo hoje o que pode ser, perseguida pelos Estados Unidos por um autocarro de dois andares barulhento, com música a tocar aos berros, cujo rasto pelas cidades se faz de um comboio de gente vestida de laranja, a seleção de Ronald Koeman, prática de processos, sem pretensões a aspirar a um futebol sequer próximo de ser total, reforçou o seu caso de ser o conjunto mais eficaz que já passou por Houston quando Summerville, aos 90 minutos, furou a Suécia por dentro e finalizou, com o quinto golo, uma jogada rápida. Mais uma vez, pôs-se a tocar no estádio uma canção reminiscente do som plástico da Eurodance, quando a Holanda que ainda era Holanda encantava mais.
Valeu-lhe a pródiga eficácia, marcando meia dezena de golos com as sete tentativas que acertou na baliza - das 13 com mira direita no Mundial vão com sete marcados. São uns Países Baixos de remate, soltos da cisma pelo passe, pelo espetáculo, pelo controlo. Até onde tal os levará será teima para ser esclarecida nos jogos a eliminar onde a Suécia, apesar da derrota que tornou a seleção que sofreu no segundo encontro o resultado que aplicou no primeiro, mantém o vislumbre de chegar. Nos menos numerosos e histéricos nórdicos, presença menor no estádio, terão de existir correções quando se defendem em campo. Igual nos entusiásticos vestidos de laranja - mas, dado o frenesim pelas ruas e dentro do estádio, quem os segue não se parece importar muito com isso.