Só em Houston há três ligas da Man v Fat, esta no oeste da cidade, onde mais de uma dezena de homens se juntou, mais uma vez, para perderem peso com a ajuda do futebol
Em Houston, onde Portugal jogou e voltará a jogar, há um torneio que só aceita pessoas pelo menos pré-obesas. Chama-se Man v Fat. E as equipas podem começar com golos negativos caso os participantes ganhem peso
Herbert Tello surge já equipado, os calções e a camisola brancos, com óculos justos à cara, tipo Edgar Davids. Apenas tem de se sentar por um momento, trocar o calçado e, uma vez pronto, ir à balança pesar-se. “No início tinha 125 quilos”, recorda. Venezuelano imigrado em Houston, no Texas, adora futebol e durante anos quis “simplesmente tentar jogar”. Um dia apareceu num pick-up game, inglês para jogo improvisado, não muito sério, aberto a quem aparecesse, e a intenção não o favoreceu. “Joguei, aguentei dois minutos e lesionei-me”, recorda, levando uma mão ao adutor, rememorando a parte interior da coxa.
Desmoralizado, “envergonhado também”, pôs na cabeça outra ideia. “Pensei: ‘Vou seguir as instruções do Ronaldo’.” Começou a ir ao ginásio “como deve ser”, perdeu “algum peso”, curou a mazela. São muitas as diferenças para o capitão de Portugal que dali por dias jogaria contra a República Democrática do Congo, no Mundial, não marcaria golos, nem despiria a camisola para se ver a sua barriga com socalcos de músculo. Para o caso, importa uma: o Índice de Massa Corporal de Cristiano tem um só dígito, o de Herbert está acima dos 27,5, um patamar considerado de pré-obesidade. Era o mínimo que podia ter quando se inscreveu no Man v Fat.
Fundado há pouco mais de uma década no Reino Unido, o projeto foi exportado para os Estados Unidos em 2024, quando um em cada quatro adultos era obeso, indicava então o Centro Nacional de Prevenção e Controlo de Doenças do país. Nos dois anos anteriores a taxa de obesidade na população adulta estava nos 40,3%. No seu primeiro jogo, Herbert pensou que não “conseguiria acompanhar” o ritmo. Inspirado em Ronaldo, fã de Vitinha, vai hoje na quarta época nas ligas do ‘Homem contra Gordura’, tradução do torneio de futebol de cinco, com tabelas, onde a bola não sai, as partidas duram 30 minutos e só podem participar homens com excesso de peso — se forem gordos o suficiente.
O projeto Man v Fat surgiu no Reino Unido e chegou aos EUA em 2015. Tem 27 ligas espalhadas por sete estados do país
Dono de um pontapé forte, já perdeu 19 quilos enquanto no campo foi deixando outras coisas. “Na primeira temporada marquei 33 golos, depois 66, nesta tenho mais de 100”, conta, já suado, dentro do pavilhão onde acabou de jogar. Fica num subúrbio a oeste de Houston, abeirado de uma via rápida, das típicas americanas com cinco faixas para carros fartos em cilindrada, movidos por motores a roncarem de gasolina.
Esta partida contou para uma das oito ligas ativas no Texas, um estado com quase o dobro do tamanho da Alemanha onde o barbecue é uma questão cultural. Só em Houston há três — são 27 em todo o país. Esta joga-se à segunda-feira. Os seus jogadores, no total, já perderam mais de 80 quilos e uma das equipas, sem pruridos em ser jocosa, chama-se Whatabelly. Os nomes de outras mantêm a linha autodepreciativa, sem se levarem muito a sério, na tentativa de arranjar trocadilhos com os nomes de clubes conhecidos do futebol: o Bayern Muffin e o Inter Milaneza alinham no objetivo, o mais direto Heart Attack FC preferiu outra brincadeira. Quem veste as respetivas camisolas pouco se importa com isso.
Para José de la Garza, mexicano residente em Houston faz tempo, “as pessoas que conheces são a melhor parte, são como tu”. Pai de três filhos, que, mais crescidos, não demoveu de se renderem ao beisebol, sorri ao contar que todos se “motivam a perder peso”. Aos 42 anos, no Man v Fat há um e meio, emagreceu 11 quilos. Fala do buddy system presente nas conversas em pessoa ou dos grupos de WhatsApp onde os jogadores se incentivam e fazem “com que todos sejam responsabilizados pelas suas ações”. Por cada um, mas também por todos.
