O super-suplente deste Mundial é alemão e chama-se Deniz Undav
Deniz Undav saltou do banco para dar a vitória à Alemanha
Ezra Shaw - FIFA
Depois de marcar e oferecer mais duas assistências no jogo com Curaçau, avançado alemão voltou a saltar do banco para, agora, verdadeiramente resolver: marcou mais dois golos que valeram uma reviravolta conseguida a duras penas (o golo da vitória por 2-1 apareceu aos 90'+4) frente a uma Costa do Marfim que durante boa parte do encontro foi a melhor equipa em campo
Não que o mundo tenha mudado. Nem sequer a tendência é nova e estranha, porque rara. Mas talvez o Mundial 2026 a tenha provado definitivamente: já não há clichés, lugares-comuns, estereótipos. Não há equipas “tipicamente africanas”, seja lá o que isso signifique, brasileiros viciados no rendilhado, nórdicos grandes e duros, uma Alemanha que é uma parede a defender.
A última semana tem-se encarregado de colocar a nu que há bons treinadores em todo o lado, fantasistas onde menos se espera, e fragilidades também. Durante boa parte do Alemanha-Costa do Marfim, quem ditou os tempos, o ritmo do jogo, acelerações, pausas, como uma máquina industrial fiável, foi a seleção africana, perante uma equipa germânica afogueada, nervosa e desesperadamente em busca de uma qualquer harmonia.
Diomandé voltou a brilhar junto à linha
Ezra Shaw - FIFA
Tal aconteceu até antes da Costa do Marfim marcar, à meia-hora do jogo em Toronto, pressentindo certamente a Alemanha problemas futuros. A seleção bem trabalhada por Emerse Faé adivinhou cedo as mecânicas da pressão alta alemã e, amiúde, surgia de supetão na área adversária, não poucas vezes com um camião de jogadores.
Yan Diomandé, o miúdo do RB Leipzig, estava no seu parque de diversões particular - na 1ª parte deu cabo da cabeça a Kimmich, depois a Brown. Dos seus pés e insolência saia sempre algo vindo da ala esquerda, para onde se deslocou para que Diallo fosse titular no outro lado. Sem espaço para entrar na área, a Alemanha só conseguia rematar nos nicos de verde que surgiam à entrada da área. Foi daí que Musiala, primeiro, e Nmecha depois tentaram desbloquear, sem sucesso.
Não foi por isso uma surpresa completa quando, aos 30’, Diomandé baralhou as marcações de dois homens para chegar à linha e cruzar, um passe ao qual Brown respondeu com um corte falhado e Franck Kessié, o fiel da balança do meio-campo marfinense, com uma recarga certeira. E, em vantagem, a Costa do Marfim não se descaracterizou, mantendo-se sólida a defender, tapando até os mais ínfimos espaços para quem deles se alimenta, como Wirtz ou Havertz, e provocando arrepios a cada transição.
Kessié festeja o golo, após cruzamento de Diomandé
Michael Miller/ISI Photos
A seguir ao intervalo, o jogo marfinense mudou de centro, alimentando-se de combinações entre Diallo e quem o conseguisse acompanhar. O primeiro companheiro de tabelinhas foi Kessié, com o remate do médio a sair prensado. Logo de seguida seria Christ Oulaï a alinhar na cavalgada com o jogador do Manchester United, que em dois, três passes conseguia colocar o jogo da sua equipa na área da Alemanha, onde o espaço não faltava - longe vão os tempos da fortaleza defensiva teutónica.
Vendo o caso bem mal parado, com o seu ataque móvel perdido entre tanto laranja, Nagelsmann lançou Leweling, Deniz Undav e Amiri à falta de meia-hora, num compromisso entre o ataque posicional e pouco mais de presença na área. Não demoraria a recolher lucros de tamanho investimento, com o avançado do Estugarda, e tal como no encontro com Curaçau, a sair do banco com cifrões raiados nos olhos.
Se contra a seleção caribenha Undav, que há seis anos jogava na quarta divisão alemã, marcou e ainda ofereceu mais dois golos numa goleada que já farejava, frente à Costa do Marfim o avançado seria decisivo para a mudança de guião. Num lance de variação rápida entre o corredor central e a direita, um cruzamento tenso de Amiri encontrou a cabeça pesada de Undav, que nem bola de demolição. A Alemanha encontrava, finalmente, e a partir do jogo exterior, o caminho para a baliza.
Musiala num lance com Sangaré
Ezra Shaw - FIFA
O que não significou uma mudança repentina no jogo, que entrou até num momento de adormecimento, que não foi mais do que a calma antes da tempestade. Nos últimos cinco minutos, chegou o frenesim, não pedindo licença, com o jogo partido a gerar oportunidades claras para ambos os lados. A mais estrondosa uma transição rápida superiormente conduzida por Nicolas Pépé, que substituiu um Diomandé apagado na 2ª parte, com o serviço perfeito para Sangaré a acabar com o médio do Forest a atrapalhar-se em toques num lance que pedia um remate de primeira. Houve mãos na cabeça perante tamanha perdida.
A Alemanha respondeu por Brown, num remate já dentro da área bem amarrado por Fofana, logo de seguida Amiri foi garganeiro quando tinha Goretzka à sua direita aberto na área e já com quatro minutos para lá dos 90’, seria de novo Undav, servido por um passe a rasgar de Nmecha, a colocar-se em frente à baliza da Costa do Marfim com dois simples toques, um para girar, outro para rematar.
Durante boa parte do encontro, um cenário de Alemanha com seis pontos em dois jogos parecia altamente improvável. Valeu o super-suplente deste Mundial, um tipo de quem se diz nem sequer ter uma grande relação com o selecionador, o que pouco importará neste momento a Nagelsmann. Para a Costa do Marfim foi cruel, demasiado cruel, perante a equipa com futebol mais adulto em campo. Estará seguramente na próxima fase. E a ter em conta.