Cristiano Ronaldo alvo de muita críticas após a exibição frente à RD Congo
Elizabeth Kreutz/ISI Photos
A balança presente em cada jogo do Man v Fat, à qual se têm de submeter, determina o resultado com que arranca a partida: se alguém surge com mais peso face à semana anterior, acrescenta-se um golo ao marcador; no caso oposto, subtrai-se, podendo haver golos negativos. Este jogo começou 7-6, sintoma do desleixo geral dos participantes. José, quase nos 42 anos, jogava nos tempos de liceu, mais a sério na faculdade. Era pago para o fazer, mas uma lesão e cirurgia ao joelho frenou a sua relação com o futebol. “Desisti e ganhei muito peso, mas queria tentar jogar outra vez. Adoro estar aqui, dá-me oportunidade de ser ativo”, diz quem arranca cada intervenção com um “sí, señor”, mesma resposta que deu à pergunta sobre se também a ele caía bem Ronaldo.
O projeto não existe em Portugal, onde o ano passado, segundo o Instituto Nacional de Estatística, 37,3% dos adultos tinha excesso de peso e 15,9% eram obesos. A torcer pela seleção nacional, aparentemente mais do que pelo México, José de la Garza falou antes do jogo renhido, com raras pausas, no qual participou em Houston. Teve muitos remates, mais do que combinações de passes. A árbitra só apitou quando um jogador entrou na área, onde só o guarda-redes pode pisar.
Os jogadores desta liga, uma das sete de Houston, perderam juntos 80 quilos. Há casos em que foram mais de 300
O da equipa Whatabelly, outro com óculos em campo, era Roberto Rodríguez. Provável mais novo em campo, aos 28 anos conta três épocas no torneio. Perdeu mais de 30 quilos. “Gosto muito do projeto e do que faz por mim, agora quero envolver-me mais na comunidade e ajudar os outros. Significa muito”, explica. Há menos de um mês tornou-se treinador-adjunto, não da sua equipa, nem de outra, mas do Man v Fat no geral. A função não será tanto essa, serve mais de ajudante para Zachary Beardsley.
Os quilos ganhos ou perdidos
Tem 32 anos, é o responsável pelas três ligas de Houston. Aterrou na véspera vindo do Colorado, lá esteve a trabalhar noutras lides, no caso a dança, num espetáculo no qual é residente. Fala rápido, como quem se apressa para acompanhar o ritmo do próprio pensamento. Na boleia de meia hora que nos dá, com partida da downtown de Houston, conta ser americano de nacionalidade, filho de um antigo piloto da Força Aérea do Canadá, de infância feita em vários países do Médio Oriente por onde o progenitor esteve destacado. É cursado em nutrição e exercício físico, o futebol nunca quis muito com ele.
Tratam-no por “Zac”. Diz-se “um gestor” de personalidades, ouvido de desabafos, ombro para amparos. É também quem se encarrega de pesar os jogadores. “Se eles ganharam peso, obviamente que há que ter alguma moderação nisso”, nota, com pinças, as mesmas que usa nas situações que descreve: “Não quero estar a apoiar exuberantemente um jogador, como ‘meu Deus, atingiste os teus 5%, parabéns!’, e depois, quando vem o próximo e ganhou peso, dizes ‘bom trabalho’. Queres ter mais ou menos a mesma reação a tudo.” Salutar uns efusivamente diante de quem, por stresse, problemas familiares ou um episódico ataque de snacks a meio da noite, se descuidou nessa semana não ajuda.
Antes do jogo, luz no telemóvel as tabelas com a evolução dos números dos jogadores de diversas equipas das várias ligas. Mostra uma na Florida, cujos jogadores, em seis temporadas, perderam em conjunto mais de 300 quilos. “Isto é mais do que uma dieta, essas ondulam, são difíceis de manter”, opina. No Man v Fat os “sobe e desce são normais”. Se os jogadores, durante a semana, reportarem a Zac a alimentação, cumprindo certos critérios, a sua equipa começará com mais golos.
O futebol sempre foi uma comunhão de pessoas que aspiram ao mesmo, mas aqui joga-se para perder peso entre pares. “Ver alguém mudar a sua vida em 14 semanas”, elogia Zac, “não é algo que vejas todos os dias na tua vida”. Há ligas que têm 90 pessoas e poucas são, garante, as que tomam medicamentos para a perda de peso, como o Ozempic. Nestes pontapés particulares contra a gordura será isso encarado como doping? Serão os que as tomam considerados batoteiros?
O ‘treinador’, além de fazer a apologia da consistência, dizendo que os maiores perdedores de peso são os que mantêm a regularidade nos jogos e na alimentação cuidada, argumenta com diplomacia: “O bom é que eles não sabem quem se medica com o quê.”